Esquina

Há uma esquina em que todos os sonhos estão quebrados. Ela cheira a tapete antigo, café frio e perfume barato. Todos que passam ali não percebem as folhas mortas no chão e o buraco no muro recém construído. Narciso poderia ter morrido naquela poça d’água fria e suja, tantos são os egos esfarelados por aqui.
Ah sim. Tantos egos. Cores fortes que morreram contra o muro, nomes que queriam ser mitos esquecidos em páginas rabiscadas por canetinha barata, belezas vaidosas que perderam o sentido quando a idade chegou. Tantas estrelas perdidas num céu distante. Ninguém mais sabe nomear constelações em eras digitais.
O poste quebrado já não ilumina nada e a esquina escura é repouso de espelhos quebrados que massacraram seus donos com a realidade: a vida não é só sobre imagem. Há tanto mais ignorado. Mas ninguém quer olhar pra própria casa antes de vigiar a casa alheia. E é dentro de casa que estão todos os armários pra consertar e aquela prataria velha pra colocar no lixo. Os sonhos que a esquina fria não condena são aqueles poucos que lutam por causas perdidas.
Mas amigo, a esquina das causas perdidas é essa ali de baixo. Passa lá e toma um chá que o cheiro é melhor do que essa realidade que cheira a roupa mofada.

O universo e (em?) nós

A lua eclipsal se posiciona sobre aquário. O que parece escuridão, brilha reluzente do seu outro lado. Aquário, do auge de sua frieza, sorri um sorriso infinito cercado de estrelas cadentes que as luzes das cidades não nos deixam ver. Se não houvessem tantos postes, e tantas luzes quebradas dentro de nós, quem sabe veríamos o que o universo nos mostra e escutaríamos as melodias antigtumblr_oomspytAsx1qh7yubo1_500as que eles cantam pros cometas dançarem.
E eles dançam tão longe de nós, meros humanos aparvalhados em mídias sociais, celulares e frieza uns com os outros. A vida tão lenta no infinito das galáxias pouco reflete em nós, sempre correndo contra o tempo que inventamos pra nos prender em gaiolas imaginárias, sem nem mesmo saber pra quê. Quantas algemas nos prendem aqui? Quantas vezes nos algemamos a esse planeta dito único habitável? e quantas vidas perdemos de viver vivendo essa única de idas e vindas em horários apertados, dias corridos e sonos agitados?
Andrômeda pode estar nos esperando de mesa posta pro jantar e nós jamais saberemos. Nós recusamos os convites das estrelas todos os dias quando ligamos a televisão pra assistir coisas inúteis que preenchem apenas o vazio do buraco negro que nos consome de dentro pra fora. Que melancolia. O infinito é melancólico. E pode haver beleza na melancolia se a gente souber sentar e conversar com ela olhando dentro dos seus olhos violetas que nunca piscam e tem pálpebras de desertos banhados pela lua cheia. É uma pena que a melancolia a gente ignora pra não precisar lidar com o buraco negro. A gente a ignora e corre abraçar uma felicidade irreal de cores falsas que nos mantém pisando em cacos de vidro na superfície que não brilha, nem reflete a luz da lua.
É difícil perceber a luz da lua com os olhos cegados de fúteis e fuzis. O infinito gira em seu próprio ritmo sem nós, enquanto nossas horas passam em ansiedade constante em que nada se encontra além de nuvens que nunca chovem e sóis que não aquecem. Um dia a gente chega lá. A gente olha pra cima e cumprimenta a lua como velha amiga, e ela há de sorrir de volta.

Uma Carta aberta ao(s) Abusador(es) da(s) minha(s) Amiga(s)

* acreditem ou não, essa carta serve pra várias pessoas*

 

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Dia bonito, não? Você deve estar aí assistindo suas coisas, sequer lembrando dos males que causa, ou das dores que espalhou pelo caminho, porque como qualquer outro homem você foi educado pra ser um canalha abusivo, e assim, você não foge a essa regra. Como qualquer homem, você achou que algumas palavras de ‘eu sempre disse que não queria nada sério’ ou ‘eu não estava pronto e você sabia’ podem substituir responsabilidade emocional ou respeito pelo outro ser humano com quem se está junto. Mas deixa eu te contar: algumas palavras vazias não justificam nada. Especialmente se no final de tudo outro ser humano sai destruído e você que destruiu manipula tudo e todos pra sair de vítima e fazer ela, que está doente agora, sair de louca. E eu tô escrevendo isso aqui porque eu não aguento mais ver mulheres destruídas por homens medíocres abusivos. Porque eu não aguento mais ver mulheres doentes.

E não é fraqueza de mulher não, como tentam justificar. A gente chama isso de abuso, ou como a Lei Maria da Penha tipifica – violência psicológica. Seu tipo de abuso pode não machucar fisicamente, mas quebra uma mulher psico e emocionalmente, e isso também é crime. E você pode até fingir que isso não existiu. Mas manipular emocionalmente uma mulher e minar a auto estima dela de maneira que isso sirva aos seus interesses é violento. Fingir que não conhece porque tem vergonha dela – por não ter um emprego classe média ou porque para um gosto masculino clichê e pequeno ela não é padrão – é abusivo. É abusivo e preconceituoso, duas coisas presentes na masculinidade dessa sociedade doente. E nem adianta dizer que não é preconceito. Um mês depois do fim com ela, você assumiu um relacionamento sério com a mina padrão depois de 1 ano escondendo a mina não-branca faxineira – E VOCÊ VEM DIZER QUE NÃO TEM NADA DE PRECONCEITO, ERA SÓ POR QUE NÃO ESTAVA PREPARADO? Quantos casos desses a gente já não ouviu ou viu na vida? é incrível como homem acha que mulher é burra quando a gente é muito mais inteligente que eles. E desde que te conheci, tenho certeza da minha superioridade intelectual em relação a você.

Além disso, pegar dinheiro emprestado de má fé e não pagar, não é só abusivo, é crime de estelionato. E continuar enviando mensagem depois do fim é EGO. E que ser humano egocêntrico você é. Tudo é sempre sobre você. A pobre vítima. O amigo abandonado. O moço que as pessoas agora viram a cara. O pobre homem que falam mal. A dor é apenas a sua. Tudo é sempre sobre como você foi bom, mesmo escondendo pelos cantos a pessoa com quem se relacionava. Sua amizade valia a pena, mesmo minando a auto estima da outra pessoa. Você escreve felicitações mas as frases remetem apenas sobre como você se sente e o que você quer, e NUNCA sobre como a outra pessoa se sente ou o que ela quer. Isso é ego. E tem coisa pior que Ego? Tem coisa mais nojenta do que homem egocêntrico? Pior que isso, só unindo esse fator a uma máscara de bom moço pra esconder mau caráter.

E admito, a máscara de bom moço até que é boa. Caiu porque alguém que apóie PM em protesto, que fale de corrupção sendo um preconceituoso de merda e que gritou fora Dilma em passeata MBL, revela muito sobre personalidade. Ainda bem que feminista e raposa velha tem faro bom, e a máscara do ‘cara gente boa’ sempre cai. A máscara de cara legal não dura pra sempre quando a gente descobre os crimes, quando se descobre do que é capaz. Quando a gente lê as mensagens em que você segue culpando ela dos abusos que você infligiu a ela, das merdas que você fez e diz que a culpa é dela. Das suas frases de Ego sobre como sua amizade é preciosa e como você gostaria de estar presente, mesmo tendo destruído a vida de outra pessoa e ser incapaz de notar isso. E isso só aumenta a lista de abusos. Destruir psicologicamente outra pessoa não é algo do qual se livre com facilidade, e embora eu saiba que não, espero que isso te atormente muito enquanto você tenta dormir.

