O arquétipo da Virgem Maria no movimento feminista: o que esperam das mulheres?

Virgin

Uma das maiores figuras femininas do ocidente é Maria, mãe de Jesus. A figura bíblica da mulher pura, submissa e acolhedora é o modelo central de mulher para a sociedade ocidental. Especialmente na América Latina, roubada de suas origens e jogada pra um catolicismo fervoroso. Maria é a mãe e mulher ideal. Pura, doce, submissa, com uma fé sem limites, sempre disposta sacrificar-se por outrem. Assim, ela é escolhida por Deus para trazer o redentor ao mundo. Ela tudo entende, todos acolhe e é símbolo de pureza e doçura. Submissa as vontades de pai, confia a Deus, o supremo masculino na ideia ocidental, todas as suas vontades e devota sua vida a cuidar de outrem. Não vemos Maria, como uma simples mulher, vemos Maria, aquela que de sublime entrega e sorriso dócil, mulher responsável por criar o filho de Deus e encaminhá-lo pelo caminho certo.

Esse estigma da virgem Maria paira sobre a cabeça de todas as mulheres no Ocidente cristão. Somos socializadas para sermos Maria. Desde o rosa em que nos vestem ainda bebês, as responsabilidades enquanto meninas pra algum dia cuidarmos da casa e de alguém, as boas maneiras de simpatia, meiguice e doçura que nos exigem. Devemos ser o coluna resistente que não exige gratidão, mas tudo faz em silêncio e entrega, como a bíblia pede das mulheres. Devemos ser silenciosas, meigas, submissas, seguir nossos pais, futuramente nossos maridos, devemos ensinar nossos filhos o bom caminho, e se este sair dele, a culpa é nossa. A mãe não foi boa o bastante. Devemos estar sempre dispostas a interceder pelos outros, a redimi-los dos seus pecados. Desde pequenas ensinam meninas a falar baixo, a comportar-se em diligência, em dirigir sua fé a grandes santos e não questionar as vozes de homens santos que falam sobre outras três figuras masculinas centrais na fé cristã: a santíssima trindade. Pois, eles são a verdadeira libertação, Maria é apenas a auxiliar. Eles são o centro, Maria é a figura ao lado, de cabeça baixa e braços abertos a receber aqueles que dela precisarem.

Há muito tempo o movimento feminista busca livrar-se dos estereótipos de gênero sustentados pela figura caricata que nos é imposta desde ao nascer, especialmente em uma sociedade cristã. E como mulheres nessa sociedade somos transpassadas e socializadas desde sempre pra sermos a virgem Maria – temos que entender a todos, acolher a todos. E é isso que esperam de nós enquanto mulheres. E é, também com isso, que o movimento feminista tem sido usado como ponto de encontro de todos, enquanto perdemos o foco das reais necessidades que como mulheres precisamos debater.

Muito pouco se tem falado dentro do movimento feminista de questões como: maternidade compulsória, violência obstétrica, lesbofobia, trabalho reprodutivo, tráfico de mulheres, capacitismo, racismo, estupro contra mulheres como arma de guerra, inclusão de mulheres mães nas universidades. Logo no início de fevereiro chegaram notícias dizendo que soldados da missão da ONU estupraram meninas e mulheres. Uma menina de 7 anos relatou que fez sexo oral em um dos soldados em troca de água, outra de 14, em troca de um prato de comida¹. Alguma discussão sobre isso nas redes sociais discutindo a vulnerabilidade de meninas em áreas de guerra? Não, um grande silêncio. Matéria recente divulgado pelo jornal O Globo revela que a cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil, e esse dado provém apenas das denúncias realizadaS no telefone 180, o que significa dizer que é um dado ínfimo considerando a numerosidade de casos não denunciados². Eu postei em grupos feministas essa notícia, e em todos, ela não rendeu mais do que três curtidas.

