Esquina

Há uma esquina em que todos os sonhos estão quebrados. Ela cheira a tapete antigo, café frio e perfume barato. Todos que passam ali não percebem as folhas mortas no chão e o buraco no muro recém construído. Narciso poderia ter morrido naquela poça d’água fria e suja, tantos são os egos esfarelados por aqui.
Ah sim. Tantos egos. Cores fortes que morreram contra o muro, nomes que queriam ser mitos esquecidos em páginas rabiscadas por canetinha barata, belezas vaidosas que perderam o sentido quando a idade chegou. Tantas estrelas perdidas num céu distante. Ninguém mais sabe nomear constelações em eras digitais.
O poste quebrado já não ilumina nada e a esquina escura é repouso de espelhos quebrados que massacraram seus donos com a realidade: a vida não é só sobre imagem. Há tanto mais ignorado. Mas ninguém quer olhar pra própria casa antes de vigiar a casa alheia. E é dentro de casa que estão todos os armários pra consertar e aquela prataria velha pra colocar no lixo. Os sonhos que a esquina fria não condena são aqueles poucos que lutam por causas perdidas.
Mas amigo, a esquina das causas perdidas é essa ali de baixo. Passa lá e toma um chá que o cheiro é melhor do que essa realidade que cheira a roupa mofada.

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