Olhos de Jabuticaba e segredos de liquidificador: palavras sobre minha melhor amiga

Ela faz parte da minha vida desde quando os dias não eram tão curtos, mas longos e cheios de ilusões. Nas minhas melhores memórias eu encontro seu sorriso junto ao meu e sua risada ecoando a minha. Posso ver ela brigando comigo pra não bater nela ou não ficar tocando enquanto falava, ou ela ao meu lado cantando alguma música da Pitty encostadas no muro velho da quadra da escola enquanto os mais ranzinzas nos mandavam ficar caladas. Também posso encontrá-la nas minhas memórias mais duras e tristes. Das noites de depressão, de crises de ansiedade, das ligações em prantos, das mensagens madrugada afora pra vencer o pânico. Se a vida nos fez atípicas em um mundo tão clichê, temos a sorte de termos uma a outra pelos últimos 11 anos de nossas vidas.

Ela me ajudou a entender que nada é uma palavra esperando tradução, e como a menina do Piano Bar, nós já nos seguramos a beira de penhascos mais vezes do que lembramos. Dona de olhos negros densos, os olhos delas escondem mais que revelam, e se não te dão respostas, te dão a segurança que apenas um mar escuro e misterioso pode trazer. A solidão que se mistura a coisas doces é algo que poucos entendem numa sociedade que enxerga as coisas em preto e branco. Seus olhos de jabuticaba sempre souberam me entender quando eu não podia me explicar.

Há algo sobre ela que é peculiar. Sempre houve.Inteligente como poucos, se eu fechar meus olhos, eu posso ver o modo como ela se mexe ouvindo uma música que ela gosta ou como ela se anima falando de algo que gosta. Como nunca nos falta assunto, assim como o silêncio nunca é estranho entre nós. Mas se uma parte de mim  fica triste por não poder abraçá-la hoje, outra parte se sente feliz por ela ser minha melhor amiga. Estranhas como só nós, somos feministas (radicais), bruxas e lutadores juntas, compartilhamos segredos de liquidificador pela vida, e seguimos juntas, apesar da distância, do tempo e das dificuldades.

Como Bukowski já disse, 200 anos atrás eles teriam nos queimado na fogueira. Sempre estivemos muito perto. A Utopia sempre é uma companheira de luta, e ela sempre me inspirou a ser uma pessoa melhor e forte. Ela é a mulher mais linda que eu conheço também. Porque ela não é apenas uma embalagem, mas ela é ela mesma, sensível, cheia de personalidade e lindas marquinhas de nascença. É inteligente a sua maneira quase tímida e muito dura, e eu posso ver Sallinger falando sempre que ela fala, me dizendo pra refletir mais e ter coragem, posso ouvir Dom Quixote em sua voz, compartilhando comigo as causas perdidas pelas quais lutamos, posso ver reflexos de Jane sob aqueles olhos tão densos, olhando pra mim em perspicácia. E por trás de tantas palavras, posso ver Carl Jung, até um pouco de Foucault, e um tanto de Virginia Woolf e Nise Silveira, unindo-se a personalidade incrível que ela já tem e aquela inteligência que ilumina – e vai iluminar – ainda mais mais caminhos.

E hoje, ela completa 23 anos. Nem todos entendem quando digo que ela é amor da minha vida. Primeiro, porque as pessoas não entendem o amor pra além do estereótipo erótico da sociedade ocidental. E senhores, a amizade é o amor mais forte que existe nesse ocidente decadente. Segundo, porque o amor entre mulheres não é compreendido, mesmo hoje, as pessoas pensam que amizades de mulheres não duram, pois acham que mulheres devem estar sempre competindo entre si. Mal sabem eles, o poder que a sororidade e a irmandade feminina pode ter nessa sociedade falocêntrica. E se alguém me ensinou sobre sororidade, com certeza foi ela.

E eu a amo, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, daqui até o fim do mundo. Somos nós duas contra o mundo. Sempre foi.

 

NOTA: o nome dela não será incluído nesse post, para mantê-la segura de possíveis ataques que são realizados massivamente contra feministas que não se alinham as correntes liberais, queer e seus afins.

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Tire seu pênis do caminho que o Sagrado Feminino vai passar: um manifesto pela história das mulheres

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O sagrado feminino é, historicamente, o acúmulo da sabedoria das mulheres transmitida a outras mulheres e a resistência do conhecimento do corpo feminino, pensando o útero e a vagina, em relação a natureza e ao universo. A ideia do sagrado feminino, é tão ancestral quanto mulheres, e foi apagada propositalmente desde a ascensão do cristianismo por todo o Ocidente, e a colonização da América, da África e da Oceania. A presença das mulheres e de seu conhecimento acerca de saberes ligados a terra, a natureza e a saberes místicos foram demonizadas, tornadas pagãs e sistematicamente apagadas. A história das mulheres e as figuras femininas ficaram resumidas a deusas que os homens representaram de maneira fútil e a tribos que eles fantasiavam de maneira erótica.

