Esquina

Há uma esquina em que todos os sonhos estão quebrados. Ela cheira a tapete antigo, café frio e perfume barato. Todos que passam ali não percebem as folhas mortas no chão e o buraco no muro recém construído. Narciso poderia ter morrido naquela poça d’água fria e suja, tantos são os egos esfarelados por aqui.
Ah sim. Tantos egos. Cores fortes que morreram contra o muro, nomes que queriam ser mitos esquecidos em páginas rabiscadas por canetinha barata, belezas vaidosas que perderam o sentido quando a idade chegou. Tantas estrelas perdidas num céu distante. Ninguém mais sabe nomear constelações em eras digitais.
O poste quebrado já não ilumina nada e a esquina escura é repouso de espelhos quebrados que massacraram seus donos com a realidade: a vida não é só sobre imagem. Há tanto mais ignorado. Mas ninguém quer olhar pra própria casa antes de vigiar a casa alheia. E é dentro de casa que estão todos os armários pra consertar e aquela prataria velha pra colocar no lixo. Os sonhos que a esquina fria não condena são aqueles poucos que lutam por causas perdidas.
Mas amigo, a esquina das causas perdidas é essa ali de baixo. Passa lá e toma um chá que o cheiro é melhor do que essa realidade que cheira a roupa mofada.

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O universo e (em?) nós

A lua eclipsal se posiciona sobre aquário. O que parece escuridão, brilha reluzente do seu outro lado. Aquário, do auge de sua frieza, sorri um sorriso infinito cercado de estrelas cadentes que as luzes das cidades não nos deixam ver. Se não houvessem tantos postes, e tantas luzes quebradas dentro de nós, quem sabe veríamos o que o universo nos mostra e escutaríamos as melodias antigtumblr_oomspytAsx1qh7yubo1_500as que eles cantam pros cometas dançarem.
E eles dançam tão longe de nós, meros humanos aparvalhados em mídias sociais, celulares e frieza uns com os outros. A vida tão lenta no infinito das galáxias pouco reflete em nós, sempre correndo contra o tempo que inventamos pra nos prender em gaiolas imaginárias, sem nem mesmo saber pra quê. Quantas algemas nos prendem aqui? Quantas vezes nos algemamos a esse planeta dito único habitável? e quantas vidas perdemos de viver vivendo essa única de idas e vindas em horários apertados, dias corridos e sonos agitados?
Andrômeda pode estar nos esperando de mesa posta pro jantar e nós jamais saberemos. Nós recusamos os convites das estrelas todos os dias quando ligamos a televisão pra assistir coisas inúteis que preenchem apenas o vazio do buraco negro que nos consome de dentro pra fora. Que melancolia. O infinito é melancólico. E pode haver beleza na melancolia se a gente souber sentar e conversar com ela olhando dentro dos seus olhos violetas que nunca piscam e tem pálpebras de desertos banhados pela lua cheia. É uma pena que a melancolia a gente ignora pra não precisar lidar com o buraco negro. A gente a ignora e corre abraçar uma felicidade irreal de cores falsas que nos mantém pisando em cacos de vidro na superfície que não brilha, nem reflete a luz da lua.
É difícil perceber a luz da lua com os olhos cegados de fúteis e fuzis. O infinito gira em seu próprio ritmo sem nós, enquanto nossas horas passam em ansiedade constante em que nada se encontra além de nuvens que nunca chovem e sóis que não aquecem. Um dia a gente chega lá. A gente olha pra cima e cumprimenta a lua como velha amiga, e ela há de sorrir de volta.