Precisamos falar sobre depressão.

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‘Depression’ por Aj Giel

Na correria dos dias, das ruas e do trabalho ignoramos temas, pessoas e vazios que possuímos. E escondemos temas por medo de falar e que precisam ser tratados. Um deles é a depressão. Embora comum, continua sendo tabu e tratado de maneira leviana. Diferente de como julgam, a depressão não é besteira, falta de religião ou falta de sexo. Depressão é algo sério e tem consequências ainda mais sérias na vida daqueles que a experimentam. A depressão me fez companhia constante em 2015. Como alguém com um histórico de depressão na família tenho bastante noção de como ela ocorre, porém, não esperava os baques que ela me traria.

Talvez alguns digam ‘que vergonha’, ‘jovem demais pra isso’. Mas não é assim que as coisas funcionam. Segundo relatório da OMC, a depressão revelou-se um problema de saúde pública em todas as regiões do globo (1).  Embora a Depressão seja tratada como uma doença boba e de privilegiados na sociedade em que vivemos a história é bem diferente. A depressão está presente na maior parte dos lares brasileiros, por vezes identificado, por vezes mascarado como um cansaço resolvido na igreja, como o pileque diário. Segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com o maior número de casos da doença no último ano, com 10,8% da população apresentando a doença. A depressão hoje atinge, pelo menos, 121 milhões de pessoas no mundo (2).

A depressão atinge a pessoa no mais íntimo que ela tem. Onde as pessoas não podem ver, e portanto, pode ser mais fácil de ignorar e simplesmente julgar como qualquer coisa, menos um problema que precisa de atenção por parte daqueles que estão perto, e mesmo daqueles que estão distantes. E aí entramos em um dos problemas bem conhecidos da humanidade atual em que vivemos: falta empatia com o ser humano. Sabemos disso por Paris, por Mariana, por todo o Oriente Médio, pela população negra no Brasil, com meninas ao redor do mundo.

É mais fácil ignorar um problema que também tem causas sociais e raízes no sistema. Todos, de jovens e adultos, sofrem com a pressão de ‘vencerem na vida’ em um país meritocrático que espera muito, mas, dá poucas oportunidades. É um sistema que te consome como rato de laboratório, em troca de um salário miserável dentro de uma lógica em que quem ganha com seu esforço diário é seu patrão. As cobranças vem de todos os lados, e quando se é mulher, essa pressão é dobrada. Temos que ser mães, mas boas estudantes; temos que ter um namorado, ser femininas enquanto mulheres trabalham dupla jornada . E como ser algo em um país em que sequer temos dinheiro pra passagem do ônibus? Onde jovens de periferia morrem na mão de polícia? Isso tudo parece desconectado do que é a depressão, mas a depressão avança porque vivemos em uma sociedade doente, em que consumimos demais pra satisfazer desejos fúteis pra ocupar os buracos emocionais que as frustrações que a sociedade – e o capitalismo – nos impõe. E que os estereótipos de gênero, enquanto mulheres, também nos impõem.

Apesar disso, estamos distantes de discussões mais séries e menos vulgares sobre depressão, apesar da presença dela, cada vez maior na nossa sociedade. Em 16 anos, o número das mortes diretamente ligadas a depressão cresceu 705% no Brasil – nesses dados estão incluídos na estatística casos de suicídio e outras mortes motivadas por problemas de saúde decorrentes da depressão (3). E precisamos falar sobre depressão, não apenas para que enquanto sociedade a doença seja vista de maneira mais correta, mas também pra tirar das mãos da indústria psiquiátrica e farmacêutica o monopólio que detém sobre a questão.

Pessoas depressivas estão diretamente ligados a indústria farmacêutica e a seus remédios, e por se tratar de uma indústria criminosa como é a farmacêutica, a maneira com que ela controla muito do que diz respeito a esse problema que atinge tantas pessoas, merece atenção cuidadosa. Damos a indústria farmacêutica a confiança de que somente o que ela está produzindo e nos dizendo que é certo, resolverá algo, porém, a depressão pode estar além de um remédio anti-depressivo que causa dependência, e que, está associada a controle no melhor estilo ‘Admirável mundo novo’ de Aldous Huxley(6). Só nos últimos 4 anos o uso de anti-depressivos no Brasil aumentou 48% (4). Portanto, para se falar sobre depressão precisa-se tocar nessas questões. Como algo que atinge um contingente considerável da população, incluindo a população pobre, desfazer o monopólio que grandes indústrias detém sobre diagnósticos e soluções é necessário para que as pessoas possam ganhar autonomia para entender seus casos, e alternativas sobre qual tratamento funcionará para seu quadro psiquiátrico, que também leve em conta a situação econômica de cada caso. Precisamos muito mais do que receitas e pílulas diárias, afinal somos seres humanos, e se lutamos para tirar coelhos de testes de laboratório, deveríamos lutar pelo mesmo para nós mesmos. Enquanto continuarmos reféns de indústrias como a psiquiátrica e a farmacêutica, eles continuarão a nos vender remédios que mais viciam (5) do que realmente nos ajudam, e que tampouco nos fazem ir além do círculo vicioso que é a depressão e suas crises.

A depressão vem sem avisos. E falar sobre ela e os tabus que a envolvem é um desafio, pois todos sentimos de maneira bastante distinta, mas que tem traços em comum. Identifica-la e entendê-la da maneira correta é necessário para amenizar seus danos. Por vezes, salvar uma vida. A depressão, apesar de tudo que causa, incluindo suicídio, não parece um problema tão grande como outras doenças que existem. A depressão não é menos por isso e precisa de atenção, discussões e ser desmistificada em todos os nichos da sociedade.

