Ser feminista em tempos de Queer: entre o fácil e o certo

” Haverá um tempo em que você precisará decidir entre o que é FÁCIL e o que é CERTO.” 
A frase de Rowling  define como me sinto enquanto Feminista nos dias atuais. Seria mais fácil aceitar todo o ativismo feminista baseado em conceitos que não falam de mulher, e que inclusive, mascaram a misoginia que mulheres sofrem. Penso, entretanto, que ao fazer isso estaria a apagar da minha luta as mulheres por quem quero lutar, e não vou perder meu tempo em desistir dessa luta, pra entrar nas teorias mais modinhas pra agradar os ouvidos de alguns.
E sim, eu estou falando da Teoria Queer. Meu incômodo com essa teoria tem algum tempo. Primeiro, porque ela não faz sentido pra minha vida. Não tive grandes viagens pros centros do mundo, tampouco nasci com possibilidades de ignorar a realidade. Nasci mulher, fui socializada como uma, e fui e sou testemunha dos sofrimentos que mulheres sofrem enquanto seres nascidos com vaginas numa cidade pequena e numa região machista e misógina. Segundo, minha crítica começou em 2012 quando eu passei 7 meses estudando Estupro como arma de guerra na República Democrática do Congo (1). Li os relatos de mulheres que foram estupradas na frente dos filhos e rejeitadas pelos maridos, as mulheres estupradas por 30 homens de uma única vez, as mortes das meninas de 9 anos. Eu li sobre os estupros no Afeganistão, no Iraque (2), em Ruanda, na Iugoslávia. E foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido enquanto feminista. Endureci, e depois disso ficou muito difícil aceitar teorias que gritam ‘genital não define gênero’ mas criam outras mil definições de gênero, reafirmam estereótipos, e não dialogam com o sofrimentos das mulheres que estão além dos centros americanos e europeus de estudo(11).
A discussão do estupro como arma de guerra surge quase junto com a teoria queer no final do século XX. Durante a década de 90 e na década seguinte, o mundo, com a ruína da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, acreditou com Fukuyama no fim da história e na vitória do sistema capitalista. No entanto, era apenas uma falácia. Os anos 90 viu o renascer de guerras civis sangrentas ( Iugoslávia, Ruanda, Serra Leoa, República Democrática do Congo… ), invasões americanos no Oriente Médio (Afeganistão e Iraque), guerrilhas financiadas pelas grandes empresas mundiais na África e na Ásia, em que o estupro como arma de guerra é denunciado em relatos de mulheres e em estudos realizados (3). Mas, chegamos em 2015 com essa discussão apagada da universidade. Qual discussão, no entanto, aflorou e ganhou espaço? sabemos a resposta.
Estupro como arma de guerra é uma das questões mais violentas, tratando-se de conflitos, que em si mesmos já são processos violentos. Estupro é uma arma poderosa e barata e uma tática de guerra que tem sido, com sucesso, usada para aterrorizar, desumanizar e quebrar indivíduos, comunidades e famílias. Tem sido usada em conflitos desde a antiguidade, a segunda guerra mundial, a conflitos recentes como Ruanda,  Iugoslávia e Síria(12). Mas por que não estamos discutindo isso de maneira sistemática em uma conjuntura de invasões a países e guerras civis? Porque não interessa pro capital e pras grandes potências, de onde vem essas teorias modernas que não pensam mulher e suas realidades, discutir estupro como arma de guerra, tampouco incentivar seus estudos nas universidades da periferia do mundo, como América Latina e África. É necessário silenciar essa discussão e fazer com que a causa feminista pareça estar avançando sob discursos de empoderamento individual em propagandas, filmes e mulheres premiadas, pois, é preciso encobrir os crimes que os exércitos americanos cometeram contra as mulheres no Oriente Médio(4), cuja invasão, foi inclusive apoiada por movimentos feministas liberais americanos(5). É necessário silenciar debates sobre os estupros que seguem e as precárias condições de vida das mulheres, e uma população inteira, em consequência do caos que as invasões deixaram nesses países. E pra quê falar de estupros cometidos por grupos de guerrilha financiados por grandes empresas de computação, farmacêuticas e grandes bancos?(6) Melhor jogar purpurina pra cima e fingir que superamos discussões como essas. Pra quê falar sobre as violências que seres humanos nascidos com vagina sofrem? Sobre o tráfico de mulheres(7), estupros corretivos(8), mortes por aborto clandestino(9), meninas sendo forçadas a se casarem na Ásia por conta da pobreza(10), entre tantos outros problemas? é mais fácil discutir identidade, do que a realidade de uma vida de violências as quais mulheres sem condições são submetidas em todo o terceiro mundo.
