Uma sexta feira muito louca: reflexões sobre a política brasileira

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A política brasileira está longe de ser determinada pelos meros maniqueísmos que encontramos pela rede. A esquerda salvadora e a direita raivosa – ou vice versa – são representações esdrúxulas do que está acontecendo nos grandes salões de poder. Não se trata de uma única figura. Não se trata de demonizar e inquirir um único partido, como se o mesmo fosse a raiz dos problemas históricos que um país aristocrático, monopolista e dependente tem. Os problemas de um país como o Brasil não estão resumidos a piadas de fascistinhas ou a defesas cegas.
Primeiro, agora é o momento é de discutir os meios em que a prisão do ex-presidente Lula foi feita. A maneira arbitrária, coercitiva e bastante circense. A questão não é sobre a culpa dele ou não. A principal questão é que impuseram a ele um tratamento que homens com os mesmos crimes, tão ou maiores que os dele, não tiveram, nem teriam. Alguém foi bater na casa do Aécio Neves, apesar do seu avião cheio de cocaína? Na casa do FHC? O ex presidente ainda tem direitos que devem ser respeitados pra além de uma operação que investiga apenas um lado de jogo e tem egos inflados pela ignorância que lhe apoia.
Segundo, é momento do PT admitir que não resolveu de fato, nenhum dos problemas do Brasil. E é preciso virar a esquerda, dessa vez, de maneira profunda. Pois questões urgentes brasileiras ainda não foram resolvidas. Como a questão da terra no Brasil, uma vez não houve reforma agrária, e o governo fomentou os monopólios de terra com grandes investimentos ao agronegócio. Como não termos rompido com nossa modelo econômico de exportação de produtos primários, o que nos coloca em tempos difíceis com países centrais em recessão. Como o fato de que a maior parte do orçamento da união, vai pra Bancos. Não vai pro Bolsa família, nem pra PROUNI, nem pra universidades públicas – vai pros bancos. Não é por qualquer razão, que no meio da crise, Bradesco e Itaú tem lucros incríveis.
Terceiro, essa direita raivosa, que late como cachorro sarnento, não fez nada de útil pelo país em que vivem. A não ser que seus golpes militares, suas férias na Europa e as indicações do Titio político sejam algo válido. A direita Brasileira, desde Lima Barreto, é arrogante e eurocêntrica. Querem ser a Dinamarca mas sonegam impostos, não pagam direitos a seus funcionários, só apoiam políticos que lhes darão algo depois, não enxergam seus próprios privilégios em relação a maioria da população, e acreditam piamente, que o fato de terem estudado em colégios particulares a vida toda, se formado bem e ter uma casa confortável, foi mero esforço deles. O mito da meritocracia segue vivo nessas bocas que se esforçam pra derrubar partidos, mas não apresentam um plano político viável pro país em que vivem e cospem no povo que vive nele.
Os brados de ‘fora PT comunista’ ou ‘Viva Lula pai do povo’, não tocam em nada disso. Até porque, hoje, o projeto de país de ambos os lados segue igual, pois as mesmas pessoas bancam suas campanhas, as mesmas pessoas tem seus interesses representados, e esse circo armado de corrupção vai continuar se repetindo enquanto não rompermos com esse modelo elitista que nos comanda desde a época da Coroa.
Esses resumos rasos, que nos obrigam a escolher um lado, em um país que historicamente é dependente dos países centrais pra poder sustentar sua economia, e que segue comandado por uma Elite bem específica, não levarão nada adiante. E ajudam a afundar ainda mais uma democracia jovem, em que a maioria da população não tem acesso a educação política e é massivamente educado pelo Jornal Nacional. Eu não vou me esforçar pra defender Lula mas tenho nojo dos que comemoram a perseguição a ele. Ambos os lados estão pensando em si mesmos, e em nenhum momento no país em que vivem. Só que isso aqui não é um jogo de futebol. Nem uma série em que tudo acaba bem no final.