E isso me lembra, é incrível como ser homem é fácil nesse mundo! você pode destruir a vida de alguém e ainda sair de coitado. Ainda se fazer de vítima depois de tudo. Ainda chamar outras mulheres de malucas, como eu, quando ver esse texto. Não que eu me importe, porque eu sou bem mais mulher do que você é homem – Porque você é um merda. E calma, calma, fica bravo não. Eu sei como homens são descontrolados mas nem perca tempo me respondendo que eu não leio porcaria.

E fica atento, viu? impunidade pra abuso não vai ser regra pra sempre nesse mundo. Calma querido, que esse mundo ainda muda. Eu não espero nada da justiça dos homens, porque eles sempre protegem gente como você. Esse é um mundo de homens, já se diz há muito tempo. Mas há muita coisa pra vir ainda. E eu só queria deixar registrado o nojo e o desprezo, porque colocar em palavras é importante, E eu te desejo muita reciprocidade da vida – que ela te traga de volta tudo que você fez.

Tudo.

Em dobro.

O amor é um negócio burguês, não te disse?

Desde crianças nós somos ensinados a acreditar que Amor é algo incondicional, que os afetos não tem cor, não tem classe social ou profissão estabelecida. Mas a falácia por trás dessas afirmações segue como um rolo de opressões que nosso apetite voraz por contos de fadas ignora. E ignora especialmente a incapacidade dos homens de amarem mulheres, algumas menos ainda que outras.
O amor tem cor, tem classe social, tem peso, tem raça. Homens não sabem amar mulheres sem exercerem poder sobre elas, e isso vemos de maneira ainda mais abusiva quando falamos de mulheres negras, mulheres gordas, mulheres pobres. E isso se reflete em estatísticas nacionais: mulheres negras são as maiores vítimas de violência doméstica, feminicídio e estupro. São o maior contingente de mães solo abandonadas pelos companheiros. O resultado dessas violências é uma sequência de violências psicológicas e patrimoniais que quase não se discute.
E é nesse mundo que condena essas mulheres a essas vidas cortadas por violência que as relações de afeto existem. E essas relações de “amor” existem ultrapassadas pelo racismo, pelo preconceito em todas as suas formas (quem namora e assume a mina gorda, a mina negra, a faxineira, a empregada doméstica, a babá?), pelo machismo. O amor é assim também transpassado por esses preconceitos e essa violência. Infelizmente, nessa lógica classista, racista e machista eles escolhem com quem terão apenas sexo e com quem eles terão relacionamentos. E não são as mesmas mulheres.
E essa Violência é diaria. Foi esse preconceito que fez de minha avó paterna, negra e pobre, mãe solteira; que faz aquele cara “legal” (só que não) esconder a mina porque ela é a faxineira, que fez o cara “gente boa” bater na moça negra. É essa série de violências que mata mulheres a cada 1 hora e meia. São violências e opressões que a gente finge que não existe nessa bolha romântica, quando o próprio romantismo é uma criação burguesa que sempre escolheu apenas as sinhás e as princesas pros seus afetos. Escolheu as moças bem comportadas pra amar, enquanto mandou lobotomizar as outras. Misoginia, preconceitos de classe, racismo, gordofobia, etc, andam de mãos dadas nessa sociedade e as atravessam por completo. Não é o amor que será isento delas, muito menos o amor de pessoas que sequer tentam refletir sobre a sociedade em que vivem. E é triste admitir isso. É. Mas é Violento e opressor fingir que não é real.

As Caça-Fantasmas 2016: Os Homens não tem medo de Fantasmas, eles têm medo de Mulheres

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILER

Em julho deste ano estreava nos cinemas brasileiros o novo caça-fantasmas (Ghostbusters, no original), um remake – bastante feminista – do original de 1984 protagonizado por um dos reis da comédia do século passado, Bill Murray. O filme chamou a atenção (e a polêmica) ao escolher quatro mulheres para protagonizá-lo e causou revolta nos fãs masculinos. Movimentos masculinistas em diversos países chamaram boicotes para o filme. Mesmo antes do lançamento, esses movimentos se organizaram para abaixar a nota do filme no IMDB. No Brasil, pelas redes sociais, podíamos ler as reclamações e os memes acerca do remake estar destruindo a infância dos homens fãs do filme original.

Dirigido por Paul Peig, produzido por Amy Pascal e Ivan Reitman, o novo caça-fantasmas teve como Protagonistas as maravilhosas Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Leslie Jones e Kate McKinnon, como as físicas Abby e Erin, a engenheira Holtzman, e a profunda conhecedora de Nova York Patty, respectivamente. O filme foi além das expectativas e trouxe para as telas um debate feminista atual poderoso, com comédia, representatividade e sororidade. O roteiro incluiu de propósito os xingamentos da internet que as atrizes receberam pra mostrar o que mulheres ouvem quando ousam fugir do clichê patriarcal.

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( Da esquerda para a direita: Leslie Jones, Melissa McCarthy, Kristen Wiig e Kate McKinnon)

E os comentários masculinos revelam: os homens não tem mais medo de fantasmas – eles têm medo de mulheres. E não entendem o que representatividade significa para mulheres. Eles não foram criados sendo retratados como bonecas de plástico sexualizadas, tolas e sem personalidade. Ninguém os fez acreditar que eles não eram capazes de coisa alguma. Eles criaram cercados de vídeos games com personagens masculinos fortes e heróis que eles pudessem imitar. Os homens de direita acham desnecessário ver mulheres retratadas dessa forma porque acham que mulheres são naturalmente submissas. Homens de esquerda acham desnecessário e apenas mais um produto pra consumir. Mas eles nunca foram meninas e questionaram suas mães ou pais por que não existiam mulheres negras em papéis pra além de faxineiras, ou porque todas as mulheres pareciam tolas demais pra ser reais. Essa indústria continua existindo. E se ainda não podemos derrubá-la, que ela seja ocupada até o dia em que possamos destruí-la e construí-la sob nossos termos.

 

  • O não reconhecimento do trabalho feminino: who you gonna call? 

 A primeira questão que o filme traz é a problemática acerca da marginalização do trabalho feminino e seu não reconhecimento. Erin é uma física brilhante que trabalha e estuda há anos e precisa de cartas e mais cartas de recomendação para assumir uma cadeira na universidade em que trabalha. Em certo ponto, seu chefe comenta sobre sua roupa, considerada ‘brega’, e ela teme cometer qualquer deslize que possa servir para seus colegas tratarem seu trabalho como inferior. Abby trabalha em uma universidade, junto com a engenheira Holtzman, sem recursos e onde sequer sabem que ela existe apesar das suas pesquisas e invenções. Patty trabalha no metrô mas apesar de trabalhar ali, ela é uma profunda conhecedora de toda a cidade de Nova York e sua história.

Quando elas se reúnem para caçar o mal que está atormentando Nova York elas são desmerecidas enquanto pesquisadoras e engenheiras, e tratadas como histéricas. Nenhuma delas tem seu trabalho valorizado, apesar dos anos de dedicação. A TV as trata como loucas buscando atenção – algo que a TV faz frequentemente com mulheres. Erin é demitida do trabalho assim que um vídeo seu com um fantasma aparece para seu chefe, tendo anos de trabalho e pesquisa desacreditados e dispensados por um vídeo. Abby é expulsa do seu local de trabalho quando pede orçamento para a pesquisa que realiza. E muito embora elas sejam as únicas capazes de lidar com os fantasmas invadindo a cidade, elas continuam sendo vistas apenas como esquisitonas.

