Uma sexta feira muito louca: reflexões sobre a política brasileira

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A política brasileira está longe de ser determinada pelos meros maniqueísmos que encontramos pela rede. A esquerda salvadora e a direita raivosa – ou vice versa – são representações esdrúxulas do que está acontecendo nos grandes salões de poder. Não se trata de uma única figura. Não se trata de demonizar e inquirir um único partido, como se o mesmo fosse a raiz dos problemas históricos que um país aristocrático, monopolista e dependente tem. Os problemas de um país como o Brasil não estão resumidos a piadas de fascistinhas ou a defesas cegas.
Primeiro, agora é o momento é de discutir os meios em que a prisão do ex-presidente Lula foi feita. A maneira arbitrária, coercitiva e bastante circense. A questão não é sobre a culpa dele ou não. A principal questão é que impuseram a ele um tratamento que homens com os mesmos crimes, tão ou maiores que os dele, não tiveram, nem teriam. Alguém foi bater na casa do Aécio Neves, apesar do seu avião cheio de cocaína? Na casa do FHC? O ex presidente ainda tem direitos que devem ser respeitados pra além de uma operação que investiga apenas um lado de jogo e tem egos inflados pela ignorância que lhe apoia.
Segundo, é momento do PT admitir que não resolveu de fato, nenhum dos problemas do Brasil. E é preciso virar a esquerda, dessa vez, de maneira profunda. Pois questões urgentes brasileiras ainda não foram resolvidas. Como a questão da terra no Brasil, uma vez não houve reforma agrária, e o governo fomentou os monopólios de terra com grandes investimentos ao agronegócio. Como não termos rompido com nossa modelo econômico de exportação de produtos primários, o que nos coloca em tempos difíceis com países centrais em recessão. Como o fato de que a maior parte do orçamento da união, vai pra Bancos. Não vai pro Bolsa família, nem pra PROUNI, nem pra universidades públicas – vai pros bancos. Não é por qualquer razão, que no meio da crise, Bradesco e Itaú tem lucros incríveis.
Terceiro, essa direita raivosa, que late como cachorro sarnento, não fez nada de útil pelo país em que vivem. A não ser que seus golpes militares, suas férias na Europa e as indicações do Titio político sejam algo válido. A direita Brasileira, desde Lima Barreto, é arrogante e eurocêntrica. Querem ser a Dinamarca mas sonegam impostos, não pagam direitos a seus funcionários, só apoiam políticos que lhes darão algo depois, não enxergam seus próprios privilégios em relação a maioria da população, e acreditam piamente, que o fato de terem estudado em colégios particulares a vida toda, se formado bem e ter uma casa confortável, foi mero esforço deles. O mito da meritocracia segue vivo nessas bocas que se esforçam pra derrubar partidos, mas não apresentam um plano político viável pro país em que vivem e cospem no povo que vive nele.
Os brados de ‘fora PT comunista’ ou ‘Viva Lula pai do povo’, não tocam em nada disso. Até porque, hoje, o projeto de país de ambos os lados segue igual, pois as mesmas pessoas bancam suas campanhas, as mesmas pessoas tem seus interesses representados, e esse circo armado de corrupção vai continuar se repetindo enquanto não rompermos com esse modelo elitista que nos comanda desde a época da Coroa.
Esses resumos rasos, que nos obrigam a escolher um lado, em um país que historicamente é dependente dos países centrais pra poder sustentar sua economia, e que segue comandado por uma Elite bem específica, não levarão nada adiante. E ajudam a afundar ainda mais uma democracia jovem, em que a maioria da população não tem acesso a educação política e é massivamente educado pelo Jornal Nacional. Eu não vou me esforçar pra defender Lula mas tenho nojo dos que comemoram a perseguição a ele. Ambos os lados estão pensando em si mesmos, e em nenhum momento no país em que vivem. Só que isso aqui não é um jogo de futebol. Nem uma série em que tudo acaba bem no final.

 

(escrito em: 04/03/2016)

Até acontecer com você, você não sabe como é.

A palavra da estação já foi empatia -a delicada capacidade de sentir junto e se solidarizar com a dor alheia. Empatia é um grande talento, e em um mundo que tem olhos baixos focados na tela do celular, é cada vez mais rara. Vivemos em grandes bolhas seguras em que apenas nossos dores importem e minimizamos a dor alheia como se elas fossem menores que a nossa. Não se sente a dor do outro, não nos importamos, encontramos um rótulo que nos mantenha confortável enquanto observamos de longe o mundo desabar, e apenas comentamos a fraqueza daquela pessoa, cuja dor sobrepõe o sorriso.