Como as bruxas na inquisição, estamos sendo engolidas pela Virgem Maria Intercessora. De nenhum outro movimento, se exige a recepção doce e acolhedora que pedem do movimento feminista. Por que? Porque é de mulheres que esperam o acolhimento. E eles foram ensinados a esperar isso das mulheres.  E assim, entendem que como movimento feminista, temos que entender e acolher todos: Homens que querem desconstruir sua masculinidade, homens de esquerda, homens não-bináries, drag queens, etc, etc. A lista é longa. O feminismo atual que se espalha pelas redes tem discutido a imensidade de gêneros que criaram pra definir pessoas – gênero fluído, neutro, ou o que vier. Tem discutido questões de sexualidade, com ainda mais denominações purpurinadas. Tem tentado ser fofo com todo mundo. Discutido questões que, de fato, não mudarão nada na vida das mulheres. Tem que ser muito inocente pra achar que muitos nomes estranhos vão mudar alguma coisa na realidade de mulheres que trabalham das 5h da manhã a noite, fora e dentro de casa, exploradas num sistema capitalista. E essa é a realidade da maioria das mulheres, em pleno 2016 em toda a América Latina. É só olhar além do próprio umbigo e ler os dados divulgados. Alguns desses nomes está aí pra discutir acesso a educação? casamento infantil? reforma agrária? Auditoria da dívida pública? Não, não está. Partir do individual é ótimo quando você não quer tornar isso uma regra pro resto do mundo e silenciar lutas e resistências históricas, a partir dessa sua própria perspectiva. Infelizmente, essa regra básica, esqueceram de avisar pra galera que se acha oprimido porque tem cabelo colorido e unha pintada.

E de repente, apesar de lutas por tantos anos, nos querem caladas: capitalismo, patriarcado, universidade, teorias modernosas. Machos falocêntricos. Querem que sejamos, novamente, a Virgem Maria de braços abertos que jamais luta por si mesma, mas sim, que intercede e luta por outros ignorando as dores que, por ventura, sofra. É aquela que se curva diante de outros e luta por eles, pelas dores deles, pela redenção deles. Como mulheres e movimento feminista somos condenadas a mesma sina porque fomos ensinadas desde meninas a aceitar que devemos tomar conta de todos num chamado ‘instinto maternal’. Portanto, acabamos por ser a Virgem Maria que quer salvar a todos. O protagonismo, assim como na igreja, vão para outrem pois pertence, historicamente a eles. Aos homens. Aos falos. A qualquer um, menos mulheres. E menos ainda, vaginas. Nós somos a coluna que deve sustentar e apoiar, mas que não exige gratidão, nem exige ser vista.

Isso é o que o patriarcado exige do feminismo, não o que o feminismo deveria ser. A luta feminista deveria ser pelas mulheres negras que ganham menos que 40% do que o resto das mulheres, é pelas minas da área rural expulsas pra cidade porque o latifúndio roubou sua terra, pelas mulheres sem teto, pelas mães solteiras abandonadas pelos parceiros e pela família, pelas mulheres indígenas que estão lutando pelas suas terras e pela sua própria vida contra os grandes fazendeiros em todo o país. O feminismo deveria ser pelas mulheres equatorianas resistindo a mineração, pelas mães da praça de maio na Argentina, pelas meninas do Sudão abusadas por todos os soldados que estão no território de seu país, pelas mulheres sírias estupradas pra poder entrar na Europa em busca de uma vida melhor, pelas mulheres curdas que se uniram em um exército pra lutar contra o ISIS. A luta feminista é pra tirar mulheres das estatísticas de miséria, estupro, pedofilia, violência doméstica, casamento infantil, infanticídio. O Feminismo é pra revolucionar o mundo para mulheres. Pois este é um mundo em que colocam ‘Matou por amor’ pra falar de feminicídio. ‘Relacão Amorosa’ é como chamam estupro de vulnerável. ‘Amor não tem idade’ é como mascaram pedofilia. O feminismo é pra salvar mulheres da posição em que a sociedade patriarcal as colocou, não para ajudar a mascarar essa mesma hierarquia com nomes bonitos, pôneis coloridos e purpurina.

Essa misoginia mascarada de avanço não irá nos libertar. Ela apenas nos empurra novamente para o papel de mães que tem que entender a todos em sorriso doce (e bem maquiada, óbvio). Novamente, somos engolidas pela Virgem Maria que há em nós e que forçam a continuar existindo pra que nossa compreensão e doçura seja maior que nossa vontade de resistir e brigar por nossas pautas. E claro, as que resistem a inquisição, são perseguidas, expulsas, silenciadas e humilhadas. São as excludentes. São as egoístas. E principalmente, somos egoístas porque queremos que gênero deixe de existir, ao invés de criar outras mil caixas pra definir e falar do mesmo, sendo que essas tantas novas definições não mudarão a vida das mulheres que são 80% das pessoas traficadas para escravidão sexual ao redor do mundo,  nem vai acabar com o índice nacional divulgado pelo IPEA de que 92% dos estupradores tem pênis, e 80% das pessoas estupradas tem vagina e tem menos de 14 anos³.

