O amor é um negócio burguês, não te disse?

Desde crianças nós somos ensinados a acreditar que Amor é algo incondicional, que os afetos não tem cor, não tem classe social ou profissão estabelecida. Mas a falácia por trás dessas afirmações segue como um rolo de opressões que nosso apetite voraz por contos de fadas ignora. E ignora especialmente a incapacidade dos homens de amarem mulheres, algumas menos ainda que outras.
O amor tem cor, tem classe social, tem peso, tem raça. Homens não sabem amar mulheres sem exercerem poder sobre elas, e isso vemos de maneira ainda mais abusiva quando falamos de mulheres negras, mulheres gordas, mulheres pobres. E isso se reflete em estatísticas nacionais: mulheres negras são as maiores vítimas de violência doméstica, feminicídio e estupro. São o maior contingente de mães solo abandonadas pelos companheiros. O resultado dessas violências é uma sequência de violências psicológicas e patrimoniais que quase não se discute.
E é nesse mundo que condena essas mulheres a essas vidas cortadas por violência que as relações de afeto existem. E essas relações de “amor” existem ultrapassadas pelo racismo, pelo preconceito em todas as suas formas (quem namora e assume a mina gorda, a mina negra, a faxineira, a empregada doméstica, a babá?), pelo machismo. O amor é assim também transpassado por esses preconceitos e essa violência. Infelizmente, nessa lógica classista, racista e machista eles escolhem com quem terão apenas sexo e com quem eles terão relacionamentos. E não são as mesmas mulheres.
E essa Violência é diaria. Foi esse preconceito que fez de minha avó paterna, negra e pobre, mãe solteira; que faz aquele cara “legal” (só que não) esconder a mina porque ela é a faxineira, que fez o cara “gente boa” bater na moça negra. É essa série de violências que mata mulheres a cada 1 hora e meia. São violências e opressões que a gente finge que não existe nessa bolha romântica, quando o próprio romantismo é uma criação burguesa que sempre escolheu apenas as sinhás e as princesas pros seus afetos. Escolheu as moças bem comportadas pra amar, enquanto mandou lobotomizar as outras. Misoginia, preconceitos de classe, racismo, gordofobia, etc, andam de mãos dadas nessa sociedade e as atravessam por completo. Não é o amor que será isento delas, muito menos o amor de pessoas que sequer tentam refletir sobre a sociedade em que vivem. E é triste admitir isso. É. Mas é Violento e opressor fingir que não é real.

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Palavras sobre a Introversão

“ Nossa cultura transformou em virtude viver como extrovertidos. Nós desencorajamos a jornada interior… Nós perdemos nosso centro e agora precisamos reencontrá-lo. ”
Anais Nin

Em tempos de selfie em baladas e ostentação de melhores makes e roupas fashionistas, é uma grande qualidade ser extrovertido em nossa sociedade. Estar rodeado de pessoas, sair para festas o tempo inteiro, participar de muitos grupos no whatsapp, gostar de música pop. Ser introvertido é um defeito. Sempre são considerados bizarros os jovens que amam os sábados a noite em companhia de livros ou bons filmes. Como eu. Sempre disseram: ‘você vai se arrepender’, mas a verdade é que eu não me arrependo. A solidão e os livros sempre foram e são uma ótima companhia. E eu passei muito tempo esperando que me entendessem até entender que o que preciso é ser eu mesma e compreender quem sou.
Eu sou bastante falante, mas passo mais tempo em silêncio do que falando. E ouço muito antes de falar. Ser introvertida é lidar com uma uma cultura que acha que introvertidos precisam sair de suas cascas e ir beber pra se divertir, como em toda saga americana em que os personagens introvertidos são excluídos até que se rendam a buscar popularidade.
Mas ser introvertido não deve ser considerado defeito. A introversão é uma maneira de ver o mundo sob uma perspectiva mais reflexiva, e portanto, mais questionadora sobre o há nele. Há um comércio inteiro que faz as pessoas crerem que extrovertidos são melhores companhias, mais engraçados e divertidos, desde filmes às músicas nas rádios. Mas a introversão nos leva ao fundo, olha pra dentro antes de sair pra fora. E num mundo que precisa de pouca reflexão para manipular pessoas pra que elas comprem novos Iphones e depende de suas impulsividades extrovertidas para gastos de domingo no shopping, a introversão não é bem vinda. Mas nós, introvertidos, seguimos, com northern-lights na alma e pensamentos que voam como pássaros numa manhã gelada de céu azul.