No auge do nosso egoísmo e das dificuldades diárias é realmente difícil sentir algo além das nossas próprias mazelas. Das contas de casa ao stress do trabalho, não sobra muito tempo pra nos importarmos com o sorriso triste que a vizinha nos lançou no elevador ou com a moça chorando no ônibus. E certamente, num mundo em que não consegue sentir empatia a não ser com animais em sofrimento, as violências passam por nós, e sequer percebemos. Porque até acontecer conosco, não sabemos de fato qual o sentimento.

Até o mundo cair aos seus pés, você não sabe o significado disso. Até tudo que é importante queimar perante seus olhos, você vai repetir pra quem está passando por tal dificuldade que ela precisa ser mais forte. No fundo, você acha que sua dor é maior e não quer se importar. E em um mundo em que mulheres estão sujeitas a um leque imenso de violências, isso se aprofunda e dificulta ainda mais o que já é difícil.

A cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil, mas nos bares por aí todos ainda sussurram que a culpa foi dela. Todos os dias morrem em média treze mulheres, mas em todo lugar, homens continuam apoiando os amigos que são abusivos com suas mulheres. Todos os dias morrem mulheres pobres por aborto clandestino, mas ‘bons cristãos’ continuam lutando pra impedir que o aborto seja legalizado, porque eles não podem engravidar, e portanto, não sabem o medo de não poder criar uma criança ou a solidão do abandono paterno em uma gravidez recém descoberta. Todos os dias, mulheres passam por violência obstétrica, e sequer podem falar sobre isso. E ninguém realmente se importa, nem mesmo aqueles que deveriam estar protegendo ou resolvendo essas situações. Tais violências, tampouco, sensibilizam a maioria. Porque até acontecer com você, você não tem ideia de como isso é. 

A crise de refugiados faz com que dezenas de mulheres sejam estupradas pelo caminho que traçam rumo a uma suposta nova vida, mas continuam expondo elas, os filhos e os maridos como monstros invasores terroristas. Crianças foram queimadas  na Nigéria, e diferente de mortes que acontecem no centro do mundo, ninguém lamentou, não houve velas, rezas ou lágrimas, apenas silêncio. Latifundiários jogaram agrotóxico sobre famílias indígenas inteiras, mas a mídia não soltou uma nota sequer sobre. Mas nós nem notamos ou procuramos entender o que está acontecendo, porque até acontecer com você, não vai fazer sentido.  

Nós só sentimos realmente, quando aquilo corta nossa própria pele e furam nossa bolha que tão cuidadosamente construímos. Mas também podemos sentir em solidariedade com o outro, antes que passemos por situações assim. E no mundo em que vivemos, estamos sujeitos a amanhã ser aquele que hoje debochamos da dor. Você não sabe o que é passar por aquilo, portanto, escolha a solidariedade, ao invés do julgamento, a amizade, ao invés do deboche. Procure ser um abrigo, ao invés de ser quem ajuda a expôr e tocar a ferida. Se você nunca passou por isso, não é seu direito dizer ‘seja mais forte’ , ‘levante a cabeça’, em tons de ordem sem olhar no fundo dos olhos de alguém e perceber que ela precisa mais de um abraço, do que de mais uma pessoa julgando sua dor.

Você não sabe como é. Então não culpe uma mulher pelo estupro que ela sofreu, não diga que ela provocou quando ouvir um caso sobre violência doméstica, não chame muçulmanos de terroristas. Você não passou pelo que essas pessoas passaram, não faz sentido pra você porque não fazes ideia do inferno que essas pessoas já passaram pra sobreviver. Você não sabe o medo, a fome, as lágrimas e a escuridão que várias das pessoas que você julga já passaram. Você não tem o direito de julgá-las, e até você saber o que essas pessoas realmente viveram, você não tem nada pra falar.

 

Nota:

O título e o texto são inspirado pela música “Till’ it happens to you” (‘até isso acontecer com você’) da cantora americana Lady Gaga que foi escrita em apoio as vítimas de violência sexual nos campi universitários dos Estados Unidos. A canção é parte da trilha do documentário que trata desse tema ‘The Hunting Ground’.

Precisamos falar sobre depressão.

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‘Depression’ por Aj Giel

Na correria dos dias, das ruas e do trabalho ignoramos temas, pessoas e vazios que possuímos. E escondemos temas por medo de falar e que precisam ser tratados. Um deles é a depressão. Embora comum, continua sendo tabu e tratado de maneira leviana. Diferente de como julgam, a depressão não é besteira, falta de religião ou falta de sexo. Depressão é algo sério e tem consequências ainda mais sérias na vida daqueles que a experimentam. A depressão me fez companhia constante em 2015. Como alguém com um histórico de depressão na família tenho bastante noção de como ela ocorre, porém, não esperava os baques que ela me traria.

