Sobre meu Pai: a imposição do colorismo

Uma das figuras mais importantes na minha vida é meu pai. Meu pai foi a primeira pessoa a me incentivar a ler, a amar a literatura e ouviu todas as minhas histórias e planos pra essa vida. Meu pai nasceu pobre, negro e bastardo, não estudou além do primário. Começou a trabalhar aos 9 anos e abandonou a escola. Adora um palheiro e músicas de viola, como todo legítimo homem de interior nascido nos anos 50. É um homem sisudo de 60 anos mas cheio de causos.

E embora eu chame meu pai de negro, ele não se vê assim. Melhor – foi ensinado a não se ver assim. Meu pai viu desde cedo o que era ser negro de onde veio. Filho de mãe solteira por ser negra, e criado pelos avós e tios, todos negros, soube desde sempre o que é ser negro e pobre num sul racista e meritocrático. Por ser mestiço, meu pai tem cabelos lisos, e a pele mais clara, e portanto, o considerem “moreno”.  O que não muda muito a maneira com que  a sociedade sempre o encarou, pois o consideram moreno por colorismo, porque seu semblantes e traços, não negam sua descendência.

Colorismo é o que venho conversando com meu pai há meses por telefone. Ele ri  e como filha, conheço muito bem o tema como algo desconfortável pra ele. Segundo Aline Djokic do Blogueiras Negras, “o colorismo se orienta somente na cor da pele da pessoa. Isso quer dizer que, ainda que uma pessoa seja reconhecida como negra ou afrodescendente, a tonalidade de sua pele será decisiva para o tratamento que a sociedade dará a ela”¹ . Meu pai embora negro, nunca se viu negro. Sempre se viu moreninho, quase branco, e fingia não ser com ele o racismo que sofria muitas vezes. Meu pai sabia que o fato de ser um ‘negro mais claro’ , fazia com o que tratassem diferente – um pouco melhor – do que a seus tios, negros de pele escura e cabelos crespos, por exemplo.

O colorismo atua dessa forma, segundo Djokic: “a pessoa negra é tolerada, mas não aceita, pois aceitá-la seria reconhecer que a  diferença é existente e que vencer o preconceito que se tem sobre essa ‘diferença’ tenha que ser vencido”. Meu pai não entende o que é colorismo. Mas sofreu com ela a vida toda. Sabia não ser branco, e não era tratado como um. Mas também não se assumiu negro.

Talvez meu pai soubesse, inconscientemente, do que significa ser negro e que para essa sociedade, é melhor parecer branco. De acordo com Djokic: “a relação branquitude-pessoa negra de pele clara o importante não é convencer-se de que a pessoa seja na verdade branca, mas sim conseguir ignorar seus traços negros a ponto de conseguir imaginá-la branca, a ponto de poder suportar sua presença que, por causa do racismo, é vista como intrusa”. E com a vida que ele teve, e que outros como ele tiveram, relegados a empregados mal-tratados pela cor da pele que tinham , se reconhecer e se orgulhar de ser negro, era uma tarefa para poucos.

E na semana da consciência negra, é importante lembrar o quanto a sociedade tirou os negros de sua história e os relegou a um canto qualquer. Ainda mais mulheres negras. Quem lembra de Maria Carolina de Jesus?  O é racismo continua presente em toda a sociedade e há um longo caminho de lutas que temos pra desconstruir isso. No Brasil, que diz se orgulhar de suas raízes mestiças, segundo dados recentes evidenciados pelo Mapa da Violência apontam que o Brasil, em números absolutos, é o país com o maior índice de assassinatos do mundo. Só em 2012 foram 56 mil pessoas, sendo 30 mil jovens entre 15 e 29 anos, destes 77% jovens negros².  54% das mulheres nas prisões se consideram negras ou pardas³. É necessário querer ser branco num país com esses índices. E quando se é mulher e negra mais ainda.

Ao escrever sobre isso, não falo por mim, porque eu não nasci negra, embora tenha os traços do meu pai. Sou branca nascida numa família mestiça e reconheço o privilégio que tenho enquanto nascida com a pele branca. Mas escrevo por meu pai, porque ele não teve as chances que eu tive de entender o mundo e tampouco de se ver nesse mundo com o orgulho que poderia de suas raízes cheias de luta. E eu me orgulho dele e dessas raízes que ele me deu e do que ela me ensinou. Na semana da consciência negra, eu faço das lutas do meu pai minha inspiração.

 

Referências:

  1. ‘Colorismo, o que é, como funciona’. In: Blogueiras Negras. Link: http://blogueirasnegras.org/2015/01/27/colorismo-o-que-e-como-funciona/
  2. ‘No Brasil, 68% das mortes violentas são de negros’. In: Exame. Link:  http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/consciencia-negra-68-das-mortes-violentas-sao-de-negros
  3. ‘Mulheres e Prisão’. In: Blogueiras Feministas. Link:  http://blogueirasfeministas.com/2013/02/mulheres-e-prisao/

 

 

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