Obviamente é necessário discutir a realidade das pessoas trans e dos travestis nas suas difíceis condições de vida. Minha crítica é sempre a teoria euro-americana centrada que não pensa a realidade em que vivemos e portanto ignora a misoginia, a fome, a pobreza, o subdesenvolvimento. Mas, de fato, a maioria não está interessado em mudar a vida das mulheres. Não, não. Querem apenas parecer ativistas, sentados em tronos de maquiagens de grife e sapatos caros pisando nas caras das que, como eu, discordam das suas posições. Sinto informar que com essa postura, trabalham pro sistema misógino e patriarcal existente. Os bancos e os lucros das indústrias farmacêuticas e de beleza, agradecem. As mulheres que estão morrendo e que já morreram pela negligência e indiferença pelo sofrimento feminino, com certeza não.
Referências:
1) Sobre estupro como arma de guerra na República Democrática do Congo: 
“Milícias usam estupro como arma de guerra no Congo”. IN: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/08/120814_congo_estupro_ru.shtml
“Soldiers Who Rape, Commanders Who Condone: Sexual Violence and Military Reform in the Democratic Republic of Congo” IN: http://www.hrw.org/reports/2002/drc/Congo0602.pdf
“Interview with Immaculeé Birhaheka” ( fundadora do Projeto Enough para ajudar mulheres vítimas de estupro em Goma no Congo): IN: https://www.youtube.com/watch?v=EszJzO0Ohh0
2) Sobre a Guerra no Iraque e o abuso de mulheres:
“Guerra de imagens e imagens da Guerra de imagens e imagens da guerra: estupro e sacrifício na guerra: estupro e sacrifício na Guerra do Iraque Guerra do Iraque”. IN:
3) A dificuldade de precisar os números de estupros nas Guerras é uma das questões mais difíceis de se trabalhar com esse tema. Segundo esse estudo é quase impossível precisar os números dos abusos:
IN: http://www.womenundersiegeproject.org/blog/entry/the-need-for-numbers-on-rape-in-warand-why-theyre-nearly-impossible-to-get
4) Sobre os abusos realizados pelo Exército Americano: 
“Imagens de Soldados Americanos estuprando e massacrando civis”
5) Crítica ao apoio das feministas a invasão americana: 
6) Sobre quem financia as guerrilhas na República Democrática do Congo:
“Congo: a nova guerra é por causa dos computadores”.
7) Sobre tráfico de mulheres:
“Tráfico Internacional de pessoal com ênfase no mercado sexual” IN: http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=1640
8) Sobre estupro corretivo: 
“Estupro corretivo vitimiza lésbicas e desafia poder público no Brasil”
“No Peru, Lésbicas sofrem estupro corretivo”.
9)Mortes por abortos clandestinos:
“Brasil: aborto clandestino é a quinta causa de morte materna”
IN: http://www.esquerda.net/artigo/brasil-aborto-clandestino-%C3%A9-quinta-causa-de-morte-materna/29651
“A morte e a dor silenciosa de mulheres que fazem abortos clandestinos em países pobres”
10) Sobre casamentos de meninas no Oriente Médio:
“Pobreza condena milhares de minas da Ásia a casamento forçado”. IN: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/06/internacional/1446826338_616784.html
11) Críticas a Teoria Queer e a questão da ‘Identidade de Gênero’: 
Crianças que foram hormonizadas e se arrependeram – “Leave the Kids alone”.
“A política de identidade de gênero machuca as mulheres”
12) Estupro como arma de Guerra:
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