Talvez alguns digam ‘que vergonha’, ‘jovem demais pra isso’. Mas não é assim que as coisas funcionam. Segundo relatório da OMC, a depressão revelou-se um problema de saúde pública em todas as regiões do globo (1).  Embora a Depressão seja tratada como uma doença boba e de privilegiados na sociedade em que vivemos a história é bem diferente. A depressão está presente na maior parte dos lares brasileiros, por vezes identificado, por vezes mascarado como um cansaço resolvido na igreja, como o pileque diário. Segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com o maior número de casos da doença no último ano, com 10,8% da população apresentando a doença. A depressão hoje atinge, pelo menos, 121 milhões de pessoas no mundo (2).

A depressão atinge a pessoa no mais íntimo que ela tem. Onde as pessoas não podem ver, e portanto, pode ser mais fácil de ignorar e simplesmente julgar como qualquer coisa, menos um problema que precisa de atenção por parte daqueles que estão perto, e mesmo daqueles que estão distantes. E aí entramos em um dos problemas bem conhecidos da humanidade atual em que vivemos: falta empatia com o ser humano. Sabemos disso por Paris, por Mariana, por todo o Oriente Médio, pela população negra no Brasil, com meninas ao redor do mundo.

É mais fácil ignorar um problema que também tem causas sociais e raízes no sistema. Todos, de jovens e adultos, sofrem com a pressão de ‘vencerem na vida’ em um país meritocrático que espera muito, mas, dá poucas oportunidades. É um sistema que te consome como rato de laboratório, em troca de um salário miserável dentro de uma lógica em que quem ganha com seu esforço diário é seu patrão. As cobranças vem de todos os lados, e quando se é mulher, essa pressão é dobrada. Temos que ser mães, mas boas estudantes; temos que ter um namorado, ser femininas enquanto mulheres trabalham dupla jornada . E como ser algo em um país em que sequer temos dinheiro pra passagem do ônibus? Onde jovens de periferia morrem na mão de polícia? Isso tudo parece desconectado do que é a depressão, mas a depressão avança porque vivemos em uma sociedade doente, em que consumimos demais pra satisfazer desejos fúteis pra ocupar os buracos emocionais que as frustrações que a sociedade – e o capitalismo – nos impõe. E que os estereótipos de gênero, enquanto mulheres, também nos impõem.

Apesar disso, estamos distantes de discussões mais séries e menos vulgares sobre depressão, apesar da presença dela, cada vez maior na nossa sociedade. Em 16 anos, o número das mortes diretamente ligadas a depressão cresceu 705% no Brasil – nesses dados estão incluídos na estatística casos de suicídio e outras mortes motivadas por problemas de saúde decorrentes da depressão (3). E precisamos falar sobre depressão, não apenas para que enquanto sociedade a doença seja vista de maneira mais correta, mas também pra tirar das mãos da indústria psiquiátrica e farmacêutica o monopólio que detém sobre a questão.

Pessoas depressivas estão diretamente ligados a indústria farmacêutica e a seus remédios, e por se tratar de uma indústria criminosa como é a farmacêutica, a maneira com que ela controla muito do que diz respeito a esse problema que atinge tantas pessoas, merece atenção cuidadosa. Damos a indústria farmacêutica a confiança de que somente o que ela está produzindo e nos dizendo que é certo, resolverá algo, porém, a depressão pode estar além de um remédio anti-depressivo que causa dependência, e que, está associada a controle no melhor estilo ‘Admirável mundo novo’ de Aldous Huxley(6). Só nos últimos 4 anos o uso de anti-depressivos no Brasil aumentou 48% (4). Portanto, para se falar sobre depressão precisa-se tocar nessas questões. Como algo que atinge um contingente considerável da população, incluindo a população pobre, desfazer o monopólio que grandes indústrias detém sobre diagnósticos e soluções é necessário para que as pessoas possam ganhar autonomia para entender seus casos, e alternativas sobre qual tratamento funcionará para seu quadro psiquiátrico, que também leve em conta a situação econômica de cada caso. Precisamos muito mais do que receitas e pílulas diárias, afinal somos seres humanos, e se lutamos para tirar coelhos de testes de laboratório, deveríamos lutar pelo mesmo para nós mesmos. Enquanto continuarmos reféns de indústrias como a psiquiátrica e a farmacêutica, eles continuarão a nos vender remédios que mais viciam (5) do que realmente nos ajudam, e que tampouco nos fazem ir além do círculo vicioso que é a depressão e suas crises.

A depressão vem sem avisos. E falar sobre ela e os tabus que a envolvem é um desafio, pois todos sentimos de maneira bastante distinta, mas que tem traços em comum. Identifica-la e entendê-la da maneira correta é necessário para amenizar seus danos. Por vezes, salvar uma vida. A depressão, apesar de tudo que causa, incluindo suicídio, não parece um problema tão grande como outras doenças que existem. A depressão não é menos por isso e precisa de atenção, discussões e ser desmistificada em todos os nichos da sociedade.

