ARTE: ‘Feminismo pra quem?’ por Cecília Ramos

12088239_939434476130541_623732223154386364_nSe o seu feminismo não pensa  nas mulheres pobres, nas mulheres negras, nas travestis nas ruas, nas mães solteiras, nas mulheres abusadas nas penitenciárias, em quem ele está pensando?

Se o seu feminismo usa de uma linguagem pouco acessível para se dialogar sobre, se as mulheres mais simples não entendem o que seu feminismo diz, se ele não fala pros lugares que mais precisam ou dialoga com eles, onde ele quer dialogar?

Se o seu feminismo não olha pras vítimas de abusos, não discute aborto, maternidade compulsória, cultura de estupro, feminilidade imposta, a serviço de quem ele está?

Se o seu feminismo não olha pra própria realidade, para a pobreza, para a luta pela terra e por moradia, pra colonização de pensamento, pra super-exploração e pro subdesenvolvimento nas terras em que você vive, quem esse feminismo está visando?

Pra QUEM serve teu feminismo?

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Eu, Feminista Terceiro-Mundista e Latino-Americana

Eu sou uma feminista terceiro-mundista – e latino americana. Porque eu me identifico com o feminismo feito pelas mulheres bolivianas, com a luta das mulheres palestinas pelas suas terras e das mulheres peruanas contra a mineração. Com as revoltas das mulheres do cariri, com as cooperativas de mulheres de Moçambique. Porque me vejo nas palavras de mulheres indianas sobre o estupro, porque eu acredito na critica das Zapatistas sobre o silêncio da América Latina sobre os sofrimentos de suas mulheres, porque os escritos de um feminismo latinos americano descreve a realidade que eu vivo – de um país subdesenvolvido, explorado e de terceiro mundo, e minha, como mulher pobre, filha de negro.
Eu sou uma feminista de terceiro mundo, latino americana. Me solidarizo com os sofrimentos das meninas nigerianas sequestradas pra ser escravas sexuais, eu denuncio o estupro como arma de guerra e o machismo institucionalizado e presente de maneira autoritária mesmo nos grupos mais progressistas desse continente, incapazes de problematizar pornografia, violência contra a mulher e exploração da mulher, porque privilegia a muitos que a mulher siga sendo propriedade do homem rico e a proletária do proletário.
Eu sou uma feminista de terceiro mundo porque embora importantes, pensadoras de países centrais não reconhecem o sujeito não-branco e pobre que são, em grande maioria, as mulheres de terceiro mundo. Porque eu nasci no terceiro mundo. Nasci pobre, neta de lavadeira, filha de gente preta, de interior e excluída socialmente. Porque me orgulho disso, e me sinto parte desse mundo não representado e colonizado que precisa pensar por conta própria e se libertar das figuras de mulheres calientes cujas bundas servem pra ser admiradas e cujo trabalho é mal remunerado.

( em: 13/06/2015 )

Jane Austen: não, ela não era conservadora.

Caras conservadoras, sinto informar, mas Jane Austen não defendia a família e o casamento: Jane Austen defendeu mulheres, criticou a a elite, a escravidão e a hipocrisia de sua época. Hoje, ela não estaria do lado das mulheres unidas contra o feminismo, ela estaria do lado das mulheres reais, como esteve em seu tempo, e dos homens que se permitem desconstruir.
Jane foi uma mulher de poder, que ousou escrever quando não deixavam mulheres escrever. Que ousou recusar uma dedicatória a rainha por não reconhecer nela poder. Que ousou ficar solteira quando todos insistiam em casar mulheres pra não ficarem tias. Jane falou sim da mulher inteligente, da mulher que lê, que assume as responsabilidades, que luta para viver. Ela não falou elogiando a vaidade exacerbada, tampouco a feminilidade como qualidade pra mulher. Elizabeth Bennet não era bonita ou feminina, era forte e destemida. Anne Elliot era leal e justa. De onde tiraram que ela defendia o papel da mulher de família? Não! Ela faz o oposto!
Parem de deturpar Jane pra servir aos moldes machistas do que é ser mulher. Jane criou mulheres donas de si que foram donas da sua vida. A obra dela não é sobre romances vazios e cristão. É sobre mulheres fortes e sobre quebrar o estereótipo do que é ser mulher pra uma sociedade hipócrita.

