As Caça-Fantasmas 2016: Os Homens não tem medo de Fantasmas, eles têm medo de Mulheres

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILER

Em julho deste ano estreava nos cinemas brasileiros o novo caça-fantasmas (Ghostbusters, no original), um remake – bastante feminista – do original de 1984 protagonizado por um dos reis da comédia do século passado, Bill Murray. O filme chamou a atenção (e a polêmica) ao escolher quatro mulheres para protagonizá-lo e causou revolta nos fãs masculinos. Movimentos masculinistas em diversos países chamaram boicotes para o filme. Mesmo antes do lançamento, esses movimentos se organizaram para abaixar a nota do filme no IMDB. No Brasil, pelas redes sociais, podíamos ler as reclamações e os memes acerca do remake estar destruindo a infância dos homens fãs do filme original.

Dirigido por Paul Peig, produzido por Amy Pascal e Ivan Reitman, o novo caça-fantasmas teve como Protagonistas as maravilhosas Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Leslie Jones e Kate McKinnon, como as físicas Abby e Erin, a engenheira Holtzman, e a profunda conhecedora de Nova York Patty, respectivamente. O filme foi além das expectativas e trouxe para as telas um debate feminista atual poderoso, com comédia, representatividade e sororidade. O roteiro incluiu de propósito os xingamentos da internet que as atrizes receberam pra mostrar o que mulheres ouvem quando ousam fugir do clichê patriarcal.

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( Da esquerda para a direita: Leslie Jones, Melissa McCarthy, Kristen Wiig e Kate McKinnon)

E os comentários masculinos revelam: os homens não tem mais medo de fantasmas – eles têm medo de mulheres. E não entendem o que representatividade significa para mulheres. Eles não foram criados sendo retratados como bonecas de plástico sexualizadas, tolas e sem personalidade. Ninguém os fez acreditar que eles não eram capazes de coisa alguma. Eles criaram cercados de vídeos games com personagens masculinos fortes e heróis que eles pudessem imitar. Os homens de direita acham desnecessário ver mulheres retratadas dessa forma porque acham que mulheres são naturalmente submissas. Homens de esquerda acham desnecessário e apenas mais um produto pra consumir. Mas eles nunca foram meninas e questionaram suas mães ou pais por que não existiam mulheres negras em papéis pra além de faxineiras, ou porque todas as mulheres pareciam tolas demais pra ser reais. Essa indústria continua existindo. E se ainda não podemos derrubá-la, que ela seja ocupada até o dia em que possamos destruí-la e construí-la sob nossos termos.

 

  • O não reconhecimento do trabalho feminino: who you gonna call? 

 A primeira questão que o filme traz é a problemática acerca da marginalização do trabalho feminino e seu não reconhecimento. Erin é uma física brilhante que trabalha e estuda há anos e precisa de cartas e mais cartas de recomendação para assumir uma cadeira na universidade em que trabalha. Em certo ponto, seu chefe comenta sobre sua roupa, considerada ‘brega’, e ela teme cometer qualquer deslize que possa servir para seus colegas tratarem seu trabalho como inferior. Abby trabalha em uma universidade, junto com a engenheira Holtzman, sem recursos e onde sequer sabem que ela existe apesar das suas pesquisas e invenções. Patty trabalha no metrô mas apesar de trabalhar ali, ela é uma profunda conhecedora de toda a cidade de Nova York e sua história.

Quando elas se reúnem para caçar o mal que está atormentando Nova York elas são desmerecidas enquanto pesquisadoras e engenheiras, e tratadas como histéricas. Nenhuma delas tem seu trabalho valorizado, apesar dos anos de dedicação. A TV as trata como loucas buscando atenção – algo que a TV faz frequentemente com mulheres. Erin é demitida do trabalho assim que um vídeo seu com um fantasma aparece para seu chefe, tendo anos de trabalho e pesquisa desacreditados e dispensados por um vídeo. Abby é expulsa do seu local de trabalho quando pede orçamento para a pesquisa que realiza. E muito embora elas sejam as únicas capazes de lidar com os fantasmas invadindo a cidade, elas continuam sendo vistas apenas como esquisitonas.