A depressão parece um grande mar em que todos estão respirando enquanto você segue submergindo. Mas para todos que sentem isso, há algo aí – não submergimos pra sempre. Alguns sim, e é uma luta diária pra não sucumbir. Precisamos de nados constantes, mas no fundo do mar há nereidas que ajudam os navegantes desse mundo que por razões injustas se perderam e afundaram. E eu escrevo sobre isso sem vergonha de falar sobre um tema tão delicado. Escrevo pra dizer que o mar onde, aqueles que como eu lutam contra a depressão, é grande, mas as correntes são muitas, e entre algas e peixes encontraremos nosso caminho de volta. Quiçá, ensinando mais pessoas sobre como de fato lidar com esse problema, tão visto, pouco entendido que é a depressão em pleno 2015.

Referências:

1)”Organização mundial da saúde divulga estatísticas globais da depressão”. In: http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/organizacao_mundial_da_saude_divulga_estatisticas_globais_da_depressao.html

2) “Mapa da depressão: Brasil é o país com mais casos no mundo”. In: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI252235-17770,00-MAPA+DA+DEPRESSAO+BRASIL+E+O+PAIS+COM+MAIS+CASOS+NO+MUNDO.html

3) “No Brasil, mortes por depressão crescem 705% em 16 anos”. In: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/no-brasil-mortes-por-depressao-crescem-705-em-16-anos

4) “Consumo de antidepressivos dispara pelo mundo”. In: http://setorsaude.com.br/consumo-de-antidepressivos-dispara-pelo-mundo/

5) “Rivotril: a droga legalizada da paz aritificial”. In: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/rivotril-a-droga-legalizada-da-paz-artificial/

6) Admirável mundo novo é uma obra distópica do autor inglês Aldous Huxley lançado em 1932.

KORRA: a questão da feminilidade estereotipada e outras reflexões

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Em um ano difícil, eu descobri em uma personagem mulher a força pra passar por algumas das pedras que atravessaram meu caminho: Korra. A personagem principal da sequência de ‘Avatar’ trouxe discussões necessárias. Pois ainda vivemos enquanto mulheres, uma batalha contra a feminilidade estereotipada. Mas estou exausta de falar sobre isso, portanto, tratarei disso, falando dessa personagem fantástica que conheci esse ano, cuja série rendeu críticas e boicotes a sua emissora pelo seu final, obviamente lésbico, é uma das mulheres mais incríveis que já vi em séries.
Korra é o Avatar – pode controlar os quatro elementos. Na série, é agressiva e impulsiva, com o tempo, se torna reflexiva, altiva e forte. Suas qualidades, não são geralmente apreciadas em mulheres, até mesmo, porque ela não é feminina. Nada – e ela não se esforça pra ser. Ao se deparar com seu reflexo e seus monstros internos ela abandona sua figura menina, corta os cabelos e assume uma figura de uma mulher madura mas longe de uma feminilidade estereotipada.
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Ela se torna uma mulher brilhante ao decorrer de toda a série e encontra outras mulheres, tão fantásticas quanto ela: como Toph Beifong ( minha personagem favorita desde a primeira série do Avatar), que é cega, vive em um pântano e sente as coisas com a sensibilidade do Tato; sua filha Li, independente, chefe de polícia da principal república, Asami, sua melhor amiga, que projetou uma cidade inteira, pensa novas tecnologias e as produz; e a vilã da última série, Kuvira, uma líder nata que buscar unir seu povo, capaz de discursar pra nações inteiras e que não se rende pra homens.
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Toph Beifong ( ♥ ) e Korra

Em nenhuma delas se pode elogiar o quanto são bonitas mas sim o quanto são imponentes, como suas figuras impõem respeito e o quanto merecem ser respeitadas por quem são, e não pelo que meramente parecem. A aparência não importa. Em um mundo com portais para o mundo dos espíritos, a aparência é mera futilidade que não importa nada pra quem pode enxergar dentro de você. Vindo de uma tradição japonesa sobre espíritos e contos sobre a ligação dos seres humanos com os elementos da terra, que são alegorias pra falar sobre a nossa ligação com tudo que existe ao nosso redor, a série mostra como esse laço é pouco presente ou inexistente no nosso mundo real, egoísta, machista e enfadonho.
Korra trata o diferente como belo e luta não por poder, mas sim, por equilíbrio – O equilíbrio com o universo que perdemos enquanto humanos e a conexão com nós mesmos. Ela aprende com seus inimigos a busca pela igualdade, pela espiritualidade e pela liberdade, que são coisas importante, mas não imposições que funcionam da mesma maneira pra todos.
Longe de um feminino fútil, Korra vem mostrar que ser mulher é muito mais do que belos olhos ou passos bonitos, do que um estereótipo de vestidos, saltos e maquiagens: ela luta e ensina a lutar, encara seus monstros sem se tornar um deles e por fim adentra o mundo dos espíritos, na melhor metáfora sobre adentrar a si mesmo pra descobrir o caminho. Enquanto mulheres lutamos sempre contra monstros que habitam o espelho e nós mesmas, e como Korra precisamos enfrentá-los. Colocar o veneno pra fora e não absorver o veneno que nos jogam, para que assim, abracemos outras mulheres em nosso caminho e possamos dar, também a elas, o direito de encontrarem seu caminho em sororidade e irmandade feminina, pra que possamos aqui, nesse mundo pra além do mundo das séries que Korra, habita, lutar contra o autoritarismo e as maldades que nos impõem por sermos mulheres, e mulheres que um mundo machista não consegue lidar. Pois que cometamos o crime de ser divergentes juntas, e assim sejamos capaz de derrubar o que nos mantém oprimidas e o que oprime a tantos.