( em 28/06/2015 )

‘Minha Ansiedade tem Ansiedade’

O fim do mundo é todo dia da semana. Cada toque do relógio é um estalo de chicote relembrando a dor de segundos que escorrem pelos dedos enquanto a paralisia segue entre 4 paredes com um computador e um texto marcado e revisado pela vigésima vez.
O silêncio agride, a rejeição é aguda mesmo quando nem parece ser rejeição pra outrem. Ansiosos são de outro mundo, uma gota é um oceano, cada tropeço é uma queda. O amanhã é a sombra virando a esquina que te engole no presente e te envia pro passado. É o monstro marinho com quem você luta todos os dias.
Sentimos em exagero da tragédia ao amor mais intenso. Exagerada mas jamais jogadas aos pés. O mundo acaba e começa todo dia, mas as pessoas sequer tem consciência disso. A ansiedade tem ansiedade e ela te devora com olhos castanhos que anunciam tempestades.

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( em 01/07/2015 )

TPM: o monstro incompreendido

Acusam tudo de ser TPM: Uma mulher irritada, estressada e de mau-humor só pode estar de TPM. Se ela tiver olheira, se o cabelo estiver ruim, se ela estiver com a cara fechada, só pode estar de TPM. No entanto, por mais que se fale dela, pouco se respeita. Como a maioria das questões femininas, a TPM é considerada frescura, apenas mais uma razão para que mulheres sejam humilhadas e rebaixadas a seres inconstantes e irracionais.
Mas TPM não é brincadeira. E aqui, falo por mim e por muitas mulheres que sofrem com isso. Nos xingam e nos desrespeitam, nos chamam de desequilibradas nesse período, mas não param um minuto pra entender. Acham TPM onde não tem e aí fazem piada. É piada interna de homem no boteco, é a piada entre amigos sobre a namorada enfezada do outro. Mal sabem eles os turbilhões que o corpo feminino passa por, e o quanto hormônios são pequenos seres infernais que nós ignoramos apesar da influência enorme que eles têm no nosso organismo.
Mal sabem eles que não é divertido pra nós mulheres nos sentirmos triste sem razão, chorarmos por razões desconhecidas e sentir uma irritação absurda em alguns momentos. Não é divertido. Eu não acho. Eu sou uma pessoa ansiosa e introvertida, não é fácil pra mim, assim como não acho que seja pra outras mulheres, sentir uma enxurrada de sentimentos, passando da solidão intensa a uma enorme braveza. Não é drama, como vocês, do auge da ignorância, adoram chamar. Não é frescura. O corpo passa por muita coisa e o emocional – olha só! – externa de alguma maneira.
Essa é uma sociedade em que homens podem gritar e sair furiosos com seus carros, que todos vão passar a mão na cabeça. Podem ficar bravíssimos com o resultado de um jogo de futebol que as pessoas vão entender. Uma mulher de TPM é razão de piada, humilhação e inferioridade. Nós somos mais do que TPM, mas ela, em muitas de nós existe e vai existir. Não é falta de esforço, de reação como nos dizem. Vocês, homens, não tem ideia do que é menstruar, do que é sentir cólicas infernais e uma TPM absurda. Então, cara sociedade, tentem entender e parem de zoar! Não é algo engraçado. Não é drama. É parte do nosso corpo, que pra variar, objetificam, mas não entendem, não conhecem e não respeitam.

( em 16/07/2015 )

