Esquina

Há uma esquina em que todos os sonhos estão quebrados. Ela cheira a tapete antigo, café frio e perfume barato. Todos que passam ali não percebem as folhas mortas no chão e o buraco no muro recém construído. Narciso poderia ter morrido naquela poça d’água fria e suja, tantos são os egos esfarelados por aqui.
Ah sim. Tantos egos. Cores fortes que morreram contra o muro, nomes que queriam ser mitos esquecidos em páginas rabiscadas por canetinha barata, belezas vaidosas que perderam o sentido quando a idade chegou. Tantas estrelas perdidas num céu distante. Ninguém mais sabe nomear constelações em eras digitais.
O poste quebrado já não ilumina nada e a esquina escura é repouso de espelhos quebrados que massacraram seus donos com a realidade: a vida não é só sobre imagem. Há tanto mais ignorado. Mas ninguém quer olhar pra própria casa antes de vigiar a casa alheia. E é dentro de casa que estão todos os armários pra consertar e aquela prataria velha pra colocar no lixo. Os sonhos que a esquina fria não condena são aqueles poucos que lutam por causas perdidas.
Mas amigo, a esquina das causas perdidas é essa ali de baixo. Passa lá e toma um chá que o cheiro é melhor do que essa realidade que cheira a roupa mofada.

Olhos de Jabuticaba e segredos de liquidificador: palavras sobre minha melhor amiga

Ela faz parte da minha vida desde quando os dias não eram tão curtos, mas longos e cheios de ilusões. Nas minhas melhores memórias eu encontro seu sorriso junto ao meu e sua risada ecoando a minha. Posso ver ela brigando comigo pra não bater nela ou não ficar tocando enquanto falava, ou ela ao meu lado cantando alguma música da Pitty encostadas no muro velho da quadra da escola enquanto os mais ranzinzas nos mandavam ficar caladas. Também posso encontrá-la nas minhas memórias mais duras e tristes. Das noites de depressão, de crises de ansiedade, das ligações em prantos, das mensagens madrugada afora pra vencer o pânico. Se a vida nos fez atípicas em um mundo tão clichê, temos a sorte de termos uma a outra pelos últimos 11 anos de nossas vidas.

Ela me ajudou a entender que nada é uma palavra esperando tradução, e como a menina do Piano Bar, nós já nos seguramos a beira de penhascos mais vezes do que lembramos. Dona de olhos negros densos, os olhos delas escondem mais que revelam, e se não te dão respostas, te dão a segurança que apenas um mar escuro e misterioso pode trazer. A solidão que se mistura a coisas doces é algo que poucos entendem numa sociedade que enxerga as coisas em preto e branco. Seus olhos de jabuticaba sempre souberam me entender quando eu não podia me explicar.

Há algo sobre ela que é peculiar. Sempre houve.Inteligente como poucos, se eu fechar meus olhos, eu posso ver o modo como ela se mexe ouvindo uma música que ela gosta ou como ela se anima falando de algo que gosta. Como nunca nos falta assunto, assim como o silêncio nunca é estranho entre nós. Mas se uma parte de mim  fica triste por não poder abraçá-la hoje, outra parte se sente feliz por ela ser minha melhor amiga. Estranhas como só nós, somos feministas (radicais), bruxas e lutadores juntas, compartilhamos segredos de liquidificador pela vida, e seguimos juntas, apesar da distância, do tempo e das dificuldades.

Como Bukowski já disse, 200 anos atrás eles teriam nos queimado na fogueira. Sempre estivemos muito perto. A Utopia sempre é uma companheira de luta, e ela sempre me inspirou a ser uma pessoa melhor e forte. Ela é a mulher mais linda que eu conheço também. Porque ela não é apenas uma embalagem, mas ela é ela mesma, sensível, cheia de personalidade e lindas marquinhas de nascença. É inteligente a sua maneira quase tímida e muito dura, e eu posso ver Sallinger falando sempre que ela fala, me dizendo pra refletir mais e ter coragem, posso ouvir Dom Quixote em sua voz, compartilhando comigo as causas perdidas pelas quais lutamos, posso ver reflexos de Jane sob aqueles olhos tão densos, olhando pra mim em perspicácia. E por trás de tantas palavras, posso ver Carl Jung, até um pouco de Foucault, e um tanto de Virginia Woolf e Nise Silveira, unindo-se a personalidade incrível que ela já tem e aquela inteligência que ilumina – e vai iluminar – ainda mais mais caminhos.