Mas claro, se somos egoístas não somos a Maria acolhedora perfeita que esperam das mulheres. E ao falhar com isso não mais servimos como amigas ou companheiras. No livro de Lucas da bíblia cristã Maria responde ao anjo: “Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra”. 2000 anos se passaram desde Cristo (se é que ele existiu), mas mulheres seguem como as servas da humanidade, presas em estereótipos que lutamos pra quebrar, e que um mundo misógino teima em enfatizar e reforçar como necessário, se não pra manter a masculinidade enquanto superior, pra sustentar identidade de gênero. Mas resistimos. A Virgem Maria ficará para trás enquanto seguimos adiante, pra longe dos massacres que tentam nos impôr pra nos manter caladas. Porque nossa voz ecoa, pois somos as netas das bruxas que a igreja não conseguiu queimar.

Referências:

  1. La Republica. In: http://larepublica.es/2016/01/30/soldados-franceses-intercambiaron-felaciones-por-galletas-con-ninas-de-7-anos-en-la-republica-centroafricana/
  2. Globo. In: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2016/01/uma-mulher-e-estuprada-cada-tres-horas-no-brasil.html
  3. IPEA. In:  http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/140327_notatecnicadiest11.pdf

Precisamos falar sobre depressão.

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‘Depression’ por Aj Giel

Na correria dos dias, das ruas e do trabalho ignoramos temas, pessoas e vazios que possuímos. E escondemos temas por medo de falar e que precisam ser tratados. Um deles é a depressão. Embora comum, continua sendo tabu e tratado de maneira leviana. Diferente de como julgam, a depressão não é besteira, falta de religião ou falta de sexo. Depressão é algo sério e tem consequências ainda mais sérias na vida daqueles que a experimentam. A depressão me fez companhia constante em 2015. Como alguém com um histórico de depressão na família tenho bastante noção de como ela ocorre, porém, não esperava os baques que ela me traria.

Talvez alguns digam ‘que vergonha’, ‘jovem demais pra isso’. Mas não é assim que as coisas funcionam. Segundo relatório da OMC, a depressão revelou-se um problema de saúde pública em todas as regiões do globo (1).  Embora a Depressão seja tratada como uma doença boba e de privilegiados na sociedade em que vivemos a história é bem diferente. A depressão está presente na maior parte dos lares brasileiros, por vezes identificado, por vezes mascarado como um cansaço resolvido na igreja, como o pileque diário. Segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com o maior número de casos da doença no último ano, com 10,8% da população apresentando a doença. A depressão hoje atinge, pelo menos, 121 milhões de pessoas no mundo (2).

A depressão atinge a pessoa no mais íntimo que ela tem. Onde as pessoas não podem ver, e portanto, pode ser mais fácil de ignorar e simplesmente julgar como qualquer coisa, menos um problema que precisa de atenção por parte daqueles que estão perto, e mesmo daqueles que estão distantes. E aí entramos em um dos problemas bem conhecidos da humanidade atual em que vivemos: falta empatia com o ser humano. Sabemos disso por Paris, por Mariana, por todo o Oriente Médio, pela população negra no Brasil, com meninas ao redor do mundo.

É mais fácil ignorar um problema que também tem causas sociais e raízes no sistema. Todos, de jovens e adultos, sofrem com a pressão de ‘vencerem na vida’ em um país meritocrático que espera muito, mas, dá poucas oportunidades. É um sistema que te consome como rato de laboratório, em troca de um salário miserável dentro de uma lógica em que quem ganha com seu esforço diário é seu patrão. As cobranças vem de todos os lados, e quando se é mulher, essa pressão é dobrada. Temos que ser mães, mas boas estudantes; temos que ter um namorado, ser femininas enquanto mulheres trabalham dupla jornada . E como ser algo em um país em que sequer temos dinheiro pra passagem do ônibus? Onde jovens de periferia morrem na mão de polícia? Isso tudo parece desconectado do que é a depressão, mas a depressão avança porque vivemos em uma sociedade doente, em que consumimos demais pra satisfazer desejos fúteis pra ocupar os buracos emocionais que as frustrações que a sociedade – e o capitalismo – nos impõe. E que os estereótipos de gênero, enquanto mulheres, também nos impõem.

Apesar disso, estamos distantes de discussões mais séries e menos vulgares sobre depressão, apesar da presença dela, cada vez maior na nossa sociedade. Em 16 anos, o número das mortes diretamente ligadas a depressão cresceu 705% no Brasil – nesses dados estão incluídos na estatística casos de suicídio e outras mortes motivadas por problemas de saúde decorrentes da depressão (3). E precisamos falar sobre depressão, não apenas para que enquanto sociedade a doença seja vista de maneira mais correta, mas também pra tirar das mãos da indústria psiquiátrica e farmacêutica o monopólio que detém sobre a questão.