Ser feminista em tempos de Queer: entre o fácil e o certo

” Haverá um tempo em que você precisará decidir entre o que é FÁCIL e o que é CERTO.” 
A frase de Rowling  define como me sinto enquanto Feminista nos dias atuais. Seria mais fácil aceitar todo o ativismo feminista baseado em conceitos que não falam de mulher, e que inclusive, mascaram a misoginia que mulheres sofrem. Penso, entretanto, que ao fazer isso estaria a apagar da minha luta as mulheres por quem quero lutar, e não vou perder meu tempo em desistir dessa luta, pra entrar nas teorias mais modinhas pra agradar os ouvidos de alguns.
E sim, eu estou falando da Teoria Queer. Meu incômodo com essa teoria tem algum tempo. Primeiro, porque ela não faz sentido pra minha vida. Não tive grandes viagens pros centros do mundo, tampouco nasci com possibilidades de ignorar a realidade. Nasci mulher, fui socializada como uma, e fui e sou testemunha dos sofrimentos que mulheres sofrem enquanto seres nascidos com vaginas numa cidade pequena e numa região machista e misógina. Segundo, minha crítica começou em 2012 quando eu passei 7 meses estudando Estupro como arma de guerra na República Democrática do Congo (1). Li os relatos de mulheres que foram estupradas na frente dos filhos e rejeitadas pelos maridos, as mulheres estupradas por 30 homens de uma única vez, as mortes das meninas de 9 anos. Eu li sobre os estupros no Afeganistão, no Iraque (2), em Ruanda, na Iugoslávia. E foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido enquanto feminista. Endureci, e depois disso ficou muito difícil aceitar teorias que gritam ‘genital não define gênero’ mas criam outras mil definições de gênero, reafirmam estereótipos, e não dialogam com o sofrimentos das mulheres que estão além dos centros americanos e europeus de estudo(11).
A discussão do estupro como arma de guerra surge quase junto com a teoria queer no final do século XX. Durante a década de 90 e na década seguinte, o mundo, com a ruína da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, acreditou com Fukuyama no fim da história e na vitória do sistema capitalista. No entanto, era apenas uma falácia. Os anos 90 viu o renascer de guerras civis sangrentas ( Iugoslávia, Ruanda, Serra Leoa, República Democrática do Congo… ), invasões americanos no Oriente Médio (Afeganistão e Iraque), guerrilhas financiadas pelas grandes empresas mundiais na África e na Ásia, em que o estupro como arma de guerra é denunciado em relatos de mulheres e em estudos realizados (3). Mas, chegamos em 2015 com essa discussão apagada da universidade. Qual discussão, no entanto, aflorou e ganhou espaço? sabemos a resposta.
Estupro como arma de guerra é uma das questões mais violentas, tratando-se de conflitos, que em si mesmos já são processos violentos. Estupro é uma arma poderosa e barata e uma tática de guerra que tem sido, com sucesso, usada para aterrorizar, desumanizar e quebrar indivíduos, comunidades e famílias. Tem sido usada em conflitos desde a antiguidade, a segunda guerra mundial, a conflitos recentes como Ruanda,  Iugoslávia e Síria(12). Mas por que não estamos discutindo isso de maneira sistemática em uma conjuntura de invasões a países e guerras civis? Porque não interessa pro capital e pras grandes potências, de onde vem essas teorias modernas que não pensam mulher e suas realidades, discutir estupro como arma de guerra, tampouco incentivar seus estudos nas universidades da periferia do mundo, como América Latina e África. É necessário silenciar essa discussão e fazer com que a causa feminista pareça estar avançando sob discursos de empoderamento individual em propagandas, filmes e mulheres premiadas, pois, é preciso encobrir os crimes que os exércitos americanos cometeram contra as mulheres no Oriente Médio(4), cuja invasão, foi inclusive apoiada por movimentos feministas liberais americanos(5). É necessário silenciar debates sobre os estupros que seguem e as precárias condições de vida das mulheres, e uma população inteira, em consequência do caos que as invasões deixaram nesses países. E pra quê falar de estupros cometidos por grupos de guerrilha financiados por grandes empresas de computação, farmacêuticas e grandes bancos?(6) Melhor jogar purpurina pra cima e fingir que superamos discussões como essas. Pra quê falar sobre as violências que seres humanos nascidos com vagina sofrem? Sobre o tráfico de mulheres(7), estupros corretivos(8), mortes por aborto clandestino(9), meninas sendo forçadas a se casarem na Ásia por conta da pobreza(10), entre tantos outros problemas? é mais fácil discutir identidade, do que a realidade de uma vida de violências as quais mulheres sem condições são submetidas em todo o terceiro mundo.