E hoje, ela completa 23 anos. Nem todos entendem quando digo que ela é amor da minha vida. Primeiro, porque as pessoas não entendem o amor pra além do estereótipo erótico da sociedade ocidental. E senhores, a amizade é o amor mais forte que existe nesse ocidente decadente. Segundo, porque o amor entre mulheres não é compreendido, mesmo hoje, as pessoas pensam que amizades de mulheres não duram, pois acham que mulheres devem estar sempre competindo entre si. Mal sabem eles, o poder que a sororidade e a irmandade feminina pode ter nessa sociedade falocêntrica. E se alguém me ensinou sobre sororidade, com certeza foi ela.

E eu a amo, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, daqui até o fim do mundo. Somos nós duas contra o mundo. Sempre foi.

 

NOTA: o nome dela não será incluído nesse post, para mantê-la segura de possíveis ataques que são realizados massivamente contra feministas que não se alinham as correntes liberais, queer e seus afins.

Cartas para Jane, II

Querida Jane,

Em meio a tempos turbulentos, dificuldades emocionais e uma sociedade nojenta, me pego constantemente lembrando de você. ‘O que Jane faria?’ é uma pergunta que cruza minha mente nos dias mais exaustivos. Minha primeira resposta óbvia é: ‘ela jamais desistiria’. Eu penso em desistir, às vezes. Então lembro que você desafiou a rainha pra escrever sobre o que acreditava e deixou um legado feminista muito antes desse movimento sequer ter iniciado. Você desafiou todas as regras do seu tempo pra ser quem era, mesmo que isso lhe tenha custado a saúde, e lhe jogado a uma vida árdua.

Mas são tempos tão loucos, Miss Austen. Mais loucos do que sua honestidade e sua ironia perpicaz poderiam prever. Lembro quando escreves ‘nem todas as mulheres querem estar em mares calmos por toda a vida’ e penso, como lidar com aqueles que continuam a esperar isso das mulheres? ou pior, como lidar com as pessoas que se dizem ‘evoluídas’ mas dizem que mulheres que não agem conforme os estereótipos – que você já questionava no século XIX – são homens? Sim, estamos nessa fase da sociedade. Hoje, mulheres voltaram a ser os embrulhos enfeitados que você tanto refutou. Se não voltaram, querem nos fazer crer que são e nos obrigam a aceitar. Todos os estereótipos de beleza e delicadeza estão de volta. Cada vez mais fortes. E dessa vez, mesmo a luta que dizia refutá-los, os reconhece e pouco os problematiza. Somos medíocres comparadas a mulheres como você e as irmãs Brönte que em um século que condenava mulheres a miséria e lhes negava qualquer tipo de humanidade desafiavam tudo para lutarem por uma sociedade melhor para as mulheres.

Mas a sociedade ainda é péssima para mulheres, Jane. Tentamos e tentamos, mas como você já reconhecia, os homens detém sempre a decisão final, e eles nunca estão ao nosso lado. O mais sinistro, é que em tantos anos atrás já notavas como o ser feminino não era natural e ironizava que o único destino de uma mulher fosse o casamento, e hoje, nesse ocidente patético que se acha moderno, apesar de todas as discussões, voltamos a encarar gênero como natural, como se pessoas nascessem com almas e cérebro femininos.O feminino, essa ideia patriarcal que as mulheres já refutavam séculos atrás por ter sido uma construção masculina pra servir a seus propósitos capitalistas, escravistas e de exploração, continua em vigor. Nada disso mudou desde quando estavas aqui. Apenas piora, se eu puder, com profundo desgosto, ser sincera. Continuamos sendo definidas por homens a seu bel prazer, e continuamos massacradas quando discordamos das premissas que homens criam sobre o que mulheres são e o que ser mulher significa nessa sociedade. Eles ainda detém o monopólio da palavra, da justiça, da economia. De tudo que conhecemos por mundo em geral.