Quase parece ficção, mas é apenas a realidade. Mulheres sofrem com isso de maneira sistemática em todo o mundo. No Brasil, mulheres recebem acerca de 25% a menos que os homens para realizar as mesmas funções(1). De acordo com a Organização Internacional do trabalho, a igualdade salarial entre homens e mulheres no mundo deve levar mais de 70 anos para se tornar realidade (2). A marginalização do trabalho feminino se dá de maneira sistemática historicamente. Desde o início da era do capital o trabalho feminino é colocado como mais barato e desqualificado, o que além de tornar baixo o salário feminino e invalidá-lo socialmente, também diminui os salários masculinos. Essa estratégia de mercado é mantida inclusive nos dias atuais.

Embora as mulheres tenham saído de suas casas para trabalhar há quase 50 anos, o trabalho feminino não é valorizado na sociedade em que vivemos. Ele ainda é visto como inferior quando não envolvem funções entendidas – de maneira estereotipada – como femininas. Esse estigma de que mulheres servem apenas para serviços domésticos, está longe de ser superado, mesmo quando já somos a maioria nas universidades. Nas áreas exatas, que é a área das protagonistas do filme, ainda é chavão popular dizer: “mulheres não entendem nada de matemática” ou que não sabem calcular. Dentro do mercado de trabalho, apesar de nossas qualificações, ainda nos é exigido padrões de feminilidade como requisito (maquiagem, saltos), os assédios sexuais contra mulheres em seus ambientes de trabalho são frequentes. Apenas no Brasil, mais de 52% das mulheres já afirmaram ter sofrido assédio sexual (3). Um índice que revela que embora mulheres estejam a ocupar esses espaços, elas ainda são preteridas no mesmo e estão longe de ocupá-los de maneira real.

Um conceito desenvolvido no fim dos anos 70 fala que há um ‘teto de vidro’ (4) na carreira de mulheres. A discussão do “teto de vidro” vai dizer que indiferente do desenvolvimento de suas carreiras, acúmulos de experiências e estudos, há um limite que mulheres alcançam e de onde não avançam em suas carreiras. Especialmente para mulheres negras. Essa lógica continua presente mesmo em 2016: no ensino superior, por exemplo, mulheres são apenas 37% dos professores (5), nas áreas tecnológicas, mulheres são apenas 18% dos profissionais (6).

Ao trazer esse assunto a tona, as Caça-fantasmas trazem a crítica a esses estereótipos acerca do trabalho feminino. Holtzman é uma engenheira brilhante, e mesmo assim é vista apenas como a “diferentona”. Abby e Erin tem seus trabalhos desvalorizados por homens ao longo do filme todo. Seus avisos sobre o que está acontecendo na cidade são tratados como maluquice. Mas são elas que, unidas, vão salvar Nova York da destruição. São as armas que elas criam que são capazes de destruir o mal e seus estudos que resolvem os casos. Isso revela que o trabalho feminino tem muito a mostrar mas não tem espaço. Mulheres podem estar – e estão, só jogar no Google e ver – desenvolvendo pesquisas capazes de ajudar o mundo, enquanto são menosprezadas pelos meios em que atuam. Há muita coisa pra mudar. Expor esse problema é um primeiro passo.

 

  • Kevin e o estereótipo feminino invertido: a objetificação feminina no cinema

A objetificação feminina é um problema que tem sido há muito tempo criticado no cinema. Na maioria dos filmes comerciais, as mulheres não interagem entre si a não ser falando de homens e fazem mais cenas de nudez. A maioria dos filmes tem poucas mulheres seja atuando ou dirigindo, e dificilmente as retrata como algo além de estereótipos superficiais que estão ali para satisfazer os fetiches masculinos ou seus sonhos de perfeição. Geena Davis (7) disse em entrevista que é preciso melhorar a qualidade e a quantidade de mulheres no cinema. Ela declarou que a indústria continua reproduzindo os mesmos estereótipos, e ainda há poucos espaços de uma real representação feminina sendo construída. Os estereótipos femininos estão principalmente ligados a beleza e a comportamento. Mulheres são rotineiramente hipersexualizadas, com a exposição constante de seus corpos, e retratadas como incapazes. Filmes como American Pie, franquia de sucesso no Brasil, são um bom exemplo.

O personagem Kevin, interpretado por Chris Hemsworth, evidenciou esse estereótipo feminino mas ao contrário, aplicado a um homem. Essa troca de papeis evidenciou o ridículo dos papéis cinematográficos estúpidos e sexualizados. Kevin é um rapaz lindo que não sabe sequer atender um telefone. Ele constantemente se preocupa com sua aparência, e no final enquanto as mulheres salvam o mundo, ele se preocupava em encontrar um lanche. Coisas assim soam patéticas, não? Mas são esses personagens que são dados para mulheres no cinema. De acordo com a ativista Belsky  “as mulheres são frequentemente retratadas sob um prisma masculino, em que mulheres estão ali apenas para serem objetos passivos dos desejos masculinos” (8). É o conhecido papel da loira burra que está ali para a câmera focar no movimento dos seus quadris, na sua bunda ou lábios.

Em papéis como este que Chris Hemsworth atuou como Kevin, e que são majoritariamente feitos por mulheres, a mulher é objetificada e removida de sua humanidade. Isso faz que quem assista não se sinta próximo da personagem, e ela seja apenas um objeto e não alguém que mereça sua atenção real, como o herói masculino, ‘detentor da sabedoria e da força’. Ao criarmos esses estereótipos, estamos criando a ideia de que mulheres são objetos, cujos corpos são fáceis e públicos. E essa desumanização feminina no cinema e na mídia não é problemática, por questões morais, como a nudez. Ela é problemática porque ela tira de mulheres a possibilidade de serem vistas como mais do que objetos, e é reproduzida em uma sociedade que hipersexualiza meninas e estupra mulheres. Essa desumanização feminina acontece cotidianamente e podemos vê-la presente na cultura do estupro, por exemplo, ou nos índices de violência contra mulheres. É onde percebemos que mulheres não são entendidas como seres humanos, mas como seres que podem estar sujeitas a qualquer coisa. Essas construções midiáticas firmam esse papel feminino e anulam a mulher enquanto sujeito na sociedade.

Expor ao ridículo, através da comédia, o estereótipo é importante para colocá-lo em xeque. Kevin irritou muitos homens. Mas quantos deles se irritam ao verem as mulheres que são as maiorias dos Kevins do cinema vendidos nas salas dos Shoppings? Na sociedade patriarcal objetificação feminina vende de maneira fácil, e problematizá-la no espaço cinematográfico coloca essa narrativa sobre mulheres em disputa.

 

  • Fantasmas? Eles têm medo de mulheres: a importância da representatividade feminina

 

A priori é preciso dizer que o conceito de representatividade é limitado considerando o mundo em que vivemos.     Não é o suficiente que apenas estejamos representadas visualmente enquanto não existem condições reais de escolher quem podemos ser. Mas a disputa do imaginário é importante. Desde sempre estamos sendo representadas como apenas um corpo, e na mesma linha, estão ensinando os homens que não somos nada além de um corpo. Embora saibamos que essa indústria nos é nociva e que na mesma mão em que pode produzir materiais interessantes, produz materiais que produzem e reproduzem estereótipos ao resto do mundo e para mulheres, ela existe – e disputar esse espaço e essas narrativas dentro dessa indústria cinematográfica é importante.

