Como findam as Tardes

18:26 – Eu prendo meu cabelo numa boina preta pra evitar o vento frio e me apresso pra chegar no ponto do ônibus da Beira-Mar. Dois carros se buzinam onde tinha espaço pra ambos, os dois homens se xingam e seguem queimando pneus. O homem andando alguns passos atrás de mim saindo da academia comenta no telefone que está interessada na personal e conta que combinou de sair com ela, logo depois pede pra pessoa do outro lado da linha dizer que eles estavam juntos se a namorada dele perguntar alguma coisa. Ele dá uma risada cínica, eu suspiro indignada e ando mais rápido.
Por volta das 18:41, eu finalmente entro no ônibus. Mais um ônibus que passa pela rua que menos precisa deles. Vou admirando o mar sumindo com a noite, enquanto pessoas se esmagam ao meu redor pra caber no pouco espaço que restou. Uma mistura de cansaços e stress se lê no rosto das pessoas que te olham raivosas quando você derruba a bolsa sem querer no colo delas, e quem pode culpá-las? Quando finalmente chego no segundo terminal pra pegar o ônibus pra minha casa, descubro que ele está sem luz e que meu ônibus vai atrasar, e perco a pouca animação conquistada enquanto pensava feliz nas minhas pantufas quentinhas do canto do quarto.
Eu menstruei hoje. Estou com dor de cabeça, com cólicas e com o corpo dolorido. Me escondo dentro do meu casaco e me enrolo sobre a minha bolsa. De um lado uns moleques vestidos em moletons de colégios particulares caros da ilha fumam um cigarro baforando fumaça pros meus cachos limpos. Sob a meia luz eu os xingo baixo de quantos demônios existam. Do outro lado uma senhora reclama da espera. A menina do meu lado mexe no whatsapp e dá uma risadinha alegre com uma mensagem que recebeu. Eu tiro a boina e olho de novo o horário. 15 minutos de atraso.
Os mesmos moleques acendem mais um cigarro. O cheiro que a humanidade inventou para sua própria decadência me lembra que desde Da Vinci nós evoluímos muito pouco como seres humanos apesar das máquinas que criamos. Quando meu ônibus finalmente encosta as luzes acendem como se rissem da desgraça alheia. Os mesmos meninos entram no meu ônibus atropelando um senhor que os xinga enquanto eles mostram o dedo do meio. Isso me lembra Bukowski, mas a realidade é menos poética. No ônibus eu sento ao lado de um homem que insiste em puxar conversa enquanto sigo monossibálica. Eu levanto do banco quando ele tenta tocar meu cabelo e o mando pro inferno. É por isso que eu sou feminista, penso.
Um calafrio me percorre quando finalmente cruzo o portão da minha casa. Abrindo a porta do quarto eu olho minha caneca da Jane Austen e meus bilhetes pra mim mesma. Eu quero comer miojo mas ainda tenho que fazer almoço pra amanhã. São 19:43. E nesse mundo em que vendemos nosso tempo em troca de dinheiro, eu vejo que meu dia acabou e eu ainda tenho que ler Tocqueville.

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