Pessoas depressivas estão diretamente ligados a indústria farmacêutica e a seus remédios, e por se tratar de uma indústria criminosa como é a farmacêutica, a maneira com que ela controla muito do que diz respeito a esse problema que atinge tantas pessoas, merece atenção cuidadosa. Damos a indústria farmacêutica a confiança de que somente o que ela está produzindo e nos dizendo que é certo, resolverá algo, porém, a depressão pode estar além de um remédio anti-depressivo que causa dependência, e que, está associada a controle no melhor estilo ‘Admirável mundo novo’ de Aldous Huxley(6). Só nos últimos 4 anos o uso de anti-depressivos no Brasil aumentou 48% (4). Portanto, para se falar sobre depressão precisa-se tocar nessas questões. Como algo que atinge um contingente considerável da população, incluindo a população pobre, desfazer o monopólio que grandes indústrias detém sobre diagnósticos e soluções é necessário para que as pessoas possam ganhar autonomia para entender seus casos, e alternativas sobre qual tratamento funcionará para seu quadro psiquiátrico, que também leve em conta a situação econômica de cada caso. Precisamos muito mais do que receitas e pílulas diárias, afinal somos seres humanos, e se lutamos para tirar coelhos de testes de laboratório, deveríamos lutar pelo mesmo para nós mesmos. Enquanto continuarmos reféns de indústrias como a psiquiátrica e a farmacêutica, eles continuarão a nos vender remédios que mais viciam (5) do que realmente nos ajudam, e que tampouco nos fazem ir além do círculo vicioso que é a depressão e suas crises.

A depressão vem sem avisos. E falar sobre ela e os tabus que a envolvem é um desafio, pois todos sentimos de maneira bastante distinta, mas que tem traços em comum. Identifica-la e entendê-la da maneira correta é necessário para amenizar seus danos. Por vezes, salvar uma vida. A depressão, apesar de tudo que causa, incluindo suicídio, não parece um problema tão grande como outras doenças que existem. A depressão não é menos por isso e precisa de atenção, discussões e ser desmistificada em todos os nichos da sociedade.

A depressão parece um grande mar em que todos estão respirando enquanto você segue submergindo. Mas para todos que sentem isso, há algo aí – não submergimos pra sempre. Alguns sim, e é uma luta diária pra não sucumbir. Precisamos de nados constantes, mas no fundo do mar há nereidas que ajudam os navegantes desse mundo que por razões injustas se perderam e afundaram. E eu escrevo sobre isso sem vergonha de falar sobre um tema tão delicado. Escrevo pra dizer que o mar onde, aqueles que como eu lutam contra a depressão, é grande, mas as correntes são muitas, e entre algas e peixes encontraremos nosso caminho de volta. Quiçá, ensinando mais pessoas sobre como de fato lidar com esse problema, tão visto, pouco entendido que é a depressão em pleno 2015.

Referências:

1)”Organização mundial da saúde divulga estatísticas globais da depressão”. In: http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/organizacao_mundial_da_saude_divulga_estatisticas_globais_da_depressao.html

2) “Mapa da depressão: Brasil é o país com mais casos no mundo”. In: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI252235-17770,00-MAPA+DA+DEPRESSAO+BRASIL+E+O+PAIS+COM+MAIS+CASOS+NO+MUNDO.html

3) “No Brasil, mortes por depressão crescem 705% em 16 anos”. In: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/no-brasil-mortes-por-depressao-crescem-705-em-16-anos

4) “Consumo de antidepressivos dispara pelo mundo”. In: http://setorsaude.com.br/consumo-de-antidepressivos-dispara-pelo-mundo/

5) “Rivotril: a droga legalizada da paz aritificial”. In: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/rivotril-a-droga-legalizada-da-paz-artificial/

6) Admirável mundo novo é uma obra distópica do autor inglês Aldous Huxley lançado em 1932.

Sobre meu Pai: a imposição do colorismo

Uma das figuras mais importantes na minha vida é meu pai. Meu pai foi a primeira pessoa a me incentivar a ler, a amar a literatura e ouviu todas as minhas histórias e planos pra essa vida. Meu pai nasceu pobre, negro e bastardo, não estudou além do primário. Começou a trabalhar aos 9 anos e abandonou a escola. Adora um palheiro e músicas de viola, como todo legítimo homem de interior nascido nos anos 50. É um homem sisudo de 60 anos mas cheio de causos.