O Feminismo atual e suas limitações

O Feminismo de hoje defende mais os homens do que as mulheres. Briga pra que homens possam usar salto, mas não faz grandes discussões sobre a situação das mulheres nas penitenciárias. Briga pra dar voz aos homens no movimento, ao invés de defender aquela desconhecida chamada de Baranga pelo amigo. Briga pra dar voz a problemas individuais, esquecendo que opressão não é só o que te atinge e muito menos sobre escolhas, assim, simplesmente.
Esse Feminismo liberal de quinta, não me representa. Porque ele esqueceu as mulheres que nasceram e foram CRIADAS sob um estereótipo feminino misógino, esqueceu as mulheres negras, esqueceu as mulheres pobres. Esqueceu as mulheres que morrem, pra dar protagonismo pra macho que quer se fantasiar de mulher, pra mulher branca e rica.
Homens não precisam de espaço no feminismo: eles precisam pegar todos os espaços que já tem na sociedade e fazê-los feministas. Porque não adianta ser feministo no discurso, mas na prática ter relacionamentos abusivos, em que trai sem pensar na outra pessoa e acha isso normal, que discrimina mulheres pelo tipo físico, que acha que a inclusão de mulheres prejudicou movimentos sociais. Feminismo é sobre quebrar as correntes e desconstruir o machismo diariamente. Não é olhar pra uma mulher questionando seu comportamento e dizer que ela é radical demais. Até Porque, todas deveriam ser radicais demais pro sistema de merda que está aí.
Ser feminista exige mais do que retórica e teoria de nomes espalhafatosos de escritores do centro do mundo. E enquanto nós brigamos pra dizer que não, não odiamos homens; não, não quero cortar sua liberdade individual; mulheres são estupradas, mortas, vendidas no mercado negro, trabalham horas pra ganhar menos que um homem que não faz metade do que ela faz, apanham do marido e não tem pra onde ir, são abandonadas na depressão. Isso é uma sociedade misógina e homens não experimentam misoginia, sofrem com machismo sim, mas por favor, não comparem isso com o que uma mulher vive de machismo na vida dela. Feminismo e ser feminista é pensar pra além do indivíduo, é pensar o coletivo. E o feminismo de hoje, liberal, individualista e acadêmico, comprado pela Vogue e por marcas de maquiagem pra vender pra alguns e algumas a fantasia do que é ser mulher, não serve pra merda nenhuma, só atrasa e destrói décadas de luta.
É preciso mais do que isso, e é preciso voltar o olhar pras mulheres que precisam, pra realidade feminina a ser mudada. É preciso um feminismo não-hegemônico, que pense a realidade subdesenvolvida em que vivemos e a violência sistêmica que existe.

( em 11/08/2015 )

Como findam as Tardes

18:26 – Eu prendo meu cabelo numa boina preta pra evitar o vento frio e me apresso pra chegar no ponto do ônibus da Beira-Mar. Dois carros se buzinam onde tinha espaço pra ambos, os dois homens se xingam e seguem queimando pneus. O homem andando alguns passos atrás de mim saindo da academia comenta no telefone que está interessada na personal e conta que combinou de sair com ela, logo depois pede pra pessoa do outro lado da linha dizer que eles estavam juntos se a namorada dele perguntar alguma coisa. Ele dá uma risada cínica, eu suspiro indignada e ando mais rápido.
Por volta das 18:41, eu finalmente entro no ônibus. Mais um ônibus que passa pela rua que menos precisa deles. Vou admirando o mar sumindo com a noite, enquanto pessoas se esmagam ao meu redor pra caber no pouco espaço que restou. Uma mistura de cansaços e stress se lê no rosto das pessoas que te olham raivosas quando você derruba a bolsa sem querer no colo delas, e quem pode culpá-las? Quando finalmente chego no segundo terminal pra pegar o ônibus pra minha casa, descubro que ele está sem luz e que meu ônibus vai atrasar, e perco a pouca animação conquistada enquanto pensava feliz nas minhas pantufas quentinhas do canto do quarto.
Eu menstruei hoje. Estou com dor de cabeça, com cólicas e com o corpo dolorido. Me escondo dentro do meu casaco e me enrolo sobre a minha bolsa. De um lado uns moleques vestidos em moletons de colégios particulares caros da ilha fumam um cigarro baforando fumaça pros meus cachos limpos. Sob a meia luz eu os xingo baixo de quantos demônios existam. Do outro lado uma senhora reclama da espera. A menina do meu lado mexe no whatsapp e dá uma risadinha alegre com uma mensagem que recebeu. Eu tiro a boina e olho de novo o horário. 15 minutos de atraso.
Os mesmos moleques acendem mais um cigarro. O cheiro que a humanidade inventou para sua própria decadência me lembra que desde Da Vinci nós evoluímos muito pouco como seres humanos apesar das máquinas que criamos. Quando meu ônibus finalmente encosta as luzes acendem como se rissem da desgraça alheia. Os mesmos meninos entram no meu ônibus atropelando um senhor que os xinga enquanto eles mostram o dedo do meio. Isso me lembra Bukowski, mas a realidade é menos poética. No ônibus eu sento ao lado de um homem que insiste em puxar conversa enquanto sigo monossibálica. Eu levanto do banco quando ele tenta tocar meu cabelo e o mando pro inferno. É por isso que eu sou feminista, penso.
Um calafrio me percorre quando finalmente cruzo o portão da minha casa. Abrindo a porta do quarto eu olho minha caneca da Jane Austen e meus bilhetes pra mim mesma. Eu quero comer miojo mas ainda tenho que fazer almoço pra amanhã. São 19:43. E nesse mundo em que vendemos nosso tempo em troca de dinheiro, eu vejo que meu dia acabou e eu ainda tenho que ler Tocqueville.