A depressão parece um grande mar em que todos estão respirando enquanto você segue submergindo. Mas para todos que sentem isso, há algo aí – não submergimos pra sempre. Alguns sim, e é uma luta diária pra não sucumbir. Precisamos de nados constantes, mas no fundo do mar há nereidas que ajudam os navegantes desse mundo que por razões injustas se perderam e afundaram. E eu escrevo sobre isso sem vergonha de falar sobre um tema tão delicado. Escrevo pra dizer que o mar onde, aqueles que como eu lutam contra a depressão, é grande, mas as correntes são muitas, e entre algas e peixes encontraremos nosso caminho de volta. Quiçá, ensinando mais pessoas sobre como de fato lidar com esse problema, tão visto, pouco entendido que é a depressão em pleno 2015.

Referências:

1)”Organização mundial da saúde divulga estatísticas globais da depressão”. In: http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/organizacao_mundial_da_saude_divulga_estatisticas_globais_da_depressao.html

2) “Mapa da depressão: Brasil é o país com mais casos no mundo”. In: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI252235-17770,00-MAPA+DA+DEPRESSAO+BRASIL+E+O+PAIS+COM+MAIS+CASOS+NO+MUNDO.html

3) “No Brasil, mortes por depressão crescem 705% em 16 anos”. In: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/no-brasil-mortes-por-depressao-crescem-705-em-16-anos

4) “Consumo de antidepressivos dispara pelo mundo”. In: http://setorsaude.com.br/consumo-de-antidepressivos-dispara-pelo-mundo/

5) “Rivotril: a droga legalizada da paz aritificial”. In: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/rivotril-a-droga-legalizada-da-paz-artificial/

6) Admirável mundo novo é uma obra distópica do autor inglês Aldous Huxley lançado em 1932.

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KORRA: a questão da feminilidade estereotipada e outras reflexões

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Em um ano difícil, eu descobri em uma personagem mulher a força pra passar por algumas das pedras que atravessaram meu caminho: Korra. A personagem principal da sequência de ‘Avatar’ trouxe discussões necessárias. Pois ainda vivemos enquanto mulheres, uma batalha contra a feminilidade estereotipada. Mas estou exausta de falar sobre isso, portanto, tratarei disso, falando dessa personagem fantástica que conheci esse ano, cuja série rendeu críticas e boicotes a sua emissora pelo seu final, obviamente lésbico, é uma das mulheres mais incríveis que já vi em séries.
Korra é o Avatar – pode controlar os quatro elementos. Na série, é agressiva e impulsiva, com o tempo, se torna reflexiva, altiva e forte. Suas qualidades, não são geralmente apreciadas em mulheres, até mesmo, porque ela não é feminina. Nada – e ela não se esforça pra ser. Ao se deparar com seu reflexo e seus monstros internos ela abandona sua figura menina, corta os cabelos e assume uma figura de uma mulher madura mas longe de uma feminilidade estereotipada.
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Ela se torna uma mulher brilhante ao decorrer de toda a série e encontra outras mulheres, tão fantásticas quanto ela: como Toph Beifong ( minha personagem favorita desde a primeira série do Avatar), que é cega, vive em um pântano e sente as coisas com a sensibilidade do Tato; sua filha Li, independente, chefe de polícia da principal república, Asami, sua melhor amiga, que projetou uma cidade inteira, pensa novas tecnologias e as produz; e a vilã da última série, Kuvira, uma líder nata que buscar unir seu povo, capaz de discursar pra nações inteiras e que não se rende pra homens.
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Toph Beifong ( ♥ ) e Korra

Em nenhuma delas se pode elogiar o quanto são bonitas mas sim o quanto são imponentes, como suas figuras impõem respeito e o quanto merecem ser respeitadas por quem são, e não pelo que meramente parecem. A aparência não importa. Em um mundo com portais para o mundo dos espíritos, a aparência é mera futilidade que não importa nada pra quem pode enxergar dentro de você. Vindo de uma tradição japonesa sobre espíritos e contos sobre a ligação dos seres humanos com os elementos da terra, que são alegorias pra falar sobre a nossa ligação com tudo que existe ao nosso redor, a série mostra como esse laço é pouco presente ou inexistente no nosso mundo real, egoísta, machista e enfadonho.
Korra trata o diferente como belo e luta não por poder, mas sim, por equilíbrio – O equilíbrio com o universo que perdemos enquanto humanos e a conexão com nós mesmos. Ela aprende com seus inimigos a busca pela igualdade, pela espiritualidade e pela liberdade, que são coisas importante, mas não imposições que funcionam da mesma maneira pra todos.
Longe de um feminino fútil, Korra vem mostrar que ser mulher é muito mais do que belos olhos ou passos bonitos, do que um estereótipo de vestidos, saltos e maquiagens: ela luta e ensina a lutar, encara seus monstros sem se tornar um deles e por fim adentra o mundo dos espíritos, na melhor metáfora sobre adentrar a si mesmo pra descobrir o caminho. Enquanto mulheres lutamos sempre contra monstros que habitam o espelho e nós mesmas, e como Korra precisamos enfrentá-los. Colocar o veneno pra fora e não absorver o veneno que nos jogam, para que assim, abracemos outras mulheres em nosso caminho e possamos dar, também a elas, o direito de encontrarem seu caminho em sororidade e irmandade feminina, pra que possamos aqui, nesse mundo pra além do mundo das séries que Korra, habita, lutar contra o autoritarismo e as maldades que nos impõem por sermos mulheres, e mulheres que um mundo machista não consegue lidar. Pois que cometamos o crime de ser divergentes juntas, e assim sejamos capaz de derrubar o que nos mantém oprimidas e o que oprime a tantos.