Quase parece ficção, mas é apenas a realidade. Mulheres sofrem com isso de maneira sistemática em todo o mundo. No Brasil, mulheres recebem acerca de 25% a menos que os homens para realizar as mesmas funções(1). De acordo com a Organização Internacional do trabalho, a igualdade salarial entre homens e mulheres no mundo deve levar mais de 70 anos para se tornar realidade (2). A marginalização do trabalho feminino se dá de maneira sistemática historicamente. Desde o início da era do capital o trabalho feminino é colocado como mais barato e desqualificado, o que além de tornar baixo o salário feminino e invalidá-lo socialmente, também diminui os salários masculinos. Essa estratégia de mercado é mantida inclusive nos dias atuais.

Embora as mulheres tenham saído de suas casas para trabalhar há quase 50 anos, o trabalho feminino não é valorizado na sociedade em que vivemos. Ele ainda é visto como inferior quando não envolvem funções entendidas – de maneira estereotipada – como femininas. Esse estigma de que mulheres servem apenas para serviços domésticos, está longe de ser superado, mesmo quando já somos a maioria nas universidades. Nas áreas exatas, que é a área das protagonistas do filme, ainda é chavão popular dizer: “mulheres não entendem nada de matemática” ou que não sabem calcular. Dentro do mercado de trabalho, apesar de nossas qualificações, ainda nos é exigido padrões de feminilidade como requisito (maquiagem, saltos), os assédios sexuais contra mulheres em seus ambientes de trabalho são frequentes. Apenas no Brasil, mais de 52% das mulheres já afirmaram ter sofrido assédio sexual (3). Um índice que revela que embora mulheres estejam a ocupar esses espaços, elas ainda são preteridas no mesmo e estão longe de ocupá-los de maneira real.

Um conceito desenvolvido no fim dos anos 70 fala que há um ‘teto de vidro’ (4) na carreira de mulheres. A discussão do “teto de vidro” vai dizer que indiferente do desenvolvimento de suas carreiras, acúmulos de experiências e estudos, há um limite que mulheres alcançam e de onde não avançam em suas carreiras. Especialmente para mulheres negras. Essa lógica continua presente mesmo em 2016: no ensino superior, por exemplo, mulheres são apenas 37% dos professores (5), nas áreas tecnológicas, mulheres são apenas 18% dos profissionais (6).

Ao trazer esse assunto a tona, as Caça-fantasmas trazem a crítica a esses estereótipos acerca do trabalho feminino. Holtzman é uma engenheira brilhante, e mesmo assim é vista apenas como a “diferentona”. Abby e Erin tem seus trabalhos desvalorizados por homens ao longo do filme todo. Seus avisos sobre o que está acontecendo na cidade são tratados como maluquice. Mas são elas que, unidas, vão salvar Nova York da destruição. São as armas que elas criam que são capazes de destruir o mal e seus estudos que resolvem os casos. Isso revela que o trabalho feminino tem muito a mostrar mas não tem espaço. Mulheres podem estar – e estão, só jogar no Google e ver – desenvolvendo pesquisas capazes de ajudar o mundo, enquanto são menosprezadas pelos meios em que atuam. Há muita coisa pra mudar. Expor esse problema é um primeiro passo.

 

  • Kevin e o estereótipo feminino invertido: a objetificação feminina no cinema

A objetificação feminina é um problema que tem sido há muito tempo criticado no cinema. Na maioria dos filmes comerciais, as mulheres não interagem entre si a não ser falando de homens e fazem mais cenas de nudez. A maioria dos filmes tem poucas mulheres seja atuando ou dirigindo, e dificilmente as retrata como algo além de estereótipos superficiais que estão ali para satisfazer os fetiches masculinos ou seus sonhos de perfeição. Geena Davis (7) disse em entrevista que é preciso melhorar a qualidade e a quantidade de mulheres no cinema. Ela declarou que a indústria continua reproduzindo os mesmos estereótipos, e ainda há poucos espaços de uma real representação feminina sendo construída. Os estereótipos femininos estão principalmente ligados a beleza e a comportamento. Mulheres são rotineiramente hipersexualizadas, com a exposição constante de seus corpos, e retratadas como incapazes. Filmes como American Pie, franquia de sucesso no Brasil, são um bom exemplo.

