Cartas para Jane, II

Querida Jane,

Em meio a tempos turbulentos, dificuldades emocionais e uma sociedade nojenta, me pego constantemente lembrando de você. ‘O que Jane faria?’ é uma pergunta que cruza minha mente nos dias mais exaustivos. Minha primeira resposta óbvia é: ‘ela jamais desistiria’. Eu penso em desistir, às vezes. Então lembro que você desafiou a rainha pra escrever sobre o que acreditava e deixou um legado feminista muito antes desse movimento sequer ter iniciado. Você desafiou todas as regras do seu tempo pra ser quem era, mesmo que isso lhe tenha custado a saúde, e lhe jogado a uma vida árdua.

Mas são tempos tão loucos, Miss Austen. Mais loucos do que sua honestidade e sua ironia perpicaz poderiam prever. Lembro quando escreves ‘nem todas as mulheres querem estar em mares calmos por toda a vida’ e penso, como lidar com aqueles que continuam a esperar isso das mulheres? ou pior, como lidar com as pessoas que se dizem ‘evoluídas’ mas dizem que mulheres que não agem conforme os estereótipos – que você já questionava no século XIX – são homens? Sim, estamos nessa fase da sociedade. Hoje, mulheres voltaram a ser os embrulhos enfeitados que você tanto refutou. Se não voltaram, querem nos fazer crer que são e nos obrigam a aceitar. Todos os estereótipos de beleza e delicadeza estão de volta. Cada vez mais fortes. E dessa vez, mesmo a luta que dizia refutá-los, os reconhece e pouco os problematiza. Somos medíocres comparadas a mulheres como você e as irmãs Brönte que em um século que condenava mulheres a miséria e lhes negava qualquer tipo de humanidade desafiavam tudo para lutarem por uma sociedade melhor para as mulheres.

Mas a sociedade ainda é péssima para mulheres, Jane. Tentamos e tentamos, mas como você já reconhecia, os homens detém sempre a decisão final, e eles nunca estão ao nosso lado. O mais sinistro, é que em tantos anos atrás já notavas como o ser feminino não era natural e ironizava que o único destino de uma mulher fosse o casamento, e hoje, nesse ocidente patético que se acha moderno, apesar de todas as discussões, voltamos a encarar gênero como natural, como se pessoas nascessem com almas e cérebro femininos.O feminino, essa ideia patriarcal que as mulheres já refutavam séculos atrás por ter sido uma construção masculina pra servir a seus propósitos capitalistas, escravistas e de exploração, continua em vigor. Nada disso mudou desde quando estavas aqui. Apenas piora, se eu puder, com profundo desgosto, ser sincera. Continuamos sendo definidas por homens a seu bel prazer, e continuamos massacradas quando discordamos das premissas que homens criam sobre o que mulheres são e o que ser mulher significa nessa sociedade. Eles ainda detém o monopólio da palavra, da justiça, da economia. De tudo que conhecemos por mundo em geral.

JASNAGCR

Jane Austen

 

No século XIX era necessário esconder-se atrás de pronomes masculinos para poder escrever. Não por prazer, mas porque essa era a única maneira de uma mulher poder escrever. Ah, Jane. Quantas mulheres não morreram esquecidas sob nomes masculinos por conta de um mundo patriarcal que nos enxerga homens quando ousamos ser mais do que determinam que sejamos? Quantas mulheres ainda irão morrer por desafiarem as ordens masculinas de se recatarem as suas casas e não aumentarem sua voz? Quantas crianças precisarão morrer pra que percebam que liberdade não é tomar remédio pra se adequar ao ‘gênero certo’? Eu não sei. Séculos atrás eles lobotomizavam, estupravam, batiam, medicavam, torturavam, matavam mulheres que ousavam ser mais do que deveriam ser para aquela sociedade. Diziam que elas invejavam o falo – e ainda dizem. Hoje, não fazem tão diferente disso, apenas mascararam o discurso. E quem controla a palavra, controla as mentes. Ainda somos consideradas loucas, ainda nos consideram homens quando falamos mais alto que eles, ainda querem nos matar por quebrar as regras. Ainda estamos sozinhas. E eles e seus falos continuam definindo quem somos, como deveríamos viver e pelo quê deveríamos lutar. Ao lutarmos por nós, e apenas por nós mulheres, meninas, senhoras, mães, eles desejam nossa morte. Assim como no século XIX. Assim como os inquisidores.

Eu imagino você aqui, Miss Austen. O que diria, de que lado estaria. Mas, penso que pra alguém que ousou criticar a alta sociedade inglesa, a escravidão e a exploração, de maneira sutil mas incisiva, talvez você ficasse do nosso lado. Nós somos poucas mas tentamos. E seguimos. Apesar das ameaças, das dores e das dificuldades. Eu desejo que o próximo século seja melhor para as mulheres. Que, no mínimo, tenhamos a palavra pra decidir quem somos sem homens e seus falos interferindo nesse meio. Que viver seja menos doloroso pra quem é mulher, porque Jane, ainda é. Ainda é.

Eu realmente imagino você aqui, Jane. Mas, honestamente? Que bom que você não está.

Obrigada por tudo.

 

[ ADENDO: Sim, eu sou uma grande crítica da colonização acadêmica e de pensamento. Continuo achando necessário. Sim, eu sei que Jane é inglesa.

Mas Jane Austen é minha escritora favorita por razões muitíssimo pessoais que não irei falar sobre. ]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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