O novo caça-fantasmas têm quatro protagonistas mulheres. A princípio, para muitas pessoas, isso não significa muito. Para homens, isso não significa muito. Tanto é que homens convocaram boicotes ao filme e atacaram as atrizes pela internet. Mas para mulheres, e especialmente meninas, isso significa tudo. A minha geração que praticamente não teve muitos filmes protagonizados por mulheres em que elas não estivessem envolvidas em torno de homens ou que não terminassem em casamentos ou romances. Crescer com isso te faz acreditar, de fato, que você não é ninguém sem um homem, que nem humana você é, se não for feminina. E esses estereótipos continuam a perseguir mulheres até hoje. As caça-fantasmas pisou em cima desses estereótipos com botas militares.

E é preciso pisar nesses estereótipos porque nós não somos as donas de casas perfeitas, e nem estamos constantemente preocupadas com a maquiagem cara ou um marido. Nós somos – e queremos ser –mais que isso. E queremos que meninas possam ver que elas podem ser mais do que os estereótipos patéticos de fragilidade, feminilidade, branquitude e magreza que são impostos às mulheres. De acordo com a teórica feminista de cinema, Laura Mulvey (1977), a mulher existe na cultura patriarcal como o significante do outro masculino, presa por uma ordem simbólica na qual o homem pode exprimir suas fantasias e obsessões através do comando linguístico, impondo-as sobre a imagem silenciosa da mulher, ainda presa a seu lugar como portadora de significado e não produtora de significado. Trazer novos significados e disputar as narrativas no universo da linguagem e dos símbolos dentro de uma mídia poderosa e gigante como o cinema permite resignificar os papéis existentes para mulheres, o que faz com que mulheres possam vir a ser representadas, e assim, entendidas, de uma maneira menos frívola e superficial.

E essa representatividade é importante(9). Porque é preciso que mulheres possam se ver para além dos estereótipos vendidos. É preciso que nos identifiquemos com personagens reais que mostrem parte da nossa vida e da nossa existência enquanto mulheres. É preciso que meninas possam ter ideias diferentes, para além de beleza e sexualidade, do que é ser mulher nessa sociedade. Como em as caça-fantasmas, também podemos salvar o mundo. E é preciso mostrar isso pra meninas se queremos mulheres que façam isso. Meninas negras vão olhar a personagem de Leslie Jones e pensar que como Patty, também podem salvar o mundo. Meninas gordas vão olhar a Abby de Melissa McCarty e saber que também são capazes de grandes feitos, e que seus corpos não a impedirão disso. Saberemos com a personagem de Wiig, Erin, que envelhecer não nos diminui, nem nos torna incapazes. E podemos enxergar na Holtzman que ser diferente não é um problema.

Portanto, não é qualquer representatividade que merece ser aplaudida. Existem mulheres protagonistas? Sim. Mas é uma representatividade falsa quando elas são apenas personagens fetichizadas e com um ideal de beleza determinado. Quando discutimos representatividade, falamos da pluralidade de personagens e de realidades – negras, gordas, LGBT. Estamos falando de algo que represente mulheres para além da hiperssexualização a qual a maioria das personagens está sujeita e dos estereótipos de beleza que ferem mulheres ao redor do mundo. E é preciso tirar as mulheres das narrativas em que elas estão ligadas a aspectos estereotipados de feminilidade e a algum elemento ou personagem masculino. E fazer isso, é dar uma humanidade consistente para as personagens femininas, e torná-las reais de fato. E é isso que há de importante – e incrível – nas personagens das caça-fantasmas. O fato de que elas existem e atuam em uma narrativa muito além de qualquer coisa que envolva homens ou do desejo por algo relacionado a esses elementos, e que estão longe da feminilidade cheia de estereótipos das narrativas tradicionais do cinema.

Além disso, é também não aceitar a representatividade como uma esmola que recebemos enquanto todo o resto da estrutura patriarcal, que mantém e reforça esses papéis estabelecidos em toda a sociedade, continua estabelecido. Tomar consciência acerca da realidade em que essa representatividade é também importante pra saber reconhecer nela o que precisamos, e o que não precisamos. Não adianta que estejamos representadas em todos os lugares, enquanto continuamos morrendo em abortos inseguros ou sem direitos. A representatividade é importante justamente pra nos fazer refletir sobre a realidade que precisamos mudar e o que queremos buscar na mesma. Ela não serve apenas como um reflexo – ela é parte de uma tomada de consciência sobre aquilo que podemos ser e fazer, e daí a importância de se representar mulheres capazes de coisas além dos estereótipos femininos.

 

6) I ain’t afraid of no Ghosts: a lição da Sororidade

Mulheres são perseguidas pelos fantasmas que a sociedade cria para atormentar mulheres por toda a sua vida. As caça-fantasmas de muitas maneiras os combatem seriamente. Vemos constantemente no cinema mulheres cujos atributos são físicos e nos ensinam a crer nisso. O cinema poucas vezes retratou a inteligência de uma mulher sem torná-la frígida ou mulheres competentes sem torná-las mesquinhas. Não retrata mulheres negras ou gordas. E retratou mulheres de maneira mesquinha não nos deixando perceber a força que temos enquanto mulheres unidas. Ocupar essa temática e colocar mulheres pra falar de física enquanto constroem equipamentos capazes de salvar o mundo, é nos dar um espaço que até então nos era negado, e que aos poucos é e precisa ser ocupado.

E será juntas que faremos isso. Um dos aspectos marcantes do filme é a lição de sororidade que as personagens principais trazem às telas. Sororidade quer dizer irmandade e união feminina. As quatro personagens se unem, se protegem e salvam uma a outra, e não se abandonam nem no momento mais perigoso. Em um cinema que por décadas retratou a relação entre mulheres baseadas na competividade e criou a ideia de que mulheres estão sempre disputando algo entre si, é importante retratar essa união feminina que se ajuda e luta junta. O cinema raramente retratou a amizade feminina duradoura e verdadeira, e sempre coloca mulheres umas contra as outras em busca do homem ideal. Ter um filme que coloca em ênfase a união entre quatro mulheres, seu apoio mútuo e sua amizade, é criar uma nova perspectiva cinematográfica em um cinema machista em que mulheres são apenas objetos, e permite resignificar as personagens femininas. É ocupar pra dizer: nós existimos e resistimos – juntas.

Mas ocupar esse espaço rende polêmica e gera ataques daqueles que não querem perdê-lo. E de muitas maneiras, ao dar para mulheres essa voz ainda que pequena em Hollywood, este tocou em algo sagrado da indústria: o ego masculino exaltado na maioria das produções hollywoodianas. A grande mídia e o cinema, acostumou os homens a se verem representados em todos os filmes, e quando não representados, a terem mulheres enquanto objetos para que possam consumir. Mas não dessa vez. O elenco escolhido passou longe do clichê: as quatro mulheres estão longe dos estereótipos do cinema. E de fato, o filme não foi feito pra eles. O filme foi para meninas descobrirem empolgadas que elas podem ser o que quiserem. Foi um filme sobre mulheres. Sobre nossa luta pra sermos reconhecidas enquanto profissionais, sobre estereótipos de cinema. O egoísmo masculino não resume, mas explicita como ainda é pequeno o espaço que ocupamos e quantos fantasmas teremos que combater. Homens se sentem ofendidos ao não serem o foco dos filmes, pois eles sempre são e sempre foram. Quando não exaltam sua masculinidade, criam mulheres fetiches. Se isso é ruim para os homens? sim, a masculinidade violenta da sociedade em que vivemos é um problema atual. Mas é um problema ainda maior para as mulheres: quando não somo objetos nas telas, o somos na vida real. Vale lembrar que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, e isso não está desconectado daquilo que assistimos no cinema que desumaniza mulheres. Tirar os fantasmas misóginos é abrir caminho para novas perspectivas.