JASNAGCR

Jane Austen

 

No século XIX era necessário esconder-se atrás de pronomes masculinos para poder escrever. Não por prazer, mas porque essa era a única maneira de uma mulher poder escrever. Ah, Jane. Quantas mulheres não morreram esquecidas sob nomes masculinos por conta de um mundo patriarcal que nos enxerga homens quando ousamos ser mais do que determinam que sejamos? Quantas mulheres ainda irão morrer por desafiarem as ordens masculinas de se recatarem as suas casas e não aumentarem sua voz? Quantas crianças precisarão morrer pra que percebam que liberdade não é tomar remédio pra se adequar ao ‘gênero certo’? Eu não sei. Séculos atrás eles lobotomizavam, estupravam, batiam, medicavam, torturavam, matavam mulheres que ousavam ser mais do que deveriam ser para aquela sociedade. Diziam que elas invejavam o falo – e ainda dizem. Hoje, não fazem tão diferente disso, apenas mascararam o discurso. E quem controla a palavra, controla as mentes. Ainda somos consideradas loucas, ainda nos consideram homens quando falamos mais alto que eles, ainda querem nos matar por quebrar as regras. Ainda estamos sozinhas. E eles e seus falos continuam definindo quem somos, como deveríamos viver e pelo quê deveríamos lutar. Ao lutarmos por nós, e apenas por nós mulheres, meninas, senhoras, mães, eles desejam nossa morte. Assim como no século XIX. Assim como os inquisidores.

Eu imagino você aqui, Miss Austen. O que diria, de que lado estaria. Mas, penso que pra alguém que ousou criticar a alta sociedade inglesa, a escravidão e a exploração, de maneira sutil mas incisiva, talvez você ficasse do nosso lado. Nós somos poucas mas tentamos. E seguimos. Apesar das ameaças, das dores e das dificuldades. Eu desejo que o próximo século seja melhor para as mulheres. Que, no mínimo, tenhamos a palavra pra decidir quem somos sem homens e seus falos interferindo nesse meio. Que viver seja menos doloroso pra quem é mulher, porque Jane, ainda é. Ainda é.

Eu realmente imagino você aqui, Jane. Mas, honestamente? Que bom que você não está.

Obrigada por tudo.

 

[ ADENDO: Sim, eu sou uma grande crítica da colonização acadêmica e de pensamento. Continuo achando necessário. Sim, eu sei que Jane é inglesa.

Mas Jane Austen é minha escritora favorita por razões muitíssimo pessoais que não irei falar sobre. ]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até acontecer com você, você não sabe como é.

A palavra da estação já foi empatia -a delicada capacidade de sentir junto e se solidarizar com a dor alheia. Empatia é um grande talento, e em um mundo que tem olhos baixos focados na tela do celular, é cada vez mais rara. Vivemos em grandes bolhas seguras em que apenas nossos dores importem e minimizamos a dor alheia como se elas fossem menores que a nossa. Não se sente a dor do outro, não nos importamos, encontramos um rótulo que nos mantenha confortável enquanto observamos de longe o mundo desabar, e apenas comentamos a fraqueza daquela pessoa, cuja dor sobrepõe o sorriso.

No auge do nosso egoísmo e das dificuldades diárias é realmente difícil sentir algo além das nossas próprias mazelas. Das contas de casa ao stress do trabalho, não sobra muito tempo pra nos importarmos com o sorriso triste que a vizinha nos lançou no elevador ou com a moça chorando no ônibus. E certamente, num mundo em que não consegue sentir empatia a não ser com animais em sofrimento, as violências passam por nós, e sequer percebemos. Porque até acontecer conosco, não sabemos de fato qual o sentimento.

Até o mundo cair aos seus pés, você não sabe o significado disso. Até tudo que é importante queimar perante seus olhos, você vai repetir pra quem está passando por tal dificuldade que ela precisa ser mais forte. No fundo, você acha que sua dor é maior e não quer se importar. E em um mundo em que mulheres estão sujeitas a um leque imenso de violências, isso se aprofunda e dificulta ainda mais o que já é difícil.

A cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil, mas nos bares por aí todos ainda sussurram que a culpa foi dela. Todos os dias morrem em média treze mulheres, mas em todo lugar, homens continuam apoiando os amigos que são abusivos com suas mulheres. Todos os dias morrem mulheres pobres por aborto clandestino, mas ‘bons cristãos’ continuam lutando pra impedir que o aborto seja legalizado, porque eles não podem engravidar, e portanto, não sabem o medo de não poder criar uma criança ou a solidão do abandono paterno em uma gravidez recém descoberta. Todos os dias, mulheres passam por violência obstétrica, e sequer podem falar sobre isso. E ninguém realmente se importa, nem mesmo aqueles que deveriam estar protegendo ou resolvendo essas situações. Tais violências, tampouco, sensibilizam a maioria. Porque até acontecer com você, você não tem ideia de como isso é. 

A crise de refugiados faz com que dezenas de mulheres sejam estupradas pelo caminho que traçam rumo a uma suposta nova vida, mas continuam expondo elas, os filhos e os maridos como monstros invasores terroristas. Crianças foram queimadas  na Nigéria, e diferente de mortes que acontecem no centro do mundo, ninguém lamentou, não houve velas, rezas ou lágrimas, apenas silêncio. Latifundiários jogaram agrotóxico sobre famílias indígenas inteiras, mas a mídia não soltou uma nota sequer sobre. Mas nós nem notamos ou procuramos entender o que está acontecendo, porque até acontecer com você, não vai fazer sentido.  

Nós só sentimos realmente, quando aquilo corta nossa própria pele e furam nossa bolha que tão cuidadosamente construímos. Mas também podemos sentir em solidariedade com o outro, antes que passemos por situações assim. E no mundo em que vivemos, estamos sujeitos a amanhã ser aquele que hoje debochamos da dor. Você não sabe o que é passar por aquilo, portanto, escolha a solidariedade, ao invés do julgamento, a amizade, ao invés do deboche. Procure ser um abrigo, ao invés de ser quem ajuda a expôr e tocar a ferida. Se você nunca passou por isso, não é seu direito dizer ‘seja mais forte’ , ‘levante a cabeça’, em tons de ordem sem olhar no fundo dos olhos de alguém e perceber que ela precisa mais de um abraço, do que de mais uma pessoa julgando sua dor.

Você não sabe como é. Então não culpe uma mulher pelo estupro que ela sofreu, não diga que ela provocou quando ouvir um caso sobre violência doméstica, não chame muçulmanos de terroristas. Você não passou pelo que essas pessoas passaram, não faz sentido pra você porque não fazes ideia do inferno que essas pessoas já passaram pra sobreviver. Você não sabe o medo, a fome, as lágrimas e a escuridão que várias das pessoas que você julga já passaram. Você não tem o direito de julgá-las, e até você saber o que essas pessoas realmente viveram, você não tem nada pra falar.

 

Nota:

O título e o texto são inspirado pela música “Till’ it happens to you” (‘até isso acontecer com você’) da cantora americana Lady Gaga que foi escrita em apoio as vítimas de violência sexual nos campi universitários dos Estados Unidos. A canção é parte da trilha do documentário que trata desse tema ‘The Hunting Ground’.

‘Minha Ansiedade tem Ansiedade’

O fim do mundo é todo dia da semana. Cada toque do relógio é um estalo de chicote relembrando a dor de segundos que escorrem pelos dedos enquanto a paralisia segue entre 4 paredes com um computador e um texto marcado e revisado pela vigésima vez.
O silêncio agride, a rejeição é aguda mesmo quando nem parece ser rejeição pra outrem. Ansiosos são de outro mundo, uma gota é um oceano, cada tropeço é uma queda. O amanhã é a sombra virando a esquina que te engole no presente e te envia pro passado. É o monstro marinho com quem você luta todos os dias.
Sentimos em exagero da tragédia ao amor mais intenso. Exagerada mas jamais jogadas aos pés. O mundo acaba e começa todo dia, mas as pessoas sequer tem consciência disso. A ansiedade tem ansiedade e ela te devora com olhos castanhos que anunciam tempestades.