Obviamente é necessário discutir a realidade das pessoas trans e dos travestis nas suas difíceis condições de vida. Minha crítica é sempre a teoria euro-americana centrada que não pensa a realidade em que vivemos e portanto ignora a misoginia, a fome, a pobreza, o subdesenvolvimento. Mas, de fato, a maioria não está interessado em mudar a vida das mulheres. Não, não. Querem apenas parecer ativistas, sentados em tronos de maquiagens de grife e sapatos caros pisando nas caras das que, como eu, discordam das suas posições. Sinto informar que com essa postura, trabalham pro sistema misógino e patriarcal existente. Os bancos e os lucros das indústrias farmacêuticas e de beleza, agradecem. As mulheres que estão morrendo e que já morreram pela negligência e indiferença pelo sofrimento feminino, com certeza não.
Referências:
1) Sobre estupro como arma de guerra na República Democrática do Congo: 
“Milícias usam estupro como arma de guerra no Congo”. IN: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/08/120814_congo_estupro_ru.shtml
“Soldiers Who Rape, Commanders Who Condone: Sexual Violence and Military Reform in the Democratic Republic of Congo” IN: http://www.hrw.org/reports/2002/drc/Congo0602.pdf
“Interview with Immaculeé Birhaheka” ( fundadora do Projeto Enough para ajudar mulheres vítimas de estupro em Goma no Congo): IN: https://www.youtube.com/watch?v=EszJzO0Ohh0
2) Sobre a Guerra no Iraque e o abuso de mulheres:
“Guerra de imagens e imagens da Guerra de imagens e imagens da guerra: estupro e sacrifício na guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque Guerra do Iraque”. IN:
3) A dificuldade de precisar os números de estupros nas Guerras é uma das questões mais difíceis de se trabalhar com esse tema. Segundo esse estudo é quase impossível precisar os números dos abusos:
IN: http://www.womenundersiegeproject.org/blog/entry/the-need-for-numbers-on-rape-in-warand-why-theyre-nearly-impossible-to-get
4) Sobre os abusos realizados pelo Exército Americano: 
“Imagens de Soldados Americanos estuprando e massacrando civis”
5) Crítica ao apoio das feministas a invasão americana: 
6) Sobre quem financia as guerrilhas na República Democrática do Congo:
“Congo: a nova guerra é por causa dos computadores”.
7) Sobre tráfico de mulheres:
“Tráfico Internacional de pessoal com ênfase no mercado sexual” IN: http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1640
8) Sobre estupro corretivo: 
“Estupro corretivo vitimiza lésbicas e desafia poder público no Brasil”
“No Peru, Lésbicas sofrem estupro corretivo”.
9)Mortes por abortos clandestinos:
“Brasil: aborto clandestino é a quinta causa de morte materna”
IN: http://www.esquerda.net/artigo/brasil-aborto-clandestino-%C3%A9-quinta-causa-de-morte-materna/29651
“A morte e a dor silenciosa de mulheres que fazem abortos clandestinos em países pobres”
10) Sobre casamentos de meninas no Oriente Médio:
“Pobreza condena milhares de minas da Ásia a casamento forçado”. IN: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/06/internacional/1446826338_616784.html
11) Críticas a Teoria Queer e a questão da ‘Identidade de Gênero’: 
Crianças que foram hormonizadas e se arrependeram – “Leave the Kids alone”.
“A política de identidade de gênero machuca as mulheres”
12) Estupro como arma de Guerra:

Sobre meu Pai: a imposição do colorismo

Uma das figuras mais importantes na minha vida é meu pai. Meu pai foi a primeira pessoa a me incentivar a ler, a amar a literatura e ouviu todas as minhas histórias e planos pra essa vida. Meu pai nasceu pobre, negro e bastardo, não estudou além do primário. Começou a trabalhar aos 9 anos e abandonou a escola. Adora um palheiro e músicas de viola, como todo legítimo homem de interior nascido nos anos 50. É um homem sisudo de 60 anos mas cheio de causos.