Os homens perderam o medo de fantasmas, mas não perderam o medo das mulheres, especialmente daqueles que disputam os espaços com eles. Mulheres nunca tiveram o direito de ter medo de nada, se nas telas não nos mostravam lutando pra sobreviver, para além delas nós o fazemos sempre. Não temos medo de fantasmas, homens são mais perigosos, mas lutamos até contra a ordem misógina que nos impõem. E estamos avançando de macacões cinzas ou cabelos raspados destruindo os fantasmas que deixaram no nosso caminho para nos assombrar, e estamos a adentrar em todos os espaços que nos foi negado anteriormente.

Vamos começar pelo cinema.

 

Nota: Os trechos em Inglês dos subtítulos são trechos da canção tema do filme, Ghostbusters interpretada por Ray Parker Jr.

Referências:

1)http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2016/06/17/internas_economia,773985/mulheres-receberam-salario-25-menor-do-que-os-homens-em-2014.shtml

2) http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2016/06/17/internas_economia,773985/mulheres-receberam-salario-25-menor-do-que-os-homens-em-2014.shtml

3)http://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2013/03/08/52-das-mulheres-ja-sofreram-assedio-no-trabalho-falta-de-provas-dificulta-condenacoes.htm

4) Teto de vidro é um debate surgido nos anos 70 que questiona e estuda os limites que as carreiras das mulheres alcançam apenas por elas serem mulheres, apesar de suas qualificações e experiências.

5)http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/maioria-no-ensino-superior-mas-longe-dos-cargos-de-chefia/n1597400100786.html

6 )http://www.confea.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=15417&sid=10

7) http://www.revistaforum.com.br/2013/07/17/e-preciso-melhorar-a-quantidade-e-a-qualidade-de-personagens-femininos/

 

 

Olhos de Jabuticaba e segredos de liquidificador: palavras sobre minha melhor amiga

Ela faz parte da minha vida desde quando os dias não eram tão curtos, mas longos e cheios de ilusões. Nas minhas melhores memórias eu encontro seu sorriso junto ao meu e sua risada ecoando a minha. Posso ver ela brigando comigo pra não bater nela ou não ficar tocando enquanto falava, ou ela ao meu lado cantando alguma música da Pitty encostadas no muro velho da quadra da escola enquanto os mais ranzinzas nos mandavam ficar caladas. Também posso encontrá-la nas minhas memórias mais duras e tristes. Das noites de depressão, de crises de ansiedade, das ligações em prantos, das mensagens madrugada afora pra vencer o pânico. Se a vida nos fez atípicas em um mundo tão clichê, temos a sorte de termos uma a outra pelos últimos 11 anos de nossas vidas.

Ela me ajudou a entender que nada é uma palavra esperando tradução, e como a menina do Piano Bar, nós já nos seguramos a beira de penhascos mais vezes do que lembramos. Dona de olhos negros densos, os olhos delas escondem mais que revelam, e se não te dão respostas, te dão a segurança que apenas um mar escuro e misterioso pode trazer. A solidão que se mistura a coisas doces é algo que poucos entendem numa sociedade que enxerga as coisas em preto e branco. Seus olhos de jabuticaba sempre souberam me entender quando eu não podia me explicar.

Há algo sobre ela que é peculiar. Sempre houve.Inteligente como poucos, se eu fechar meus olhos, eu posso ver o modo como ela se mexe ouvindo uma música que ela gosta ou como ela se anima falando de algo que gosta. Como nunca nos falta assunto, assim como o silêncio nunca é estranho entre nós. Mas se uma parte de mim  fica triste por não poder abraçá-la hoje, outra parte se sente feliz por ela ser minha melhor amiga. Estranhas como só nós, somos feministas (radicais), bruxas e lutadores juntas, compartilhamos segredos de liquidificador pela vida, e seguimos juntas, apesar da distância, do tempo e das dificuldades.

Como Bukowski já disse, 200 anos atrás eles teriam nos queimado na fogueira. Sempre estivemos muito perto. A Utopia sempre é uma companheira de luta, e ela sempre me inspirou a ser uma pessoa melhor e forte. Ela é a mulher mais linda que eu conheço também. Porque ela não é apenas uma embalagem, mas ela é ela mesma, sensível, cheia de personalidade e lindas marquinhas de nascença. É inteligente a sua maneira quase tímida e muito dura, e eu posso ver Sallinger falando sempre que ela fala, me dizendo pra refletir mais e ter coragem, posso ouvir Dom Quixote em sua voz, compartilhando comigo as causas perdidas pelas quais lutamos, posso ver reflexos de Jane sob aqueles olhos tão densos, olhando pra mim em perspicácia. E por trás de tantas palavras, posso ver Carl Jung, até um pouco de Foucault, e um tanto de Virginia Woolf e Nise Silveira, unindo-se a personalidade incrível que ela já tem e aquela inteligência que ilumina – e vai iluminar – ainda mais mais caminhos.

E hoje, ela completa 23 anos. Nem todos entendem quando digo que ela é amor da minha vida. Primeiro, porque as pessoas não entendem o amor pra além do estereótipo erótico da sociedade ocidental. E senhores, a amizade é o amor mais forte que existe nesse ocidente decadente. Segundo, porque o amor entre mulheres não é compreendido, mesmo hoje, as pessoas pensam que amizades de mulheres não duram, pois acham que mulheres devem estar sempre competindo entre si. Mal sabem eles, o poder que a sororidade e a irmandade feminina pode ter nessa sociedade falocêntrica. E se alguém me ensinou sobre sororidade, com certeza foi ela.

E eu a amo, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, daqui até o fim do mundo. Somos nós duas contra o mundo. Sempre foi.

 

NOTA: o nome dela não será incluído nesse post, para mantê-la segura de possíveis ataques que são realizados massivamente contra feministas que não se alinham as correntes liberais, queer e seus afins.

Tire seu pênis do caminho que o Sagrado Feminino vai passar: um manifesto pela história das mulheres

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O sagrado feminino é, historicamente, o acúmulo da sabedoria das mulheres transmitida a outras mulheres e a resistência do conhecimento do corpo feminino, pensando o útero e a vagina, em relação a natureza e ao universo. A ideia do sagrado feminino, é tão ancestral quanto mulheres, e foi apagada propositalmente desde a ascensão do cristianismo por todo o Ocidente, e a colonização da América, da África e da Oceania. A presença das mulheres e de seu conhecimento acerca de saberes ligados a terra, a natureza e a saberes místicos foram demonizadas, tornadas pagãs e sistematicamente apagadas. A história das mulheres e as figuras femininas ficaram resumidas a deusas que os homens representaram de maneira fútil e a tribos que eles fantasiavam de maneira erótica.

Os homens e o falocentrismo ocidental tornou o sagrado feminino opaco e sujo perante seu Deus masculino. Figuras como Sheela Na Gig, Pachamama, Tawere, Oyá ou Bricta são até hoje pouco conhecidas. Quem lembra da figura de Sheela na Gig com pernas abertas expondo o clitóris e sua vagina? da força de Oyá enquanto feiticeira, guerreira do vento? quem sabe que Atenas não era apenas a deusa da sabedoria, como também das estratégias de guerra? Do pacto de Artêmis jurando eterna virgindade por nojo dos homens? Essas figuras femininas de poder se tornaram diminutas em um ocidente cristão e falocêntrico. Não porque sejam pequenas, mas porque os homens as tornaram assim – pois eles fizeram Deus a sua imagem e semelhança, um ser masculino e opressor. O Deus ocidental, é uma figura masculina, cujos representantes na terra são homens que vivem cercados por outros homens. Os homens enterraram o sagrado feminino e construíram essa historicidade masculina que determinou as bases ocidentais que excluiu mulheres da história e do processo do conhecimento. 