O personagem Kevin, interpretado por Chris Hemsworth, evidenciou esse estereótipo feminino mas ao contrário, aplicado a um homem. Essa troca de papeis evidenciou o ridículo dos papéis cinematográficos estúpidos e sexualizados. Kevin é um rapaz lindo que não sabe sequer atender um telefone. Ele constantemente se preocupa com sua aparência, e no final enquanto as mulheres salvam o mundo, ele se preocupava em encontrar um lanche. Coisas assim soam patéticas, não? Mas são esses personagens que são dados para mulheres no cinema. De acordo com a ativista Belsky  “as mulheres são frequentemente retratadas sob um prisma masculino, em que mulheres estão ali apenas para serem objetos passivos dos desejos masculinos” (8). É o conhecido papel da loira burra que está ali para a câmera focar no movimento dos seus quadris, na sua bunda ou lábios.

Em papéis como este que Chris Hemsworth atuou como Kevin, e que são majoritariamente feitos por mulheres, a mulher é objetificada e removida de sua humanidade. Isso faz que quem assista não se sinta próximo da personagem, e ela seja apenas um objeto e não alguém que mereça sua atenção real, como o herói masculino, ‘detentor da sabedoria e da força’. Ao criarmos esses estereótipos, estamos criando a ideia de que mulheres são objetos, cujos corpos são fáceis e públicos. E essa desumanização feminina no cinema e na mídia não é problemática, por questões morais, como a nudez. Ela é problemática porque ela tira de mulheres a possibilidade de serem vistas como mais do que objetos, e é reproduzida em uma sociedade que hipersexualiza meninas e estupra mulheres. Essa desumanização feminina acontece cotidianamente e podemos vê-la presente na cultura do estupro, por exemplo, ou nos índices de violência contra mulheres. É onde percebemos que mulheres não são entendidas como seres humanos, mas como seres que podem estar sujeitas a qualquer coisa. Essas construções midiáticas firmam esse papel feminino e anulam a mulher enquanto sujeito na sociedade.

Expor ao ridículo, através da comédia, o estereótipo é importante para colocá-lo em xeque. Kevin irritou muitos homens. Mas quantos deles se irritam ao verem as mulheres que são as maiorias dos Kevins do cinema vendidos nas salas dos Shoppings? Na sociedade patriarcal objetificação feminina vende de maneira fácil, e problematizá-la no espaço cinematográfico coloca essa narrativa sobre mulheres em disputa.

 

  • Fantasmas? Eles têm medo de mulheres: a importância da representatividade feminina

 

A priori é preciso dizer que o conceito de representatividade é limitado considerando o mundo em que vivemos.     Não é o suficiente que apenas estejamos representadas visualmente enquanto não existem condições reais de escolher quem podemos ser. Mas a disputa do imaginário é importante. Desde sempre estamos sendo representadas como apenas um corpo, e na mesma linha, estão ensinando os homens que não somos nada além de um corpo. Embora saibamos que essa indústria nos é nociva e que na mesma mão em que pode produzir materiais interessantes, produz materiais que produzem e reproduzem estereótipos ao resto do mundo e para mulheres, ela existe – e disputar esse espaço e essas narrativas dentro dessa indústria cinematográfica é importante.

O novo caça-fantasmas têm quatro protagonistas mulheres. A princípio, para muitas pessoas, isso não significa muito. Para homens, isso não significa muito. Tanto é que homens convocaram boicotes ao filme e atacaram as atrizes pela internet. Mas para mulheres, e especialmente meninas, isso significa tudo. A minha geração que praticamente não teve muitos filmes protagonizados por mulheres em que elas não estivessem envolvidas em torno de homens ou que não terminassem em casamentos ou romances. Crescer com isso te faz acreditar, de fato, que você não é ninguém sem um homem, que nem humana você é, se não for feminina. E esses estereótipos continuam a perseguir mulheres até hoje. As caça-fantasmas pisou em cima desses estereótipos com botas militares.