E embora eu chame meu pai de negro, ele não se vê assim. Melhor – foi ensinado a não se ver assim. Meu pai viu desde cedo o que era ser negro de onde veio. Filho de mãe solteira por ser negra, e criado pelos avós e tios, todos negros, soube desde sempre o que é ser negro e pobre num sul racista e meritocrático. Por ser mestiço, meu pai tem cabelos lisos, e a pele mais clara, e portanto, o considerem “moreno”.  O que não muda muito a maneira com que  a sociedade sempre o encarou, pois o consideram moreno por colorismo, porque seu semblantes e traços, não negam sua descendência.

Colorismo é o que venho conversando com meu pai há meses por telefone. Ele ri  e como filha, conheço muito bem o tema como algo desconfortável pra ele. Segundo Aline Djokic do Blogueiras Negras, “o colorismo se orienta somente na cor da pele da pessoa. Isso quer dizer que, ainda que uma pessoa seja reconhecida como negra ou afrodescendente, a tonalidade de sua pele será decisiva para o tratamento que a sociedade dará a ela”¹ . Meu pai embora negro, nunca se viu negro. Sempre se viu moreninho, quase branco, e fingia não ser com ele o racismo que sofria muitas vezes. Meu pai sabia que o fato de ser um ‘negro mais claro’ , fazia com o que tratassem diferente – um pouco melhor – do que a seus tios, negros de pele escura e cabelos crespos, por exemplo.

O colorismo atua dessa forma, segundo Djokic: “a pessoa negra é tolerada, mas não aceita, pois aceitá-la seria reconhecer que a  diferença é existente e que vencer o preconceito que se tem sobre essa ‘diferença’ tenha que ser vencido”. Meu pai não entende o que é colorismo. Mas sofreu com ela a vida toda. Sabia não ser branco, e não era tratado como um. Mas também não se assumiu negro.

Talvez meu pai soubesse, inconscientemente, do que significa ser negro e que para essa sociedade, é melhor parecer branco. De acordo com Djokic: “a relação branquitude-pessoa negra de pele clara o importante não é convencer-se de que a pessoa seja na verdade branca, mas sim conseguir ignorar seus traços negros a ponto de conseguir imaginá-la branca, a ponto de poder suportar sua presença que, por causa do racismo, é vista como intrusa”. E com a vida que ele teve, e que outros como ele tiveram, relegados a empregados mal-tratados pela cor da pele que tinham , se reconhecer e se orgulhar de ser negro, era uma tarefa para poucos.

E na semana da consciência negra, é importante lembrar o quanto a sociedade tirou os negros de sua história e os relegou a um canto qualquer. Ainda mais mulheres negras. Quem lembra de Maria Carolina de Jesus?  O é racismo continua presente em toda a sociedade e há um longo caminho de lutas que temos pra desconstruir isso. No Brasil, que diz se orgulhar de suas raízes mestiças, segundo dados recentes evidenciados pelo Mapa da Violência apontam que o Brasil, em números absolutos, é o país com o maior índice de assassinatos do mundo. Só em 2012 foram 56 mil pessoas, sendo 30 mil jovens entre 15 e 29 anos, destes 77% jovens negros².  54% das mulheres nas prisões se consideram negras ou pardas³. É necessário querer ser branco num país com esses índices. E quando se é mulher e negra mais ainda.

Ao escrever sobre isso, não falo por mim, porque eu não nasci negra, embora tenha os traços do meu pai. Sou branca nascida numa família mestiça e reconheço o privilégio que tenho enquanto nascida com a pele branca. Mas escrevo por meu pai, porque ele não teve as chances que eu tive de entender o mundo e tampouco de se ver nesse mundo com o orgulho que poderia de suas raízes cheias de luta. E eu me orgulho dele e dessas raízes que ele me deu e do que ela me ensinou. Na semana da consciência negra, eu faço das lutas do meu pai minha inspiração.