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Nesse contexto, o sagrado feminino e a luta para afirmar o corpo feminino como algo pleno em si mesmo, sem precisar ser comparado com o pênis, é a história da resistência das mulheres. Os corpos femininos são entendidos enquanto públicos porque ele é entendido a partir de uma visão masculina religiosa como aquele que carrega a raiz de todo o pecado, e que portanto, autoriza toda sorte de maldade aplicada a este. É entendido como inferior e sujo porque não tem um pênis, porque desde a Grécia o amor dos homens pelos próprios homens, é predominante. A sociedade masculina não ama mulheres, ama homens. Eles usam mulheres. A descoberta dos homens de que seus pênis poderia ser usado como uma arma para machucar mulheres, unido a mentalidade construída e disseminada de que mulheres seriam seres inferiores, serviu – e serve – para que mulheres sejam violadas em períodos de guerra, mesmo em períodos de trégua. Legitimou a ideia de que mulheres serviriam apenas para o ambiente doméstico e que aquelas que fugiam desse modelo estipulado eram doentes que precisavam ser internadas em hospícios e/ou lobotomizadas. Permitiu que homens como Josef Mengele fizessem todo tipo de experimentos em corpos femininos. E essa mentalidade serviu para encobrir os interesses do capital em explorar mulheres para diminuir salários masculinos e colocar seres humanos trabalhando 16h por dia enquanto mal ganhavam por comer, por mais de dois séculos. Esse falocentrismo presente em pleno 2016, anos após avanços e lutas feministas, faz com que mulheres não tenham o direito de definir o que é ser mulher em um país e em um mundo em que nascer mulher define sua existência social. Voltamos novamente a ser definidas por homens em seus grandes salões de conhecimento.

Diante disso, falar e redescobrir o sagrado feminino é afirmar mulheres como donas da próprio vida e de sua história. É trazer a elas a historicidade daquelas que morreram antes delas para que elas pudessem viver, é passar adiante uma história de lutas femininas que resistiram contra homens e seus pênis. O conhecimento de mulheres é constantemente questionado em prol daqueles que detém o falo. Somos diminuídas por questionar a autoridade dos mesmos sobre nossas vidas, como as mulheres na antiguidade foram perseguidas por se unirem pra dividir conhecimentos com outras mulheres. Somos humilhadas publicamente por discordarmos de pessoas com pênis, como bruxas foram queimadas na fogueira. Somos ameaçadas como foram as mulheres que antes de nós lutaram por um mundo mais justo para mulheres: de Olympe de Gouges a Maria Felipa de Oliveira. De Dandara a Pagu. De Maria Quitéria a Olga Benário.

Resgatar o sagrado feminino é afirmar seres humanos com vaginas como seres humanos em luta em uma sociedade que nos nega direitos e justiça e nos trata como inferiores por termos nascido mulheres. É afirmar nossa vagina para além do órgão erotizado e sujo para o qual a igreja católica e posteriormente a pornografia o colocou. É redescobrir a força e o poder do clitóris em uma sociedade que nos ensina a amar apenas ao pênis e a respeitar apenas a ele como detentor da sabedoria e do prazer. A história da mulheridade, revela o oposto, e é essa história que buscamos afirmar ao trazer novamente o sagrado feminino para um mundo, que embora seja mais ateu, é cada vez mais falocentrado.

A história dos homens roubou das mulheres a oportunidade de se reconhecerem enquanto seres de luta, detentores de sabedoria. Enquanto nos ensinavam que os homens construíram esse mundo, nos esconderam das mulheres que construíram junto com eles com ainda mais resistência, pelos espaços negados, pelas violências sofridas e pelos nomes apagados. Nossos órgãos foram apagados da história e nosso conhecimento foi demonizado. Reafirmar nosso sagrado feminino não é uma ofensa aos nascidos com pênis, sejam eles o que forem – é fortalecer nossa luta e entender de onde viemos e porque lutamos. É olhar pra nós mesmas, e entender a realidade que nos cerca enquanto mulheres. Olhar nossas infâncias de meninas e relembrar as violências sofridas e lutar para que outras meninas não sofram o mesmo. É nos afirmar enquanto mulheres que não serão redefinidas em nome de sentimentos falocêntricos.

Tirem seu pênis do caminho que o sagrado feminino quer – E VAI – passar.

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Deusa Oyá

 

 

There will be no White Flag above my door.

O chá quente esfria rápido no vento da varanda. Lá fora o mundo dança e para, os carros correm e as pessoas, como zumbis, andam sem levantar os olhos do celular. Por que tememos um apocalipse Zumbi se já parecemos viver em um? Eu deixo uma bagunça enorme onde quer que vá. Uma nata troublemaker, eu reajo a tudo de maneira apaixonada. Nem todos entendem. Perco mais que ganho.

Perco amigos, meu bem. Em um mundo de consensos, quem sou eu pra discordar das teorias vigentes? Ande com aquele, defenda isso, lute por tal causa, compre de tal lugar, se comporte de outra maneira. Eu nem escuto mais rádio. Nem sequer assisto Game of Thrones. Como a pessoa inspirada por Jane Austen e Dostoievsky que sigo na vida, eu analiso as coisas cuidadosamente, mas tenho defeitos que eu queria ter superado há muito tempo. Nem tão simples, quase impossível, minha língua afiada tem sempre uma resposta pra tudo que envolve as causas que me envolvo. Não é o que as pessoas querem ouvir, mas é o que eu tenho pra dar.

Alguns dizem – se renda!  mas como Dido canta: “I won’t put my hands and surrender, there will be no white flag above my door.” – eu não vou pôr as mãos pra cima e me render, não haverá bandeira branca sobre a minha porta. Que guerra é essa que apenas um lado tem armas? o tiro que miram no meu peito, erram pela distância. A humanidade que se arrasta como os zumbis de Romero se alimenta de sonhos de plástico e sorrisos falsificados escondidos por purpurina barata. Há de seguir em frente, mas o seguir perdeu o rumo. Essa guerra perdida, tem seus vencedores comemorando com Whisky caro nos corredores do Goldman Sachs e junto deles Wall Street festeja com cocaína. Na mesma esquina, mais uma mulher morreu de fome essa noite.

Os gatos que miam alto em desgosto e coragem na rua de baixo, espelham meus sentimentos. Meu bem, eu não tenho bandeira brancas pra apresentar. Nem quero. Não desisto dos amigos que querem me deixar, nem das coisas que me fazem gritar. Tentei ser mais alegre, mas me sinto muito brava. Queria ser mais liberal, mas sou muito pobre. Muito prazer, meu nome é otário. Coleciono relógios quebrados com as horas que vivi com as pessoas que me deixaram, e que anunciam as horas das pessoas que se irão porque falo aos que preferem silêncio. O tempo tem um corvo preso em seu peito que anuncia as tempestades de um céu de inverno. Com olhos esbugalhados e cantos agudos eu sigo seus conselhos gritados nas rajadas do vento – torne o mundo algo melhor do que aquele no qual você chegou. Simples, não? não.

Não quero tornar a vida de ninguém mais difícil. Muito pelo contrário. Mas se eu fosse ser pacífica, eu habitaria Oceano ao lado do grande Titan, e aproveitaria pra pedir conselhos a Gaia. Não que eu cogite trair as deusas. Mas Artêmis entenderia.Se as pessoas se vão, não será porque me rendo, será porque falar a verdade sempre te condena. Pergunte a Medusa. Mas eu não levanto as mãos pra me render. Eu levanto as mãos pra sacar as armas e encontrar a mira certa. Quem se esconde sob o telhado perde as estrelas.

