O universo e (em?) nós

A lua eclipsal se posiciona sobre aquário. O que parece escuridão, brilha reluzente do seu outro lado. Aquário, do auge de sua frieza, sorri um sorriso infinito cercado de estrelas cadentes que as luzes das cidades não nos deixam ver. Se não houvessem tantos postes, e tantas luzes quebradas dentro de nós, quem sabe veríamos o que o universo nos mostra e escutaríamos as melodias antigtumblr_oomspytAsx1qh7yubo1_500as que eles cantam pros cometas dançarem.
E eles dançam tão longe de nós, meros humanos aparvalhados em mídias sociais, celulares e frieza uns com os outros. A vida tão lenta no infinito das galáxias pouco reflete em nós, sempre correndo contra o tempo que inventamos pra nos prender em gaiolas imaginárias, sem nem mesmo saber pra quê. Quantas algemas nos prendem aqui? Quantas vezes nos algemamos a esse planeta dito único habitável? e quantas vidas perdemos de viver vivendo essa única de idas e vindas em horários apertados, dias corridos e sonos agitados?
Andrômeda pode estar nos esperando de mesa posta pro jantar e nós jamais saberemos. Nós recusamos os convites das estrelas todos os dias quando ligamos a televisão pra assistir coisas inúteis que preenchem apenas o vazio do buraco negro que nos consome de dentro pra fora. Que melancolia. O infinito é melancólico. E pode haver beleza na melancolia se a gente souber sentar e conversar com ela olhando dentro dos seus olhos violetas que nunca piscam e tem pálpebras de desertos banhados pela lua cheia. É uma pena que a melancolia a gente ignora pra não precisar lidar com o buraco negro. A gente a ignora e corre abraçar uma felicidade irreal de cores falsas que nos mantém pisando em cacos de vidro na superfície que não brilha, nem reflete a luz da lua.
É difícil perceber a luz da lua com os olhos cegados de fúteis e fuzis. O infinito gira em seu próprio ritmo sem nós, enquanto nossas horas passam em ansiedade constante em que nada se encontra além de nuvens que nunca chovem e sóis que não aquecem. Um dia a gente chega lá. A gente olha pra cima e cumprimenta a lua como velha amiga, e ela há de sorrir de volta.

There will be no White Flag above my door.

O chá quente esfria rápido no vento da varanda. Lá fora o mundo dança e para, os carros correm e as pessoas, como zumbis, andam sem levantar os olhos do celular. Por que tememos um apocalipse Zumbi se já parecemos viver em um? Eu deixo uma bagunça enorme onde quer que vá. Uma nata troublemaker, eu reajo a tudo de maneira apaixonada. Nem todos entendem. Perco mais que ganho.

Perco amigos, meu bem. Em um mundo de consensos, quem sou eu pra discordar das teorias vigentes? Ande com aquele, defenda isso, lute por tal causa, compre de tal lugar, se comporte de outra maneira. Eu nem escuto mais rádio. Nem sequer assisto Game of Thrones. Como a pessoa inspirada por Jane Austen e Dostoievsky que sigo na vida, eu analiso as coisas cuidadosamente, mas tenho defeitos que eu queria ter superado há muito tempo. Nem tão simples, quase impossível, minha língua afiada tem sempre uma resposta pra tudo que envolve as causas que me envolvo. Não é o que as pessoas querem ouvir, mas é o que eu tenho pra dar.

Alguns dizem – se renda!  mas como Dido canta: “I won’t put my hands and surrender, there will be no white flag above my door.” – eu não vou pôr as mãos pra cima e me render, não haverá bandeira branca sobre a minha porta. Que guerra é essa que apenas um lado tem armas? o tiro que miram no meu peito, erram pela distância. A humanidade que se arrasta como os zumbis de Romero se alimenta de sonhos de plástico e sorrisos falsificados escondidos por purpurina barata. Há de seguir em frente, mas o seguir perdeu o rumo. Essa guerra perdida, tem seus vencedores comemorando com Whisky caro nos corredores do Goldman Sachs e junto deles Wall Street festeja com cocaína. Na mesma esquina, mais uma mulher morreu de fome essa noite.

Os gatos que miam alto em desgosto e coragem na rua de baixo, espelham meus sentimentos. Meu bem, eu não tenho bandeira brancas pra apresentar. Nem quero. Não desisto dos amigos que querem me deixar, nem das coisas que me fazem gritar. Tentei ser mais alegre, mas me sinto muito brava. Queria ser mais liberal, mas sou muito pobre. Muito prazer, meu nome é otário. Coleciono relógios quebrados com as horas que vivi com as pessoas que me deixaram, e que anunciam as horas das pessoas que se irão porque falo aos que preferem silêncio. O tempo tem um corvo preso em seu peito que anuncia as tempestades de um céu de inverno. Com olhos esbugalhados e cantos agudos eu sigo seus conselhos gritados nas rajadas do vento – torne o mundo algo melhor do que aquele no qual você chegou. Simples, não? não.

Não quero tornar a vida de ninguém mais difícil. Muito pelo contrário. Mas se eu fosse ser pacífica, eu habitaria Oceano ao lado do grande Titan, e aproveitaria pra pedir conselhos a Gaia. Não que eu cogite trair as deusas. Mas Artêmis entenderia.Se as pessoas se vão, não será porque me rendo, será porque falar a verdade sempre te condena. Pergunte a Medusa. Mas eu não levanto as mãos pra me render. Eu levanto as mãos pra sacar as armas e encontrar a mira certa. Quem se esconde sob o telhado perde as estrelas.