 

Referências:

  1. ‘Colorismo, o que é, como funciona’. In: Blogueiras Negras. Link: http://blogueirasnegras.org/2015/01/27/colorismo-o-que-e-como-funciona/
  2. ‘No Brasil, 68% das mortes violentas são de negros’. In: Exame. Link:  http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/consciencia-negra-68-das-mortes-violentas-sao-de-negros
  3. ‘Mulheres e Prisão’. In: Blogueiras Feministas. Link:  http://blogueirasfeministas.com/2013/02/mulheres-e-prisao/

 

 

Palavras sobre a Introversão

“ Nossa cultura transformou em virtude viver como extrovertidos. Nós desencorajamos a jornada interior… Nós perdemos nosso centro e agora precisamos reencontrá-lo. ”
Anais Nin

Em tempos de selfie em baladas e ostentação de melhores makes e roupas fashionistas, é uma grande qualidade ser extrovertido em nossa sociedade. Estar rodeado de pessoas, sair para festas o tempo inteiro, participar de muitos grupos no whatsapp, gostar de música pop. Ser introvertido é um defeito. Sempre são considerados bizarros os jovens que amam os sábados a noite em companhia de livros ou bons filmes. Como eu. Sempre disseram: ‘você vai se arrepender’, mas a verdade é que eu não me arrependo. A solidão e os livros sempre foram e são uma ótima companhia. E eu passei muito tempo esperando que me entendessem até entender que o que preciso é ser eu mesma e compreender quem sou.
Eu sou bastante falante, mas passo mais tempo em silêncio do que falando. E ouço muito antes de falar. Ser introvertida é lidar com uma uma cultura que acha que introvertidos precisam sair de suas cascas e ir beber pra se divertir, como em toda saga americana em que os personagens introvertidos são excluídos até que se rendam a buscar popularidade.
Mas ser introvertido não deve ser considerado defeito. A introversão é uma maneira de ver o mundo sob uma perspectiva mais reflexiva, e portanto, mais questionadora sobre o há nele. Há um comércio inteiro que faz as pessoas crerem que extrovertidos são melhores companhias, mais engraçados e divertidos, desde filmes às músicas nas rádios. Mas a introversão nos leva ao fundo, olha pra dentro antes de sair pra fora. E num mundo que precisa de pouca reflexão para manipular pessoas pra que elas comprem novos Iphones e depende de suas impulsividades extrovertidas para gastos de domingo no shopping, a introversão não é bem vinda. Mas nós, introvertidos, seguimos, com northern-lights na alma e pensamentos que voam como pássaros numa manhã gelada de céu azul.

ARTE: ‘Feminismo pra quem?’ por Cecília Ramos

12088239_939434476130541_623732223154386364_nSe o seu feminismo não pensa  nas mulheres pobres, nas mulheres negras, nas travestis nas ruas, nas mães solteiras, nas mulheres abusadas nas penitenciárias, em quem ele está pensando?

Se o seu feminismo usa de uma linguagem pouco acessível para se dialogar sobre, se as mulheres mais simples não entendem o que seu feminismo diz, se ele não fala pros lugares que mais precisam ou dialoga com eles, onde ele quer dialogar?

Se o seu feminismo não olha pras vítimas de abusos, não discute aborto, maternidade compulsória, cultura de estupro, feminilidade imposta, a serviço de quem ele está?

Se o seu feminismo não olha pra própria realidade, para a pobreza, para a luta pela terra e por moradia, pra colonização de pensamento, pra super-exploração e pro subdesenvolvimento nas terras em que você vive, quem esse feminismo está visando?

Pra QUEM serve teu feminismo?

Eu, Feminista Terceiro-Mundista e Latino-Americana

Eu sou uma feminista terceiro-mundista – e latino americana. Porque eu me identifico com o feminismo feito pelas mulheres bolivianas, com a luta das mulheres palestinas pelas suas terras e das mulheres peruanas contra a mineração. Com as revoltas das mulheres do cariri, com as cooperativas de mulheres de Moçambique. Porque me vejo nas palavras de mulheres indianas sobre o estupro, porque eu acredito na critica das Zapatistas sobre o silêncio da América Latina sobre os sofrimentos de suas mulheres, porque os escritos de um feminismo latinos americano descreve a realidade que eu vivo – de um país subdesenvolvido, explorado e de terceiro mundo, e minha, como mulher pobre, filha de negro.
Eu sou uma feminista de terceiro mundo, latino americana. Me solidarizo com os sofrimentos das meninas nigerianas sequestradas pra ser escravas sexuais, eu denuncio o estupro como arma de guerra e o machismo institucionalizado e presente de maneira autoritária mesmo nos grupos mais progressistas desse continente, incapazes de problematizar pornografia, violência contra a mulher e exploração da mulher, porque privilegia a muitos que a mulher siga sendo propriedade do homem rico e a proletária do proletário.
Eu sou uma feminista de terceiro mundo porque embora importantes, pensadoras de países centrais não reconhecem o sujeito não-branco e pobre que são, em grande maioria, as mulheres de terceiro mundo. Porque eu nasci no terceiro mundo. Nasci pobre, neta de lavadeira, filha de gente preta, de interior e excluída socialmente. Porque me orgulho disso, e me sinto parte desse mundo não representado e colonizado que precisa pensar por conta própria e se libertar das figuras de mulheres calientes cujas bundas servem pra ser admiradas e cujo trabalho é mal remunerado.

( em: 13/06/2015 )