Até acontecer com você, você não sabe como é.

A palavra da estação já foi empatia -a delicada capacidade de sentir junto e se solidarizar com a dor alheia. Empatia é um grande talento, e em um mundo que tem olhos baixos focados na tela do celular, é cada vez mais rara. Vivemos em grandes bolhas seguras em que apenas nossos dores importem e minimizamos a dor alheia como se elas fossem menores que a nossa. Não se sente a dor do outro, não nos importamos, encontramos um rótulo que nos mantenha confortável enquanto observamos de longe o mundo desabar, e apenas comentamos a fraqueza daquela pessoa, cuja dor sobrepõe o sorriso.

No auge do nosso egoísmo e das dificuldades diárias é realmente difícil sentir algo além das nossas próprias mazelas. Das contas de casa ao stress do trabalho, não sobra muito tempo pra nos importarmos com o sorriso triste que a vizinha nos lançou no elevador ou com a moça chorando no ônibus. E certamente, num mundo em que não consegue sentir empatia a não ser com animais em sofrimento, as violências passam por nós, e sequer percebemos. Porque até acontecer conosco, não sabemos de fato qual o sentimento.

Até o mundo cair aos seus pés, você não sabe o significado disso. Até tudo que é importante queimar perante seus olhos, você vai repetir pra quem está passando por tal dificuldade que ela precisa ser mais forte. No fundo, você acha que sua dor é maior e não quer se importar. E em um mundo em que mulheres estão sujeitas a um leque imenso de violências, isso se aprofunda e dificulta ainda mais o que já é difícil.

A cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil, mas nos bares por aí todos ainda sussurram que a culpa foi dela. Todos os dias morrem em média treze mulheres, mas em todo lugar, homens continuam apoiando os amigos que são abusivos com suas mulheres. Todos os dias morrem mulheres pobres por aborto clandestino, mas ‘bons cristãos’ continuam lutando pra impedir que o aborto seja legalizado, porque eles não podem engravidar, e portanto, não sabem o medo de não poder criar uma criança ou a solidão do abandono paterno em uma gravidez recém descoberta. Todos os dias, mulheres passam por violência obstétrica, e sequer podem falar sobre isso. E ninguém realmente se importa, nem mesmo aqueles que deveriam estar protegendo ou resolvendo essas situações. Tais violências, tampouco, sensibilizam a maioria. Porque até acontecer com você, você não tem ideia de como isso é. 

A crise de refugiados faz com que dezenas de mulheres sejam estupradas pelo caminho que traçam rumo a uma suposta nova vida, mas continuam expondo elas, os filhos e os maridos como monstros invasores terroristas. Crianças foram queimadas  na Nigéria, e diferente de mortes que acontecem no centro do mundo, ninguém lamentou, não houve velas, rezas ou lágrimas, apenas silêncio. Latifundiários jogaram agrotóxico sobre famílias indígenas inteiras, mas a mídia não soltou uma nota sequer sobre. Mas nós nem notamos ou procuramos entender o que está acontecendo, porque até acontecer com você, não vai fazer sentido.  

Nós só sentimos realmente, quando aquilo corta nossa própria pele e furam nossa bolha que tão cuidadosamente construímos. Mas também podemos sentir em solidariedade com o outro, antes que passemos por situações assim. E no mundo em que vivemos, estamos sujeitos a amanhã ser aquele que hoje debochamos da dor. Você não sabe o que é passar por aquilo, portanto, escolha a solidariedade, ao invés do julgamento, a amizade, ao invés do deboche. Procure ser um abrigo, ao invés de ser quem ajuda a expôr e tocar a ferida. Se você nunca passou por isso, não é seu direito dizer ‘seja mais forte’ , ‘levante a cabeça’, em tons de ordem sem olhar no fundo dos olhos de alguém e perceber que ela precisa mais de um abraço, do que de mais uma pessoa julgando sua dor.

Você não sabe como é. Então não culpe uma mulher pelo estupro que ela sofreu, não diga que ela provocou quando ouvir um caso sobre violência doméstica, não chame muçulmanos de terroristas. Você não passou pelo que essas pessoas passaram, não faz sentido pra você porque não fazes ideia do inferno que essas pessoas já passaram pra sobreviver. Você não sabe o medo, a fome, as lágrimas e a escuridão que várias das pessoas que você julga já passaram. Você não tem o direito de julgá-las, e até você saber o que essas pessoas realmente viveram, você não tem nada pra falar.

 

Nota:

O título e o texto são inspirado pela música “Till’ it happens to you” (‘até isso acontecer com você’) da cantora americana Lady Gaga que foi escrita em apoio as vítimas de violência sexual nos campi universitários dos Estados Unidos. A canção é parte da trilha do documentário que trata desse tema ‘The Hunting Ground’.

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