Os homens e o falocentrismo ocidental tornou o sagrado feminino opaco e sujo perante seu Deus masculino. Figuras como Sheela Na Gig, Pachamama, Tawere, Oyá ou Bricta são até hoje pouco conhecidas. Quem lembra da figura de Sheela na Gig com pernas abertas expondo o clitóris e sua vagina? da força de Oyá enquanto feiticeira, guerreira do vento? quem sabe que Atenas não era apenas a deusa da sabedoria, como também das estratégias de guerra? Do pacto de Artêmis jurando eterna virgindade por nojo dos homens? Essas figuras femininas de poder se tornaram diminutas em um ocidente cristão e falocêntrico. Não porque sejam pequenas, mas porque os homens as tornaram assim – pois eles fizeram Deus a sua imagem e semelhança, um ser masculino e opressor. O Deus ocidental, é uma figura masculina, cujos representantes na terra são homens que vivem cercados por outros homens. Os homens enterraram o sagrado feminino e construíram essa historicidade masculina que determinou as bases ocidentais que excluiu mulheres da história e do processo do conhecimento. 

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Nesse contexto, o sagrado feminino e a luta para afirmar o corpo feminino como algo pleno em si mesmo, sem precisar ser comparado com o pênis, é a história da resistência das mulheres. Os corpos femininos são entendidos enquanto públicos porque ele é entendido a partir de uma visão masculina religiosa como aquele que carrega a raiz de todo o pecado, e que portanto, autoriza toda sorte de maldade aplicada a este. É entendido como inferior e sujo porque não tem um pênis, porque desde a Grécia o amor dos homens pelos próprios homens, é predominante. A sociedade masculina não ama mulheres, ama homens. Eles usam mulheres. A descoberta dos homens de que seus pênis poderia ser usado como uma arma para machucar mulheres, unido a mentalidade construída e disseminada de que mulheres seriam seres inferiores, serviu – e serve – para que mulheres sejam violadas em períodos de guerra, mesmo em períodos de trégua. Legitimou a ideia de que mulheres serviriam apenas para o ambiente doméstico e que aquelas que fugiam desse modelo estipulado eram doentes que precisavam ser internadas em hospícios e/ou lobotomizadas. Permitiu que homens como Josef Mengele fizessem todo tipo de experimentos em corpos femininos. E essa mentalidade serviu para encobrir os interesses do capital em explorar mulheres para diminuir salários masculinos e colocar seres humanos trabalhando 16h por dia enquanto mal ganhavam por comer, por mais de dois séculos. Esse falocentrismo presente em pleno 2016, anos após avanços e lutas feministas, faz com que mulheres não tenham o direito de definir o que é ser mulher em um país e em um mundo em que nascer mulher define sua existência social. Voltamos novamente a ser definidas por homens em seus grandes salões de conhecimento.

Diante disso, falar e redescobrir o sagrado feminino é afirmar mulheres como donas da próprio vida e de sua história. É trazer a elas a historicidade daquelas que morreram antes delas para que elas pudessem viver, é passar adiante uma história de lutas femininas que resistiram contra homens e seus pênis. O conhecimento de mulheres é constantemente questionado em prol daqueles que detém o falo. Somos diminuídas por questionar a autoridade dos mesmos sobre nossas vidas, como as mulheres na antiguidade foram perseguidas por se unirem pra dividir conhecimentos com outras mulheres. Somos humilhadas publicamente por discordarmos de pessoas com pênis, como bruxas foram queimadas na fogueira. Somos ameaçadas como foram as mulheres que antes de nós lutaram por um mundo mais justo para mulheres: de Olympe de Gouges a Maria Felipa de Oliveira. De Dandara a Pagu. De Maria Quitéria a Olga Benário.

Resgatar o sagrado feminino é afirmar seres humanos com vaginas como seres humanos em luta em uma sociedade que nos nega direitos e justiça e nos trata como inferiores por termos nascido mulheres. É afirmar nossa vagina para além do órgão erotizado e sujo para o qual a igreja católica e posteriormente a pornografia o colocou. É redescobrir a força e o poder do clitóris em uma sociedade que nos ensina a amar apenas ao pênis e a respeitar apenas a ele como detentor da sabedoria e do prazer. A história da mulheridade, revela o oposto, e é essa história que buscamos afirmar ao trazer novamente o sagrado feminino para um mundo, que embora seja mais ateu, é cada vez mais falocentrado.

A história dos homens roubou das mulheres a oportunidade de se reconhecerem enquanto seres de luta, detentores de sabedoria. Enquanto nos ensinavam que os homens construíram esse mundo, nos esconderam das mulheres que construíram junto com eles com ainda mais resistência, pelos espaços negados, pelas violências sofridas e pelos nomes apagados. Nossos órgãos foram apagados da história e nosso conhecimento foi demonizado. Reafirmar nosso sagrado feminino não é uma ofensa aos nascidos com pênis, sejam eles o que forem – é fortalecer nossa luta e entender de onde viemos e porque lutamos. É olhar pra nós mesmas, e entender a realidade que nos cerca enquanto mulheres. Olhar nossas infâncias de meninas e relembrar as violências sofridas e lutar para que outras meninas não sofram o mesmo. É nos afirmar enquanto mulheres que não serão redefinidas em nome de sentimentos falocêntricos.

Tirem seu pênis do caminho que o sagrado feminino quer – E VAI – passar.

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Deusa Oyá