E é preciso pisar nesses estereótipos porque nós não somos as donas de casas perfeitas, e nem estamos constantemente preocupadas com a maquiagem cara ou um marido. Nós somos – e queremos ser –mais que isso. E queremos que meninas possam ver que elas podem ser mais do que os estereótipos patéticos de fragilidade, feminilidade, branquitude e magreza que são impostos às mulheres. De acordo com a teórica feminista de cinema, Laura Mulvey (1977), a mulher existe na cultura patriarcal como o significante do outro masculino, presa por uma ordem simbólica na qual o homem pode exprimir suas fantasias e obsessões através do comando linguístico, impondo-as sobre a imagem silenciosa da mulher, ainda presa a seu lugar como portadora de significado e não produtora de significado. Trazer novos significados e disputar as narrativas no universo da linguagem e dos símbolos dentro de uma mídia poderosa e gigante como o cinema permite resignificar os papéis existentes para mulheres, o que faz com que mulheres possam vir a ser representadas, e assim, entendidas, de uma maneira menos frívola e superficial.

E essa representatividade é importante(9). Porque é preciso que mulheres possam se ver para além dos estereótipos vendidos. É preciso que nos identifiquemos com personagens reais que mostrem parte da nossa vida e da nossa existência enquanto mulheres. É preciso que meninas possam ter ideias diferentes, para além de beleza e sexualidade, do que é ser mulher nessa sociedade. Como em as caça-fantasmas, também podemos salvar o mundo. E é preciso mostrar isso pra meninas se queremos mulheres que façam isso. Meninas negras vão olhar a personagem de Leslie Jones e pensar que como Patty, também podem salvar o mundo. Meninas gordas vão olhar a Abby de Melissa McCarty e saber que também são capazes de grandes feitos, e que seus corpos não a impedirão disso. Saberemos com a personagem de Wiig, Erin, que envelhecer não nos diminui, nem nos torna incapazes. E podemos enxergar na Holtzman que ser diferente não é um problema.

Portanto, não é qualquer representatividade que merece ser aplaudida. Existem mulheres protagonistas? Sim. Mas é uma representatividade falsa quando elas são apenas personagens fetichizadas e com um ideal de beleza determinado. Quando discutimos representatividade, falamos da pluralidade de personagens e de realidades – negras, gordas, LGBT. Estamos falando de algo que represente mulheres para além da hiperssexualização a qual a maioria das personagens está sujeita e dos estereótipos de beleza que ferem mulheres ao redor do mundo. E é preciso tirar as mulheres das narrativas em que elas estão ligadas a aspectos estereotipados de feminilidade e a algum elemento ou personagem masculino. E fazer isso, é dar uma humanidade consistente para as personagens femininas, e torná-las reais de fato. E é isso que há de importante – e incrível – nas personagens das caça-fantasmas. O fato de que elas existem e atuam em uma narrativa muito além de qualquer coisa que envolva homens ou do desejo por algo relacionado a esses elementos, e que estão longe da feminilidade cheia de estereótipos das narrativas tradicionais do cinema.

Além disso, é também não aceitar a representatividade como uma esmola que recebemos enquanto todo o resto da estrutura patriarcal, que mantém e reforça esses papéis estabelecidos em toda a sociedade, continua estabelecido. Tomar consciência acerca da realidade em que essa representatividade é também importante pra saber reconhecer nela o que precisamos, e o que não precisamos. Não adianta que estejamos representadas em todos os lugares, enquanto continuamos morrendo em abortos inseguros ou sem direitos. A representatividade é importante justamente pra nos fazer refletir sobre a realidade que precisamos mudar e o que queremos buscar na mesma. Ela não serve apenas como um reflexo – ela é parte de uma tomada de consciência sobre aquilo que podemos ser e fazer, e daí a importância de se representar mulheres capazes de coisas além dos estereótipos femininos.