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( em 01/07/2015 )

Como findam as Tardes

18:26 – Eu prendo meu cabelo numa boina preta pra evitar o vento frio e me apresso pra chegar no ponto do ônibus da Beira-Mar. Dois carros se buzinam onde tinha espaço pra ambos, os dois homens se xingam e seguem queimando pneus. O homem andando alguns passos atrás de mim saindo da academia comenta no telefone que está interessada na personal e conta que combinou de sair com ela, logo depois pede pra pessoa do outro lado da linha dizer que eles estavam juntos se a namorada dele perguntar alguma coisa. Ele dá uma risada cínica, eu suspiro indignada e ando mais rápido.
Por volta das 18:41, eu finalmente entro no ônibus. Mais um ônibus que passa pela rua que menos precisa deles. Vou admirando o mar sumindo com a noite, enquanto pessoas se esmagam ao meu redor pra caber no pouco espaço que restou. Uma mistura de cansaços e stress se lê no rosto das pessoas que te olham raivosas quando você derruba a bolsa sem querer no colo delas, e quem pode culpá-las? Quando finalmente chego no segundo terminal pra pegar o ônibus pra minha casa, descubro que ele está sem luz e que meu ônibus vai atrasar, e perco a pouca animação conquistada enquanto pensava feliz nas minhas pantufas quentinhas do canto do quarto.
Eu menstruei hoje. Estou com dor de cabeça, com cólicas e com o corpo dolorido. Me escondo dentro do meu casaco e me enrolo sobre a minha bolsa. De um lado uns moleques vestidos em moletons de colégios particulares caros da ilha fumam um cigarro baforando fumaça pros meus cachos limpos. Sob a meia luz eu os xingo baixo de quantos demônios existam. Do outro lado uma senhora reclama da espera. A menina do meu lado mexe no whatsapp e dá uma risadinha alegre com uma mensagem que recebeu. Eu tiro a boina e olho de novo o horário. 15 minutos de atraso.
Os mesmos moleques acendem mais um cigarro. O cheiro que a humanidade inventou para sua própria decadência me lembra que desde Da Vinci nós evoluímos muito pouco como seres humanos apesar das máquinas que criamos. Quando meu ônibus finalmente encosta as luzes acendem como se rissem da desgraça alheia. Os mesmos meninos entram no meu ônibus atropelando um senhor que os xinga enquanto eles mostram o dedo do meio. Isso me lembra Bukowski, mas a realidade é menos poética. No ônibus eu sento ao lado de um homem que insiste em puxar conversa enquanto sigo monossibálica. Eu levanto do banco quando ele tenta tocar meu cabelo e o mando pro inferno. É por isso que eu sou feminista, penso.
Um calafrio me percorre quando finalmente cruzo o portão da minha casa. Abrindo a porta do quarto eu olho minha caneca da Jane Austen e meus bilhetes pra mim mesma. Eu quero comer miojo mas ainda tenho que fazer almoço pra amanhã. São 19:43. E nesse mundo em que vendemos nosso tempo em troca de dinheiro, eu vejo que meu dia acabou e eu ainda tenho que ler Tocqueville.

A chuva e o infinito em mim

Mas hoje chove, dindi. Chove lá fora, e chove em mim. A tempestade que veio do horizonte e despontou sobre os meus cabelos desgrenhados disputava espaço com a tempestade que eu tenho carregado. Minha tempestade tem olhos oblíquos e dissimulados, como os olhos que tanto atormentaram Bentinho. São miúdos e observadores e por mais que eu fuja, me perseguem, me questionam e me trazem uma ansiedade, que por natureza, em mim, já é devastadora.
E troveja, dindi. Em mim goteja, e lá fora troveja. E eu que tenho medo de trovões me arrepio calada do lado de dentro sentada a luz de um abajur fosco refletindo sobre as multidões no espaço sideral. Se há mundos mais evoluídos, por que nasci neste? quando mais nada faz sentido eu fecho os olhos e penso na imensidão do universo. O que será aquela estrela que já não vejo atrás dessas nuvens negras? por onde andam cometas? os buracos negros que existem em mim conversam com o infinito em solidão e confidência.
Está tão escuro, dindi. E como dizia Renato, eu não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas. O dia foi cinza e triste. O mar que vive em meus olhos despejou-se sobre a terra em cânticos que ninguém tem paciência pra ouvir. As ondam quebraram em mim e seguem quebrando, os pedaços que arrastam eu vou tentando colar erroneamente com as mãos incertas. Tão incertas quanto o amanhã que amanhece sem respostas enquanto espero pelo próximo trem que me acenará adeus sob esse céu de estrelas cadentes.

