Tire seu pênis do caminho que o Sagrado Feminino vai passar: um manifesto pela história das mulheres

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O sagrado feminino é, historicamente, o acúmulo da sabedoria das mulheres transmitida a outras mulheres e a resistência do conhecimento do corpo feminino, pensando o útero e a vagina, em relação a natureza e ao universo. A ideia do sagrado feminino, é tão ancestral quanto mulheres, e foi apagada propositalmente desde a ascensão do cristianismo por todo o Ocidente, e a colonização da América, da África e da Oceania. A presença das mulheres e de seu conhecimento acerca de saberes ligados a terra, a natureza e a saberes místicos foram demonizadas, tornadas pagãs e sistematicamente apagadas. A história das mulheres e as figuras femininas ficaram resumidas a deusas que os homens representaram de maneira fútil e a tribos que eles fantasiavam de maneira erótica.

Os homens e o falocentrismo ocidental tornou o sagrado feminino opaco e sujo perante seu Deus masculino. Figuras como Sheela Na Gig, Pachamama, Tawere, Oyá ou Bricta são até hoje pouco conhecidas. Quem lembra da figura de Sheela na Gig com pernas abertas expondo o clitóris e sua vagina? da força de Oyá enquanto feiticeira, guerreira do vento? quem sabe que Atenas não era apenas a deusa da sabedoria, como também das estratégias de guerra? Do pacto de Artêmis jurando eterna virgindade por nojo dos homens? Essas figuras femininas de poder se tornaram diminutas em um ocidente cristão e falocêntrico. Não porque sejam pequenas, mas porque os homens as tornaram assim – pois eles fizeram Deus a sua imagem e semelhança, um ser masculino e opressor. O Deus ocidental, é uma figura masculina, cujos representantes na terra são homens que vivem cercados por outros homens. Os homens enterraram o sagrado feminino e construíram essa historicidade masculina que determinou as bases ocidentais que excluiu mulheres da história e do processo do conhecimento. 

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Nesse contexto, o sagrado feminino e a luta para afirmar o corpo feminino como algo pleno em si mesmo, sem precisar ser comparado com o pênis, é a história da resistência das mulheres. Os corpos femininos são entendidos enquanto públicos porque ele é entendido a partir de uma visão masculina religiosa como aquele que carrega a raiz de todo o pecado, e que portanto, autoriza toda sorte de maldade aplicada a este. É entendido como inferior e sujo porque não tem um pênis, porque desde a Grécia o amor dos homens pelos próprios homens, é predominante. A sociedade masculina não ama mulheres, ama homens. Eles usam mulheres. A descoberta dos homens de que seus pênis poderia ser usado como uma arma para machucar mulheres, unido a mentalidade construída e disseminada de que mulheres seriam seres inferiores, serviu – e serve – para que mulheres sejam violadas em períodos de guerra, mesmo em períodos de trégua. Legitimou a ideia de que mulheres serviriam apenas para o ambiente doméstico e que aquelas que fugiam desse modelo estipulado eram doentes que precisavam ser internadas em hospícios e/ou lobotomizadas. Permitiu que homens como Josef Mengele fizessem todo tipo de experimentos em corpos femininos. E essa mentalidade serviu para encobrir os interesses do capital em explorar mulheres para diminuir salários masculinos e colocar seres humanos trabalhando 16h por dia enquanto mal ganhavam por comer, por mais de dois séculos. Esse falocentrismo presente em pleno 2016, anos após avanços e lutas feministas, faz com que mulheres não tenham o direito de definir o que é ser mulher em um país e em um mundo em que nascer mulher define sua existência social. Voltamos novamente a ser definidas por homens em seus grandes salões de conhecimento.

Diante disso, falar e redescobrir o sagrado feminino é afirmar mulheres como donas da próprio vida e de sua história. É trazer a elas a historicidade daquelas que morreram antes delas para que elas pudessem viver, é passar adiante uma história de lutas femininas que resistiram contra homens e seus pênis. O conhecimento de mulheres é constantemente questionado em prol daqueles que detém o falo. Somos diminuídas por questionar a autoridade dos mesmos sobre nossas vidas, como as mulheres na antiguidade foram perseguidas por se unirem pra dividir conhecimentos com outras mulheres. Somos humilhadas publicamente por discordarmos de pessoas com pênis, como bruxas foram queimadas na fogueira. Somos ameaçadas como foram as mulheres que antes de nós lutaram por um mundo mais justo para mulheres: de Olympe de Gouges a Maria Felipa de Oliveira. De Dandara a Pagu. De Maria Quitéria a Olga Benário.

Resgatar o sagrado feminino é afirmar seres humanos com vaginas como seres humanos em luta em uma sociedade que nos nega direitos e justiça e nos trata como inferiores por termos nascido mulheres. É afirmar nossa vagina para além do órgão erotizado e sujo para o qual a igreja católica e posteriormente a pornografia o colocou. É redescobrir a força e o poder do clitóris em uma sociedade que nos ensina a amar apenas ao pênis e a respeitar apenas a ele como detentor da sabedoria e do prazer. A história da mulheridade, revela o oposto, e é essa história que buscamos afirmar ao trazer novamente o sagrado feminino para um mundo, que embora seja mais ateu, é cada vez mais falocentrado.

A história dos homens roubou das mulheres a oportunidade de se reconhecerem enquanto seres de luta, detentores de sabedoria. Enquanto nos ensinavam que os homens construíram esse mundo, nos esconderam das mulheres que construíram junto com eles com ainda mais resistência, pelos espaços negados, pelas violências sofridas e pelos nomes apagados. Nossos órgãos foram apagados da história e nosso conhecimento foi demonizado. Reafirmar nosso sagrado feminino não é uma ofensa aos nascidos com pênis, sejam eles o que forem – é fortalecer nossa luta e entender de onde viemos e porque lutamos. É olhar pra nós mesmas, e entender a realidade que nos cerca enquanto mulheres. Olhar nossas infâncias de meninas e relembrar as violências sofridas e lutar para que outras meninas não sofram o mesmo. É nos afirmar enquanto mulheres que não serão redefinidas em nome de sentimentos falocêntricos.

Tirem seu pênis do caminho que o sagrado feminino quer – E VAI – passar.

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Deusa Oyá