 

6) I ain’t afraid of no Ghosts: a lição da Sororidade

Mulheres são perseguidas pelos fantasmas que a sociedade cria para atormentar mulheres por toda a sua vida. As caça-fantasmas de muitas maneiras os combatem seriamente. Vemos constantemente no cinema mulheres cujos atributos são físicos e nos ensinam a crer nisso. O cinema poucas vezes retratou a inteligência de uma mulher sem torná-la frígida ou mulheres competentes sem torná-las mesquinhas. Não retrata mulheres negras ou gordas. E retratou mulheres de maneira mesquinha não nos deixando perceber a força que temos enquanto mulheres unidas. Ocupar essa temática e colocar mulheres pra falar de física enquanto constroem equipamentos capazes de salvar o mundo, é nos dar um espaço que até então nos era negado, e que aos poucos é e precisa ser ocupado.

E será juntas que faremos isso. Um dos aspectos marcantes do filme é a lição de sororidade que as personagens principais trazem às telas. Sororidade quer dizer irmandade e união feminina. As quatro personagens se unem, se protegem e salvam uma a outra, e não se abandonam nem no momento mais perigoso. Em um cinema que por décadas retratou a relação entre mulheres baseadas na competividade e criou a ideia de que mulheres estão sempre disputando algo entre si, é importante retratar essa união feminina que se ajuda e luta junta. O cinema raramente retratou a amizade feminina duradoura e verdadeira, e sempre coloca mulheres umas contra as outras em busca do homem ideal. Ter um filme que coloca em ênfase a união entre quatro mulheres, seu apoio mútuo e sua amizade, é criar uma nova perspectiva cinematográfica em um cinema machista em que mulheres são apenas objetos, e permite resignificar as personagens femininas. É ocupar pra dizer: nós existimos e resistimos – juntas.

Mas ocupar esse espaço rende polêmica e gera ataques daqueles que não querem perdê-lo. E de muitas maneiras, ao dar para mulheres essa voz ainda que pequena em Hollywood, este tocou em algo sagrado da indústria: o ego masculino exaltado na maioria das produções hollywoodianas. A grande mídia e o cinema, acostumou os homens a se verem representados em todos os filmes, e quando não representados, a terem mulheres enquanto objetos para que possam consumir. Mas não dessa vez. O elenco escolhido passou longe do clichê: as quatro mulheres estão longe dos estereótipos do cinema. E de fato, o filme não foi feito pra eles. O filme foi para meninas descobrirem empolgadas que elas podem ser o que quiserem. Foi um filme sobre mulheres. Sobre nossa luta pra sermos reconhecidas enquanto profissionais, sobre estereótipos de cinema. O egoísmo masculino não resume, mas explicita como ainda é pequeno o espaço que ocupamos e quantos fantasmas teremos que combater. Homens se sentem ofendidos ao não serem o foco dos filmes, pois eles sempre são e sempre foram. Quando não exaltam sua masculinidade, criam mulheres fetiches. Se isso é ruim para os homens? sim, a masculinidade violenta da sociedade em que vivemos é um problema atual. Mas é um problema ainda maior para as mulheres: quando não somo objetos nas telas, o somos na vida real. Vale lembrar que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, e isso não está desconectado daquilo que assistimos no cinema que desumaniza mulheres. Tirar os fantasmas misóginos é abrir caminho para novas perspectivas.

Os homens perderam o medo de fantasmas, mas não perderam o medo das mulheres, especialmente daqueles que disputam os espaços com eles. Mulheres nunca tiveram o direito de ter medo de nada, se nas telas não nos mostravam lutando pra sobreviver, para além delas nós o fazemos sempre. Não temos medo de fantasmas, homens são mais perigosos, mas lutamos até contra a ordem misógina que nos impõem. E estamos avançando de macacões cinzas ou cabelos raspados destruindo os fantasmas que deixaram no nosso caminho para nos assombrar, e estamos a adentrar em todos os espaços que nos foi negado anteriormente.

Vamos começar pelo cinema.

 

Nota: Os trechos em Inglês dos subtítulos são trechos da canção tema do filme, Ghostbusters interpretada por Ray Parker Jr.