Para reflexão de Esquerdomachos

Para reflexão de Esquerdomachos:

“Eu sou Feminista” = Não querido, você não é. Você pode apoiar o feminismo, você pode buscar entender o que é ser feminista, e deve usar dos espaços e da fala que como homem você tem mais do que as mulheres ao seu redor para torná-los feministas. Chamar aquela colega de classe de ‘gostosa’ ou outra de ‘baranga’ secar a Caloura de 17, faz de você um babaca machista e não interessa se você se reivindica feminista ou não. Mulheres não existem para agradar seus olhos embora a sociedade inteira queira dizer isso.

“Eu sou um machista em desconstrução” = Que bom colega! agora pare de repetir isso no DISCURSO e coloque isso em PRÁTICA. Comece não flertando com outras meninas enquanto você tem namorada, respeitando mulheres ao invés de vê-las como objeto sexual, pare de se gabar sobre querer pegar aquela ‘mina peituda’. Desconstruir o machismo é uma luta diária, e se no meio dos teus amigos você fala da bunda, do peito de alguém, ou pior, se você acha que pode mandar em mulheres nos espaços de luta, se você silencia mulheres deliberadamente, de novo – você é só mais um babaca machista.

“Mulheres também são machistas” = Sim, a sociedade é. Até Dalai Lama é. A questão é que mulheres não ganham nada com o machismo. Já os homens tem um sistema inteiro de privilégios baseado nisso. Estude e não repita isso.

“O feminismo de vocês é Liberal” = Eu não sou do feminismo liberal. Mas tem quem seja e a luta delas foi o que permitiu que eu hoje possa votar e ter entrado pra universidade. E que direito você acha que tem pra julgar o feminismo? Eu discordo dos princípios do feminismo liberal, mas apoio mulheres que porventura, encontraram um caminho pra superar a opressão sobre elas através desse viés.

” Vocês feministas odeiam homens” = Algumas sim, e não culpo elas. Num país em que uma mulher sofre estupro a cada 10 minutos não dá pra pedir que não se odeie. Em um continente em que morrem mais mulheres por violência de gênero do que por câncer ou acidentes de trânsito, vocês reivindicam amor demais e questionam muito pouco o amor que homens dão ou oferecem a suas mulheres.

“O debate de gênero atrapalha os movimentos” = Sim, na era medieval eles pensavam assim também. Lênin falou também sobre primeiro fazer a revolução pra depois resolver a questão do patriarcado. Porque é difícil pros homens descerem dos privilégios que tem pra enxergar que mulheres como classe social precisam de discussões específicas que eles não precisam, e é mais fácil ignorar e silenciar isso, do que colocar na roda de debate e levar em consideração.

“Nem todos os homens são assim” = A clássica. Caro, todos os homens são machistas. Eu cansei de ouvir de amigo progressista “Você é radical demais” ou de saber dos posicionamentos abusivos em relações às namoradas ou a outras mulheres, de ver silenciar mulheres e não levar em consideração argumentos de uma mulher simplesmente por ela ser mulher. Nós crescemos em uma sociedade em que o machismo é enraizado desde seu primórdio, American Pie que é a porcaria mor da minha geração e ensinou uma geração de homens sobre o que é ser um idiota machista. O machismo está até nas pequenas coisas que se recusam a problematizar, aquele flerte descarado no bar quando a namorada não está junto, o vídeo de putaria que você repassa pros amigos, xingar aquela amiga de baranga, até achar que a culpa é da mulher quando ela é estuprada porque estava com tal roupa ou bebeu demais. A sociedade é machista, todos os homens o são. Lidem com isso e comecem a desconstruir isso de maneira prática, e não apenas no discurso.

Enfim, o ponto aqui é – o tempo inteiro homens de esquerda reivindicam apoiar feminismo mas NA PRÁXIS, NO CONCRETO, NÃO O FAZEM. Vivem relacionamentos abusivos, submetem suas namoradas, a acusam de ser “o homem da relação” quando elas reclamam dos abusos, as traem, silenciam as amigas numa luta universitária, ignoram os argumentos femininos, e continuam tratando mulheres como objeto sexual. Outros sequer reconhecem importância no feminismo e só dizem que é inútil, um ‘feminismo de quinta’. Porque claro, uma luta que quer discutir sobre as mulheres morrendo nas mãos de companheiros e ex-companheiros, sendo estupradas e sendo humilhadas e excluídas de vários meios, do acadêmico ao político, é muito inútil. Com certeza. Já dizia um muro colombiano – não há nada tão igual a um machista de direita que um de esquerda.

( em 30/08/2015 )