Jane Austen: não, ela não era conservadora.

Caras conservadoras, sinto informar, mas Jane Austen não defendia a família e o casamento: Jane Austen defendeu mulheres, criticou a a elite, a escravidão e a hipocrisia de sua época. Hoje, ela não estaria do lado das mulheres unidas contra o feminismo, ela estaria do lado das mulheres reais, como esteve em seu tempo, e dos homens que se permitem desconstruir.
Jane foi uma mulher de poder, que ousou escrever quando não deixavam mulheres escrever. Que ousou recusar uma dedicatória a rainha por não reconhecer nela poder. Que ousou ficar solteira quando todos insistiam em casar mulheres pra não ficarem tias. Jane falou sim da mulher inteligente, da mulher que lê, que assume as responsabilidades, que luta para viver. Ela não falou elogiando a vaidade exacerbada, tampouco a feminilidade como qualidade pra mulher. Elizabeth Bennet não era bonita ou feminina, era forte e destemida. Anne Elliot era leal e justa. De onde tiraram que ela defendia o papel da mulher de família? Não! Ela faz o oposto!
Parem de deturpar Jane pra servir aos moldes machistas do que é ser mulher. Jane criou mulheres donas de si que foram donas da sua vida. A obra dela não é sobre romances vazios e cristão. É sobre mulheres fortes e sobre quebrar o estereótipo do que é ser mulher pra uma sociedade hipócrita.

( em 28/06/2015 )

Cartas para Jane, I

Querida Jane,
Esse é um século confuso. Mais do que nunca, lembrei-me lembrei dos seus sábios conselhos e dos ensinamentos de como ser uma mulher forte em um mundo que já não vale a pena, e em que todas as pessoas tentam limitar-lhe dentro das suas próprias regras esdrúxulas e conservadoras.
Quantas vezes eu pensei na falta que fazem suas recomendações sobre leitura e a ênfase em ‘improvement your mind by extensive reading’. O que seria da vida, sem os livros, e certamente, sem as suas palavras, em um lugar em que já não se lê mais , e em que o egocentrismo, que tanto repudiastes, está em alta? a Literatura é sempre a melhor companheira. E suas palavras de como as mulheres deveriam usá-las fazem sentido. As mulheres que leem são realmente perigosas.
E ah se soubesses o que fazem com suas palavras! pra quem criticou o casamento como obrigação da mulher, recusou-se a dedicar uma obra pra rainha e morreu criticando a hipocrisia e o narcisismo da elite, estás sendo mal utilizadas por ditas ‘mulheres de direita’ que usam suas palavras como se elogiasses exatamente o que criticas. Esqueceram que não fostes reacionária, mas sim revolucionária, desafiando os modelos de mulher em uma época em que isso não era permitido.
És o meu exemplo, miss Austen. Em qualquer uma de suas obras encontramos mulheres fortes como personagens centrais, mulheres humanas com erros e que não são simplesmente um amontoado de lábios enfeitados e decotes pra serem observados. Séculos atrás o que já lembravas, parece esquecido. E até lutar por igualdade tornou-se piada e razão de ofensa. Fico feliz que não vivas em um século em que com todas as modernidades as pessoas ainda defendem estupradores, acham que meritocracia é um caminho possível (porque obviamente tem condições pra acreditar nisso) e ainda não acham que homens e mulheres possam ter direitos iguais.
E por isso, te agradeço. Te agradeço pelas palavras que nos deixaste de sabedoria para sobreviver sem nos afogar em um mundo em que ‘egocêntrico’ é elogio. Por ter nos deixado tantas mulheres incríveis como exemplo e por ter nos ensinado a não nos rendermos aos maiores canalhas que encontrarmos. Obrigado pela crítica tão atual aos valores morais manchados pela hipocrisia daqueles que o defendem.

(  em: 16/12/2014 )

Citação: Charles Bukowski

“Talvez a miséria tenha chegado. Não se pode viver da própria alma. Não se pode pagar o aluguel com a alma. Experimente fazer isso um dia. É o início do Declínio e a Queda do Ocidente, como Splenger dizia. Todo mundo é tão ganancioso e decadente, a decomposição realmente começou. Eles matam gente aos milhões nas guerras e dão medalhas por isso. Metade das pessoas deste mundo vai morrer de fome enquanto a gente fica por aí sentado vendo TV.”
( Charles Bukowski )