E embora eu chame meu pai de negro, ele não se vê assim. Melhor – foi ensinado a não se ver assim. Meu pai viu desde cedo o que era ser negro de onde veio. Filho de mãe solteira por ser negra, e criado pelos avós e tios, todos negros, soube desde sempre o que é ser negro e pobre num sul racista e meritocrático. Por ser mestiço, meu pai tem cabelos lisos, e a pele mais clara, e portanto, o considerem “moreno”.  O que não muda muito a maneira com que  a sociedade sempre o encarou, pois o consideram moreno por colorismo, porque seu semblantes e traços, não negam sua descendência.

Colorismo é o que venho conversando com meu pai há meses por telefone. Ele ri  e como filha, conheço muito bem o tema como algo desconfortável pra ele. Segundo Aline Djokic do Blogueiras Negras, “o colorismo se orienta somente na cor da pele da pessoa. Isso quer dizer que, ainda que uma pessoa seja reconhecida como negra ou afrodescendente, a tonalidade de sua pele será decisiva para o tratamento que a sociedade dará a ela”¹ . Meu pai embora negro, nunca se viu negro. Sempre se viu moreninho, quase branco, e fingia não ser com ele o racismo que sofria muitas vezes. Meu pai sabia que o fato de ser um ‘negro mais claro’ , fazia com o que tratassem diferente – um pouco melhor – do que a seus tios, negros de pele escura e cabelos crespos, por exemplo.

O colorismo atua dessa forma, segundo Djokic: “a pessoa negra é tolerada, mas não aceita, pois aceitá-la seria reconhecer que a  diferença é existente e que vencer o preconceito que se tem sobre essa ‘diferença’ tenha que ser vencido”. Meu pai não entende o que é colorismo. Mas sofreu com ela a vida toda. Sabia não ser branco, e não era tratado como um. Mas também não se assumiu negro.

Talvez meu pai soubesse, inconscientemente, do que significa ser negro e que para essa sociedade, é melhor parecer branco. De acordo com Djokic: “a relação branquitude-pessoa negra de pele clara o importante não é convencer-se de que a pessoa seja na verdade branca, mas sim conseguir ignorar seus traços negros a ponto de conseguir imaginá-la branca, a ponto de poder suportar sua presença que, por causa do racismo, é vista como intrusa”. E com a vida que ele teve, e que outros como ele tiveram, relegados a empregados mal-tratados pela cor da pele que tinham , se reconhecer e se orgulhar de ser negro, era uma tarefa para poucos.

E na semana da consciência negra, é importante lembrar o quanto a sociedade tirou os negros de sua história e os relegou a um canto qualquer. Ainda mais mulheres negras. Quem lembra de Maria Carolina de Jesus?  O é racismo continua presente em toda a sociedade e há um longo caminho de lutas que temos pra desconstruir isso. No Brasil, que diz se orgulhar de suas raízes mestiças, segundo dados recentes evidenciados pelo Mapa da Violência apontam que o Brasil, em números absolutos, é o país com o maior índice de assassinatos do mundo. Só em 2012 foram 56 mil pessoas, sendo 30 mil jovens entre 15 e 29 anos, destes 77% jovens negros².  54% das mulheres nas prisões se consideram negras ou pardas³. É necessário querer ser branco num país com esses índices. E quando se é mulher e negra mais ainda.

Ao escrever sobre isso, não falo por mim, porque eu não nasci negra, embora tenha os traços do meu pai. Sou branca nascida numa família mestiça e reconheço o privilégio que tenho enquanto nascida com a pele branca. Mas escrevo por meu pai, porque ele não teve as chances que eu tive de entender o mundo e tampouco de se ver nesse mundo com o orgulho que poderia de suas raízes cheias de luta. E eu me orgulho dele e dessas raízes que ele me deu e do que ela me ensinou. Na semana da consciência negra, eu faço das lutas do meu pai minha inspiração.

 

Referências:

  1. ‘Colorismo, o que é, como funciona’. In: Blogueiras Negras. Link: http://blogueirasnegras.org/2015/01/27/colorismo-o-que-e-como-funciona/
  2. ‘No Brasil, 68% das mortes violentas são de negros’. In: Exame. Link:  http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/consciencia-negra-68-das-mortes-violentas-sao-de-negros
  3. ‘Mulheres e Prisão’. In: Blogueiras Feministas. Link:  http://blogueirasfeministas.com/2013/02/mulheres-e-prisao/