( em 21/03/2015 )

Folhas borradas de chá

É uma noite fria e eu estou a flor da pele e desastrada. Eu já escrevi pra meio mundo, já sentei na varanda pra sentir o vento, já falei besteira e me virei do avesso. Mais desconcentrada que criança esperando intervalo, eu estou roendo as unhas esperando Morrisey levar pra longe os pensamentos quebrados que é Johnny Cash quem canta sobre.
Talvez sejam apenas doses cavalares de ansiedade, talvez apenas a incerteza de um amanhã incerto. A vida seria mais fácil se tivéssemos alguma certeza, se tivéssemos algo em que nos prender. Mas, tudo é tão fugaz. O tempo passa tão rápido. Vidas iniciam e acabam. Sagas findam. Primaveras vem e morrem com o amarelo do outono. Pessoas entram e saem da sua vida. Por vezes, por responsabilidade sua, por vezes, porque você já não é mais a pessoa que esperam que seja. Por vezes, porque é apenas a vida, dando um tapa na sua cara e dizendo ‘acorda’.
São muitos ‘talvez’ e ‘e se’ pra uma existência tão vaga como a minha. Chico diz que há quem tema mudanças, e há outros que temem que as coisas nunca mudem. Estou entre os dois lados. Eu sou desastrada e indecisa demais pra um lado só. Mas o tempo corre, bate na minha porta, quebra minhas janelas e grita: se apressa! porque eu não vou, mas ele vem aqui, invade meu terreno e joga meus pelegos no meu jardim, tão bagunçado, mas tão cheio de mim.
E foi desse lado em que eu plantei sorrisos com flores e mantenho folhas de chá. Acho que Plath, Bukowski e Dostoievsky me entendem melhor que a sociedade. Afinal, foi a literatura que me salvou da sanidade clichê que não deixa pessoas rirem ao tom que desejam. E que é melhor do que financiar trabalho escravo com compras inúteis e sorrisos plastificados. E enquanto eu escrevo telegramas pra mim mesma e escuto um Indie velho, vou escrevendo planos pra um futuro próximo em folhas borradas com um chá quente cujo vapor sussurra estórias que algum dia irei contar.

( em 01/12/2014 )

A figura dos olhos esbugalhados no meu sofá

Tem sido ela a companheira mais presente nesse ano: Ansiedade, você aqui de novo? que novidade. O tempo que come minhas horas aflitas e minhas leituras frequentes, me devora com uma intensidade assustadora pra alguém tão intensa quanto o próprio sentimento. Primeiro, eu sorrio. Depois, eu lamento como gato no porão. Coloco meus óculos quadrados e minhas leituras me aguardam na minha frente. Eu me mexo pela milésima vez na cadeira. Por que ela parece tão desconfortável agora? eu levanto, pego uma água gelada, olho da janela. Os carros na rua passam ligeiramente sem saber que do espaço das minhas paredes brancas a ansiedade me devora viva e faz minha concentração em pedaços.
Eu volto. Coloco um copo de água perto do computador, acho uma música confortável. A Ansiedade senta do meu lado com óculos redondos me analisando com um cigarro fedido e rindo da minha tentativa frustrada. Meu pulso acelera: tenho coisas demais pra fazer. Eu respiro fundo e encaro a tela, minha folha meia escrita me olha de volta em deboche mudo e em silenciosa decepção me questionando o que fazer agora. E o que é que eu faço agora? eu sei o que dizer, não sei como.
Ah, ansiedade, por que não me deixa em paz? o chá das cinco não me acalma, o telefone não toca. Eu checo meu e-mail vazio. Leio de novo o artigo. Tiro meus óculos. Suspiro de novo. Prendo meu cabelo. A ansiedade é uma sombra atrás de mim com o mesmo cheiro de cigarro horrível e de café mofado. Eu olho pra frente, coloco outra música, abro o messenger que não tem nenhuma mensagem pra mim. O silêncio por toda parte compete com a minha mente desértica que sabe o que escrever mas não escreve. Ansiedade que me consome como a sua figura bizarra ocupa o sofá do meu lado pelas tardes com olhos esbugalhados e ar sombrio. Eu a encaro de volta e fico aqui, remoendo poemas, leituras sobre o Irã e tardes intermináveis.

( em 20/10/2014 )