 

(escrito em: 04/03/2016)

TPM: o monstro incompreendido

Acusam tudo de ser TPM: Uma mulher irritada, estressada e de mau-humor só pode estar de TPM. Se ela tiver olheira, se o cabelo estiver ruim, se ela estiver com a cara fechada, só pode estar de TPM. No entanto, por mais que se fale dela, pouco se respeita. Como a maioria das questões femininas, a TPM é considerada frescura, apenas mais uma razão para que mulheres sejam humilhadas e rebaixadas a seres inconstantes e irracionais.
Mas TPM não é brincadeira. E aqui, falo por mim e por muitas mulheres que sofrem com isso. Nos xingam e nos desrespeitam, nos chamam de desequilibradas nesse período, mas não param um minuto pra entender. Acham TPM onde não tem e aí fazem piada. É piada interna de homem no boteco, é a piada entre amigos sobre a namorada enfezada do outro. Mal sabem eles os turbilhões que o corpo feminino passa por, e o quanto hormônios são pequenos seres infernais que nós ignoramos apesar da influência enorme que eles têm no nosso organismo.
Mal sabem eles que não é divertido pra nós mulheres nos sentirmos triste sem razão, chorarmos por razões desconhecidas e sentir uma irritação absurda em alguns momentos. Não é divertido. Eu não acho. Eu sou uma pessoa ansiosa e introvertida, não é fácil pra mim, assim como não acho que seja pra outras mulheres, sentir uma enxurrada de sentimentos, passando da solidão intensa a uma enorme braveza. Não é drama, como vocês, do auge da ignorância, adoram chamar. Não é frescura. O corpo passa por muita coisa e o emocional – olha só! – externa de alguma maneira.
Essa é uma sociedade em que homens podem gritar e sair furiosos com seus carros, que todos vão passar a mão na cabeça. Podem ficar bravíssimos com o resultado de um jogo de futebol que as pessoas vão entender. Uma mulher de TPM é razão de piada, humilhação e inferioridade. Nós somos mais do que TPM, mas ela, em muitas de nós existe e vai existir. Não é falta de esforço, de reação como nos dizem. Vocês, homens, não tem ideia do que é menstruar, do que é sentir cólicas infernais e uma TPM absurda. Então, cara sociedade, tentem entender e parem de zoar! Não é algo engraçado. Não é drama. É parte do nosso corpo, que pra variar, objetificam, mas não entendem, não conhecem e não respeitam.

( em 16/07/2015 )

O Feminismo atual e suas limitações

O Feminismo de hoje defende mais os homens do que as mulheres. Briga pra que homens possam usar salto, mas não faz grandes discussões sobre a situação das mulheres nas penitenciárias. Briga pra dar voz aos homens no movimento, ao invés de defender aquela desconhecida chamada de Baranga pelo amigo. Briga pra dar voz a problemas individuais, esquecendo que opressão não é só o que te atinge e muito menos sobre escolhas, assim, simplesmente.
Esse Feminismo liberal de quinta, não me representa. Porque ele esqueceu as mulheres que nasceram e foram CRIADAS sob um estereótipo feminino misógino, esqueceu as mulheres negras, esqueceu as mulheres pobres. Esqueceu as mulheres que morrem, pra dar protagonismo pra macho que quer se fantasiar de mulher, pra mulher branca e rica.
Homens não precisam de espaço no feminismo: eles precisam pegar todos os espaços que já tem na sociedade e fazê-los feministas. Porque não adianta ser feministo no discurso, mas na prática ter relacionamentos abusivos, em que trai sem pensar na outra pessoa e acha isso normal, que discrimina mulheres pelo tipo físico, que acha que a inclusão de mulheres prejudicou movimentos sociais. Feminismo é sobre quebrar as correntes e desconstruir o machismo diariamente. Não é olhar pra uma mulher questionando seu comportamento e dizer que ela é radical demais. Até Porque, todas deveriam ser radicais demais pro sistema de merda que está aí.
Ser feminista exige mais do que retórica e teoria de nomes espalhafatosos de escritores do centro do mundo. E enquanto nós brigamos pra dizer que não, não odiamos homens; não, não quero cortar sua liberdade individual; mulheres são estupradas, mortas, vendidas no mercado negro, trabalham horas pra ganhar menos que um homem que não faz metade do que ela faz, apanham do marido e não tem pra onde ir, são abandonadas na depressão. Isso é uma sociedade misógina e homens não experimentam misoginia, sofrem com machismo sim, mas por favor, não comparem isso com o que uma mulher vive de machismo na vida dela. Feminismo e ser feminista é pensar pra além do indivíduo, é pensar o coletivo. E o feminismo de hoje, liberal, individualista e acadêmico, comprado pela Vogue e por marcas de maquiagem pra vender pra alguns e algumas a fantasia do que é ser mulher, não serve pra merda nenhuma, só atrasa e destrói décadas de luta.
É preciso mais do que isso, e é preciso voltar o olhar pras mulheres que precisam, pra realidade feminina a ser mudada. É preciso um feminismo não-hegemônico, que pense a realidade subdesenvolvida em que vivemos e a violência sistêmica que existe.

( em 11/08/2015 )