 

 

 

 

 

 

 

Cartas para Jane, II

Querida Jane,

Em meio a tempos turbulentos, dificuldades emocionais e uma sociedade nojenta, me pego constantemente lembrando de você. ‘O que Jane faria?’ é uma pergunta que cruza minha mente nos dias mais exaustivos. Minha primeira resposta óbvia é: ‘ela jamais desistiria’. Eu penso em desistir, às vezes. Então lembro que você desafiou a rainha pra escrever sobre o que acreditava e deixou um legado feminista muito antes desse movimento sequer ter iniciado. Você desafiou todas as regras do seu tempo pra ser quem era, mesmo que isso lhe tenha custado a saúde, e lhe jogado a uma vida árdua.

Mas são tempos tão loucos, Miss Austen. Mais loucos do que sua honestidade e sua ironia perpicaz poderiam prever. Lembro quando escreves ‘nem todas as mulheres querem estar em mares calmos por toda a vida’ e penso, como lidar com aqueles que continuam a esperar isso das mulheres? ou pior, como lidar com as pessoas que se dizem ‘evoluídas’ mas dizem que mulheres que não agem conforme os estereótipos – que você já questionava no século XIX – são homens? Sim, estamos nessa fase da sociedade. Hoje, mulheres voltaram a ser os embrulhos enfeitados que você tanto refutou. Se não voltaram, querem nos fazer crer que são e nos obrigam a aceitar. Todos os estereótipos de beleza e delicadeza estão de volta. Cada vez mais fortes. E dessa vez, mesmo a luta que dizia refutá-los, os reconhece e pouco os problematiza. Somos medíocres comparadas a mulheres como você e as irmãs Brönte que em um século que condenava mulheres a miséria e lhes negava qualquer tipo de humanidade desafiavam tudo para lutarem por uma sociedade melhor para as mulheres.

Mas a sociedade ainda é péssima para mulheres, Jane. Tentamos e tentamos, mas como você já reconhecia, os homens detém sempre a decisão final, e eles nunca estão ao nosso lado. O mais sinistro, é que em tantos anos atrás já notavas como o ser feminino não era natural e ironizava que o único destino de uma mulher fosse o casamento, e hoje, nesse ocidente patético que se acha moderno, apesar de todas as discussões, voltamos a encarar gênero como natural, como se pessoas nascessem com almas e cérebro femininos.O feminino, essa ideia patriarcal que as mulheres já refutavam séculos atrás por ter sido uma construção masculina pra servir a seus propósitos capitalistas, escravistas e de exploração, continua em vigor. Nada disso mudou desde quando estavas aqui. Apenas piora, se eu puder, com profundo desgosto, ser sincera. Continuamos sendo definidas por homens a seu bel prazer, e continuamos massacradas quando discordamos das premissas que homens criam sobre o que mulheres são e o que ser mulher significa nessa sociedade. Eles ainda detém o monopólio da palavra, da justiça, da economia. De tudo que conhecemos por mundo em geral.

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Jane Austen

 

No século XIX era necessário esconder-se atrás de pronomes masculinos para poder escrever. Não por prazer, mas porque essa era a única maneira de uma mulher poder escrever. Ah, Jane. Quantas mulheres não morreram esquecidas sob nomes masculinos por conta de um mundo patriarcal que nos enxerga homens quando ousamos ser mais do que determinam que sejamos? Quantas mulheres ainda irão morrer por desafiarem as ordens masculinas de se recatarem as suas casas e não aumentarem sua voz? Quantas crianças precisarão morrer pra que percebam que liberdade não é tomar remédio pra se adequar ao ‘gênero certo’? Eu não sei. Séculos atrás eles lobotomizavam, estupravam, batiam, medicavam, torturavam, matavam mulheres que ousavam ser mais do que deveriam ser para aquela sociedade. Diziam que elas invejavam o falo – e ainda dizem. Hoje, não fazem tão diferente disso, apenas mascararam o discurso. E quem controla a palavra, controla as mentes. Ainda somos consideradas loucas, ainda nos consideram homens quando falamos mais alto que eles, ainda querem nos matar por quebrar as regras. Ainda estamos sozinhas. E eles e seus falos continuam definindo quem somos, como deveríamos viver e pelo quê deveríamos lutar. Ao lutarmos por nós, e apenas por nós mulheres, meninas, senhoras, mães, eles desejam nossa morte. Assim como no século XIX. Assim como os inquisidores.

Eu imagino você aqui, Miss Austen. O que diria, de que lado estaria. Mas, penso que pra alguém que ousou criticar a alta sociedade inglesa, a escravidão e a exploração, de maneira sutil mas incisiva, talvez você ficasse do nosso lado. Nós somos poucas mas tentamos. E seguimos. Apesar das ameaças, das dores e das dificuldades. Eu desejo que o próximo século seja melhor para as mulheres. Que, no mínimo, tenhamos a palavra pra decidir quem somos sem homens e seus falos interferindo nesse meio. Que viver seja menos doloroso pra quem é mulher, porque Jane, ainda é. Ainda é.

Eu realmente imagino você aqui, Jane. Mas, honestamente? Que bom que você não está.

Obrigada por tudo.

 

[ ADENDO: Sim, eu sou uma grande crítica da colonização acadêmica e de pensamento. Continuo achando necessário. Sim, eu sei que Jane é inglesa.

Mas Jane Austen é minha escritora favorita por razões muitíssimo pessoais que não irei falar sobre. ]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O arquétipo da Virgem Maria no movimento feminista: o que esperam das mulheres?

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Uma das maiores figuras femininas do ocidente é Maria, mãe de Jesus. A figura bíblica da mulher pura, submissa e acolhedora é o modelo central de mulher para a sociedade ocidental. Especialmente na América Latina, roubada de suas origens e jogada pra um catolicismo fervoroso. Maria é a mãe e mulher ideal. Pura, doce, submissa, com uma fé sem limites, sempre disposta sacrificar-se por outrem. Assim, ela é escolhida por Deus para trazer o redentor ao mundo. Ela tudo entende, todos acolhe e é símbolo de pureza e doçura. Submissa as vontades de pai, confia a Deus, o supremo masculino na ideia ocidental, todas as suas vontades e devota sua vida a cuidar de outrem. Não vemos Maria, como uma simples mulher, vemos Maria, aquela que de sublime entrega e sorriso dócil, mulher responsável por criar o filho de Deus e encaminhá-lo pelo caminho certo.

Esse estigma da virgem Maria paira sobre a cabeça de todas as mulheres no Ocidente cristão. Somos socializadas para sermos Maria. Desde o rosa em que nos vestem ainda bebês, as responsabilidades enquanto meninas pra algum dia cuidarmos da casa e de alguém, as boas maneiras de simpatia, meiguice e doçura que nos exigem. Devemos ser o coluna resistente que não exige gratidão, mas tudo faz em silêncio e entrega, como a bíblia pede das mulheres. Devemos ser silenciosas, meigas, submissas, seguir nossos pais, futuramente nossos maridos, devemos ensinar nossos filhos o bom caminho, e se este sair dele, a culpa é nossa. A mãe não foi boa o bastante. Devemos estar sempre dispostas a interceder pelos outros, a redimi-los dos seus pecados. Desde pequenas ensinam meninas a falar baixo, a comportar-se em diligência, em dirigir sua fé a grandes santos e não questionar as vozes de homens santos que falam sobre outras três figuras masculinas centrais na fé cristã: a santíssima trindade. Pois, eles são a verdadeira libertação, Maria é apenas a auxiliar. Eles são o centro, Maria é a figura ao lado, de cabeça baixa e braços abertos a receber aqueles que dela precisarem.