Referências:

1)http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2016/06/17/internas_economia,773985/mulheres-receberam-salario-25-menor-do-que-os-homens-em-2014.shtml

2) http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2016/06/17/internas_economia,773985/mulheres-receberam-salario-25-menor-do-que-os-homens-em-2014.shtml

3)http://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2013/03/08/52-das-mulheres-ja-sofreram-assedio-no-trabalho-falta-de-provas-dificulta-condenacoes.htm

4) Teto de vidro é um debate surgido nos anos 70 que questiona e estuda os limites que as carreiras das mulheres alcançam apenas por elas serem mulheres, apesar de suas qualificações e experiências.

5)http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/maioria-no-ensino-superior-mas-longe-dos-cargos-de-chefia/n1597400100786.html

6 )http://www.confea.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=15417&sid=10

7) http://www.revistaforum.com.br/2013/07/17/e-preciso-melhorar-a-quantidade-e-a-qualidade-de-personagens-femininos/

 

 

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Cinema: a Mulher no novo Mad Max de George Miller

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Charlize Theron como Furiosa no novo Mad Max de George Miller.

Os homens no cinema pareciam chutados nas bolas e saíram resmungando “até parece que mulher é capaz dessas coisas”. Até entendo. Deve ser difícil crescer achando que mulher é frágil e que vai precisar de você pra ensinar a ela alguma coisa, e de repente, elas são mais fortes, mais unidas e leram mais do que você. Deve ser cruel crescer se gabando do próprio sexo e descobrir que não passa de um imbecil machista que não sabe que a namorada/mulher pode ter orgasmos múltiplos – e sem o seu falo não-tao-magico-assim. Furiosa está ali mostrando que ela não precisa de um homem pra conseguir seus objetivos, que ela vai lutar até o fim – por e com outras mulheres.
Deve ser triste pros homens acreditar que são o centro do universo por ter um pênis e alguém como Miller jogar na cara deles que eles não são. Esse é um mundo onde cada vez mais mulheres lutam pelo seu espaço próprio enquanto a maioria dos homens no auge do machismo acham que mulher não entende de politica ou sociedade, acha que não precisa porque já tem igualdade o bastante. Mas nos domingos na casa da mamãe, você senta pra ver TV depois do almoço e é a mãe, a irmã e a mulher que vão lavar a louça, afinal você trabalhou a semana toda e não interessa se elas também. E se alguma reclama, ela é histérica. Imagina! E o meu futebol como vou ver? E assim a semana segue em que mulheres enfrentam tripla jornada, enquanto seus patrões e seus maridos a exploram.
Furiosa e sua máquina de guerra é como nós mulheres nos sentimos nesse mundo. Com homens tentando nos cercar, nos privar de liberdade e nos colocar nas regras que eles criaram. Acham que somos deles. Mulher é propriedade do marido, do namorado, de qualquer um que diga ‘minha’. Mas não somos! o grito delas de “NÃO SOMOS OBJETOS” é o que muitas de nós gritamos todos os dias no ônibus, quando cansadas voltando do trabalho passamos medo dos homens ali, quando caminhando até um mercado nos sentimos inseguras porque algum sujeito achou legal te dizer alguma cantada idiota nesse mundo de ‘Mcbanquete’. Nós somos aquelas mulheres que mesmo mães temos que lutar pra viver, mesmo cansadas lutamos por nosso espaço enquanto tantos acham que ser mulher é privilégio quando na verdade o que sentimos e vivemos é opressão.
E nós, como elas, não vamos voltar pra cidadela que nos prendeu e humilhou. Uma vez libertas, nos levantamos contra a opressão feita contra nós e contra toda e qualquer opressão. Voltamos pra revolucionar cidadela. Como seguimos pra revolucionar esse mundo e chutar as bolas machistas que escutam rock enquanto oprimem todos em seu caminho.
Um tiro, um homem: Mulheres são metralhadoras.

( em 31/05/2015 )

Frases de Cinema

” A maioria das pessoas está satisfeita vivendo em seus mundinhos. Estão agarrados à borda da privada, tentando manter a cabeça fora da água, esperando que não apareça nenhum idiota para dar a descarga. Só quando ouvem o som da descarga, e começam a cair no abismo, é que começam a pensar. ”

Do filme “Shadows in the Sun” ( Brad Mirman, 2005)