Há muito tempo o movimento feminista busca livrar-se dos estereótipos de gênero sustentados pela figura caricata que nos é imposta desde ao nascer, especialmente em uma sociedade cristã. E como mulheres nessa sociedade somos transpassadas e socializadas desde sempre pra sermos a virgem Maria – temos que entender a todos, acolher a todos. E é isso que esperam de nós enquanto mulheres. E é, também com isso, que o movimento feminista tem sido usado como ponto de encontro de todos, enquanto perdemos o foco das reais necessidades que como mulheres precisamos debater.

Muito pouco se tem falado dentro do movimento feminista de questões como: maternidade compulsória, violência obstétrica, lesbofobia, trabalho reprodutivo, tráfico de mulheres, capacitismo, racismo, estupro contra mulheres como arma de guerra, inclusão de mulheres mães nas universidades. Logo no início de fevereiro chegaram notícias dizendo que soldados da missão da ONU estupraram meninas e mulheres. Uma menina de 7 anos relatou que fez sexo oral em um dos soldados em troca de água, outra de 14, em troca de um prato de comida¹. Alguma discussão sobre isso nas redes sociais discutindo a vulnerabilidade de meninas em áreas de guerra? Não, um grande silêncio. Matéria recente divulgado pelo jornal O Globo revela que a cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil, e esse dado provém apenas das denúncias realizadaS no telefone 180, o que significa dizer que é um dado ínfimo considerando a numerosidade de casos não denunciados². Eu postei em grupos feministas essa notícia, e em todos, ela não rendeu mais do que três curtidas.

Como as bruxas na inquisição, estamos sendo engolidas pela Virgem Maria Intercessora. De nenhum outro movimento, se exige a recepção doce e acolhedora que pedem do movimento feminista. Por que? Porque é de mulheres que esperam o acolhimento. E eles foram ensinados a esperar isso das mulheres.  E assim, entendem que como movimento feminista, temos que entender e acolher todos: Homens que querem desconstruir sua masculinidade, homens de esquerda, homens não-bináries, drag queens, etc, etc. A lista é longa. O feminismo atual que se espalha pelas redes tem discutido a imensidade de gêneros que criaram pra definir pessoas – gênero fluído, neutro, ou o que vier. Tem discutido questões de sexualidade, com ainda mais denominações purpurinadas. Tem tentado ser fofo com todo mundo. Discutido questões que, de fato, não mudarão nada na vida das mulheres. Tem que ser muito inocente pra achar que muitos nomes estranhos vão mudar alguma coisa na realidade de mulheres que trabalham das 5h da manhã a noite, fora e dentro de casa, exploradas num sistema capitalista. E essa é a realidade da maioria das mulheres, em pleno 2016 em toda a América Latina. É só olhar além do próprio umbigo e ler os dados divulgados. Alguns desses nomes está aí pra discutir acesso a educação? casamento infantil? reforma agrária? Auditoria da dívida pública? Não, não está. Partir do individual é ótimo quando você não quer tornar isso uma regra pro resto do mundo e silenciar lutas e resistências históricas, a partir dessa sua própria perspectiva. Infelizmente, essa regra básica, esqueceram de avisar pra galera que se acha oprimido porque tem cabelo colorido e unha pintada.

E de repente, apesar de lutas por tantos anos, nos querem caladas: capitalismo, patriarcado, universidade, teorias modernosas. Machos falocêntricos. Querem que sejamos, novamente, a Virgem Maria de braços abertos que jamais luta por si mesma, mas sim, que intercede e luta por outros ignorando as dores que, por ventura, sofra. É aquela que se curva diante de outros e luta por eles, pelas dores deles, pela redenção deles. Como mulheres e movimento feminista somos condenadas a mesma sina porque fomos ensinadas desde meninas a aceitar que devemos tomar conta de todos num chamado ‘instinto maternal’. Portanto, acabamos por ser a Virgem Maria que quer salvar a todos. O protagonismo, assim como na igreja, vão para outrem pois pertence, historicamente a eles. Aos homens. Aos falos. A qualquer um, menos mulheres. E menos ainda, vaginas. Nós somos a coluna que deve sustentar e apoiar, mas que não exige gratidão, nem exige ser vista.

Isso é o que o patriarcado exige do feminismo, não o que o feminismo deveria ser. A luta feminista deveria ser pelas mulheres negras que ganham menos que 40% do que o resto das mulheres, é pelas minas da área rural expulsas pra cidade porque o latifúndio roubou sua terra, pelas mulheres sem teto, pelas mães solteiras abandonadas pelos parceiros e pela família, pelas mulheres indígenas que estão lutando pelas suas terras e pela sua própria vida contra os grandes fazendeiros em todo o país. O feminismo deveria ser pelas mulheres equatorianas resistindo a mineração, pelas mães da praça de maio na Argentina, pelas meninas do Sudão abusadas por todos os soldados que estão no território de seu país, pelas mulheres sírias estupradas pra poder entrar na Europa em busca de uma vida melhor, pelas mulheres curdas que se uniram em um exército pra lutar contra o ISIS. A luta feminista é pra tirar mulheres das estatísticas de miséria, estupro, pedofilia, violência doméstica, casamento infantil, infanticídio. O Feminismo é pra revolucionar o mundo para mulheres. Pois este é um mundo em que colocam ‘Matou por amor’ pra falar de feminicídio. ‘Relacão Amorosa’ é como chamam estupro de vulnerável. ‘Amor não tem idade’ é como mascaram pedofilia. O feminismo é pra salvar mulheres da posição em que a sociedade patriarcal as colocou, não para ajudar a mascarar essa mesma hierarquia com nomes bonitos, pôneis coloridos e purpurina.

Essa misoginia mascarada de avanço não irá nos libertar. Ela apenas nos empurra novamente para o papel de mães que tem que entender a todos em sorriso doce (e bem maquiada, óbvio). Novamente, somos engolidas pela Virgem Maria que há em nós e que forçam a continuar existindo pra que nossa compreensão e doçura seja maior que nossa vontade de resistir e brigar por nossas pautas. E claro, as que resistem a inquisição, são perseguidas, expulsas, silenciadas e humilhadas. São as excludentes. São as egoístas. E principalmente, somos egoístas porque queremos que gênero deixe de existir, ao invés de criar outras mil caixas pra definir e falar do mesmo, sendo que essas tantas novas definições não mudarão a vida das mulheres que são 80% das pessoas traficadas para escravidão sexual ao redor do mundo,  nem vai acabar com o índice nacional divulgado pelo IPEA de que 92% dos estupradores tem pênis, e 80% das pessoas estupradas tem vagina e tem menos de 14 anos³.

Mas claro, se somos egoístas não somos a Maria acolhedora perfeita que esperam das mulheres. E ao falhar com isso não mais servimos como amigas ou companheiras. No livro de Lucas da bíblia cristã Maria responde ao anjo: “Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra”. 2000 anos se passaram desde Cristo (se é que ele existiu), mas mulheres seguem como as servas da humanidade, presas em estereótipos que lutamos pra quebrar, e que um mundo misógino teima em enfatizar e reforçar como necessário, se não pra manter a masculinidade enquanto superior, pra sustentar identidade de gênero. Mas resistimos. A Virgem Maria ficará para trás enquanto seguimos adiante, pra longe dos massacres que tentam nos impôr pra nos manter caladas. Porque nossa voz ecoa, pois somos as netas das bruxas que a igreja não conseguiu queimar.

Referências:

  1. La Republica. In: http://larepublica.es/2016/01/30/soldados-franceses-intercambiaron-felaciones-por-galletas-con-ninas-de-7-anos-en-la-republica-centroafricana/
  2. Globo. In: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2016/01/uma-mulher-e-estuprada-cada-tres-horas-no-brasil.html
  3. IPEA. In:  http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/140327_notatecnicadiest11.pdf